Convidado: ORLANDO NASCIMENTO


Pedro Correia,

 

Divagação citadina

 

O que é uma cidade?

É um espaço geográfico e físico, ou são as pessoas que lá vivem e trabalham?

São as ruas, os jardins, os edifícios? É tudo isto?

Uma cidade na Europa é igual a uma cidade na Ásia, na América, em África? Têm todas as mesmas filosofias? As pessoas têm ligações semelhantes?

Nos dias que correm, uma grande parte da população vive em cidades. Será mais cómodo, haverá mais emprego, terá mais actividades lúdicas.

E há um fenómeno quase contraditório: as cidades têm mais pessoas, mas é nas cidades que as pessoas são mais anónimas. No campo, todos sabem da vida de todos, a família, as relações, os encontros e desencontros; nas cidades, a multidão torna-nos desconhecidos. Não sabemos nada (ou apenas muito pouco) de ninguém.

Em contraponto, há nichos nas cidades que vivem como nas aldeias. Conhecem-se, sabem as rotinas, conhecem a família, as relações, tratam pelo nome. Ainda esta manhã presenciei uma cena quase rara.

Bem no centro de Odivelas, uma senhora de meia-idade estava na sua marquise, a olhar a rua. Passa um senhor também de meia-idade. Pede desculpa e pergunta se conhece o Sr. Alberto (agora não me recordo do nome correcto). A senhora diz que conhece, mas que mora na janela ao lado.

E numa cidade cheia de multidões, o que são essas pessoas? Vivem? Correm de casa para o emprego e vice-versa? Que vida têm? Apenas rotinas? Imprevistos? Tudo esquadrinhado numa qualquer agenda? Têm filhos? Animais domésticos? Vidas secretas?

Num local pequeno, numa aldeia, a vida é mais calma. Há tempo!

O tempo corre devagar, há tempo para o outro, para o próprio. As solicitações serão menos, mas a qualidade do tempo é superior. Não há a urgência do momento, do “já!”

No entanto, o facto de as pessoas se conhecerem todas bem, de terem tempo, tem inconvenientes. O boato, a intromissão na vida dos outros é um facto permanente. Incómodo.

Um simples facto, porventura irrelevante, é comentado durante semanas.

Costumo dizer, a brincar, que em Lisboa, se descesse a Rua Augusta nu, as pessoas olhavam e comentariam: “olha um maluco”, e esqueciam.

Num sítio pequeno, seria assunto para indignações e debate durante semanas! Uma sem-vergonhice, esta gente moderna.

 

Entre uma e outra coisa, escolho a cidade. Tem tudo. E, conhecendo os sítios, encontram-se refúgios, locais de escape.

Se conheço o nome de alguém do meu prédio? Não. E não me preocupa.

Afinal, só gosto que entre na minha vida quem eu quero. Disso não abdico.

 

Orlando Nascimento

2 comentários em “Convidado: ORLANDO NASCIMENTO”

  1. Concordo consigo quando se refere que só entra na nossa vida quem nós queremos.
    Só que num meio pequeno (Aldeia ou vila ou ate mesmo uma cidade interior) mesmo que não queiramos acabam por entrar na nossa vida sem a nossa permissão… diria mais, até em grandes cidades isso acontece, só que em menor escala… pela unica diferença: não há contacto social! Isto é, em cidades grandes, vamos ao café, vamos ao cinema, vamos a qualquer lado, e passamos por anonimos, por desconhecidos, pela razão que só convivemos com quem conhecemos… num meio mais pequeno, todos nos conhecem, e acabamos por ser “obrigados” a conviver, e não somos desconhecidos nem anonimos, logo, “sem o permitirmos”, permitimos de forma inconsciente que entrem na nossa vida!
    Se a vida é melhor em meios pequenos ou maiores, isso é muito discutivel. Temos qualidade de vida, sim em meios pequenos, mas será que isso não nos acaba por “sufocar”?!?!? E será que isso é suficiente para vivermos nesses meios?!??! Sim para alguns de nós isso basta, para outros não basta, é como tudo na vida: é opção de cada um! =)
    Por isso muitos viajam para meios grandes… desanuviar, dizem!
    E outros viajam em sentido inverso, para relaxar, descontrair!!
    No fundo, sejam meios grandes sejam meios pequenos, acabamos sempre por VIVER!!!E é isso que é importante!

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