Convidado: NUNO DIAS DA SILVA


Pedro Correia,

  

Sócrates, ascensão e queda

 

Tarde e a más horas, mea culpa, escrevo o artigo que o Pedro Correia teve a amabilidade de me solicitar para este blog. Como diz o nosso povo, mais vale tarde do que nunca. Portanto, aqui vai.

Escolhi, para as breves linhas que vou escrever, uma rápida reflexão sobre a figura política que nos tem governado nos últimos cinco anos e meio. José Sócrates, de seu nome. Lembro-me como se fosse hoje. Devíamos estar em 2002 ou 2003. Abordei-o pela primeira e única vez, na minha condição de jornalista, em Resende, em pleno «cavaquistão», numa rentreé socialista, enquanto o então secretário-geral, Ferro Rodrigues, discursava, perante um céu cor de chumbo, que desabaria, quase acto contínuo, com uma tremenda granizada, típica do interior. Elegante, vestido de preto da cabeça aos pés, casaco de cabedal, cabelos já grisalhos, braços cruzados. Sócrates estava diluído na multidão, como se fosse um deles. Discreto, ficou embaraçado com a abordagem. Rejeitou falar, delicadamente. Invocou que a «festa estava a ser muito bonita». Perante a insistência, não fez estalar o verniz, mas ensaiou tiques de exasperação que viria a demonstrar, mais tarde, como Primeiro-Ministro. Provavelmente não saberia (ou se calhar até sabia ou intuía) que daí a três anos seria o novo homem forte dos socialistas.
Henrique Neto, o terror dos socialistas do aparelho – uma espécie de Medina Carreira do Largo do Rato – ainda hoje conta uma história que diz que Sócrates foi «eleito» numa reunião secreta de socialistas poderosos e influentes num hotel da Curia, onde figurava essa eminência parda do guterrismo, e agora das obras públicas, chamada Jorge Coelho. Uma espécie de conclave papal, que em vez de ser na Capela Sistina aconteceu à mesa, perante um belo leitão. Não houve fumo negro, mas a sua sorte estava ditada. Era ele o escolhido. Chegaria a Primeiro-Ministro, fruto das circunstâncias e do Presidente em funções. Sampaio foi amigo. Primeiro traiu Ferro e depois deu uma mãozinha a Sócrates. A campanha eleitoral foi um número de ilusionismo e os 150 mil empregos o passe de mágica que nunca conseguiu materializar. A noite eleitoral de 20 de Fevereiro foi retumbante para Sócrates, qual ungido de Deus.

Inaugurava-se um novo período: o «guterrismo sem Guterres» ou um «guterrismo recauchutado». Os dois primeiros anos foram de muito fôlego. Contudo, as promessas de ataques às corporações revelaram-se sol de pouca dura. O governo perdia energia com a desgastante Presidência Europeia. A tal do «porreiro, pá». Ao processo de erosão do político Sócrates só resiste a imagem Armani, que desde sempre cultivou, mantendo a sua eterna pose charmosa, aparecendo sempre que as boas noticias o justificavam e evaporando-se em dia de borrasca. Exímio orador com teleponto, pode dizer-se que Sócrates a quase tudo sobreviveu: rumores de homossexualidade, os casos da licenciatura da Independente e do Freeport, e até as estranhas casas desenhadas pelo engenheiro Pinto de Sousa na Guarda. Um verdadeiro case study no difícil exercício de resistir a um permanente desgaste de imagem. Mas os políticos querem-se bonitos, charmosos e bem-falantes. E Sócrates tem essas características que fazem dos políticos da sua geração autênticos «Plastic Men». Foi essa a receita para sobreviver com a sua popularidade relativamente intacta durante tanto tempo. Contudo, nada é para sempre.

 

 

Esta foto publicada pelo DN simboliza bem a falta de frescura política do Primeiro-Ministro. Um esgar de esforço, qual maratonista em lenta agonia, tal como uma governação que se arrasta penosamente, sem ver a meta à vista. Longe vão os tempos em que as fotos, inclusive as captadas pelo fotógrafo oficial de S. Bento, mostravam o homem com o seu melhor ar. Neste último instantâneo surge, em Macau, quase em solitário, na companhia de um segurança, que se presume asiático, em vez de aparecer com a habitual guarda pretoriana que normalmente o acompanha. O seu inverno político e pelos vistos desportivo está a chegar. Sócrates é um corredor de fundo à beira da reforma que tem para si reservado um rodapé na história deste país. Para a imortalidade ficará conhecido com o cognome de «o determinado». Apenas. Seja lá o que isso tenha sido.

 

Nuno Dias da Silva

6 comentários em “Convidado: NUNO DIAS DA SILVA”

  1. Notável retrato que o amigo Nuno Dias da Silva faz do primeiro-ministro. Já o tenho dito e reafirmo: José Sócrates é talvez o político que por mais tempo tem conseguido enganar os portugueses. Quase tudo à sua volta é dúbio. Quase tudo é questionável. Quase tudo é lamentável.
    Sócrates é um dos melhores exemplos do marketing político. Fora da política não teria sido ninguém com repercussão pública.

    1. Um autentico vendedor da “banha da cobra” com mala, varinha e sem cobra, que eu vi muitas vezes na minha infancia e que juntava muitos mirones que sabiam que não havia cobra nenhuma mas gostavam de ver.

  2. Excelente texto, dos melhores que por aqui se têm lido. Parabéns ao autor!
    (Quanto ao rodapé, desejo que nem isso lhe esteja reservado. É preciso que o País e a História o esqueçam quanto antes; de outro modo, etc., etc., etc.).

  3. “ensaiou tiques de exasperação que viria a demonstrar, mais tarde, como Primeiro-Ministro”

    Não se trata de tiques ensaiados, trata-se mesmo da sua personalidade.

    Eu vi isso uma só (felizmente) vez, num debate em que ele estava na mesa, era ele (salvo erro) secretário de Estado do Ambiente. A certa altura contradisseram-no, ou disseram algo com que ele não concordava, e ele exsperou-se, começou a defender a sua tese aos gritos, completamente fora de si e num registo muito indelicado, tanto para os colegas de mesa como para com a audiência.

    É um grave defeito de Sócrates, em certas ocasiões ele perde as estribeiras e começa a barafustar como um possesso.

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