Em 2011 fará 500 anos que os portugueses chegaram às terras do então Sião numa primeira fase da expansão portuguesa depois da conquista da Índia. A partir da praça-forte que era Goa as naus portuguesas começaram a explorar para oriente e assim foram chegando primeiro a Malaca e mais tarde, nesse mesmo ano de 1511, a Ayuthaya, a então capital do reino do Sião. Ali ficámos durante muitos anos, criando a base de uma comunidade luso-descendente ainda existente e ajudando os siameses nas suas lutas contra os birmanes.
Portugal é sem dúvida o primeiro grande explorador das terras asiáticas. Existem inúmeros marcos dessas viagens desde a Índia até ao Japão.
Contudo hoje em dia para Portugal parece nada existir na Ásia para além da Índia, China e Timor-Leste (este quase que por dever) e o desconhecimento sobre a Ásia é grande.
Os discursos políticos que se ouvem quer nas Necessidades quer em São Bento para aí apontam. A forma como são encaradas as nossas representações diplomáticas e comerciais são disso também um claro sinal. Um simples navegar pelos sítios do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do AICEP são tristemente esclarecedores.
Deste modo vamos em 2011 prepararmo-nos para “não comemorar” aquilo que por dever histórico, patriótico e hoje em dia económico deveríamos fazer. Interessante é que os nossos parceiros assumem muito mais a sério essas datas do que nós e irão levar a efeito, por iniciativa e memória próprias, um vasto número de actividades comemorativas.

Olhando agora para a Tailândia que os portugueses conheceram em tempos e que agora “desconhecem”, com muita mágoa minha, não posso deixar de relatar que o inverso não é verdade. Aqui o comum dos tailandeses sabe que os portugueses foram os primeiros a aqui chegar e conhecem bem os elementos da cultura local relacionados com essa passagem dos portugueses por estas terras, nomeadamente a doçaria tradicional inspirada nos nossos doces conventuais trazidos para o Sião por uma luso-japonesa de nome Maria Guiomar ao tempo do Rei Narai.
Ao contrário do que muitos portugueses pensam a Tailândia é hoje, como a grande maioria dos países na Ásia, uma força bem viva e vibrante daquilo que é o mundo do futuro sem esquecer a sua cultura tradicional que está fortemente enraizada no seu povo. Combina assim uma sociedade bem ligada ao seu passado com uma força económica impressionante e um desenvolvimento que seria muito bem-vindo no nosso país.
Por certo que para muitos portugueses a Tailândia está na memória recente pelas manifestações, com alguma violência, que ocorreram em Abril e Maio deste ano. O facto é que, e apesar disso, a economia cresceu no primeiro semestre deste ano uns impressionantes 10.2%. E note-se que a Tailândia não é um país subdesenvolvido, como se pode observar em todas as estatísticas das Nações Unidas, e a sua capital – Banguecoque ou Bangkok – é uma cidade do mundo onde o poder de compra e a oferta de serviços é muito superior ao que Lisboa pode oferecer. A economia da Tailândia é baseada na exportação embora seja de igual modo um dos poucos países do Mundo auto-sustentável do ponto de vista alimentar.
As principais exportações do país são: acessórios para computadores e computadores, acessórios para automóveis e automóveis (a Tailândia é o 7º maior produtor mundial de automóveis), borracha, pedras preciosas, arroz (maior exportador mundial), frangos (segundo maior exportador mundial após o Brasil), camarão, atum em lata (o maior exportador mundial sem que contudo capte um só atum), etc.
A economia não é baseada na exportação de produtos baseados em baixa tecnologia ou baixos salários: é sim baseada em forte investimento estrangeiro (Japão e a União Europeia nos dois primeiros lugares) e local, e na qualidade da mão-de-obra. E tudo isto se passa no momento em que o baht, a meada tailandesa, tem vindo a sofrer uma forte pressão em alta (o euro já perdeu este ano cerca de 23,5% em relação ao baht). Apesar disso as exportações continuam a aumentar a um ritmo impressionante, fundamentalmente puxadas pelo vigor dos mercados asiáticos com a China à cabeça.
A Bolsa de Bangkok também acaba de atingir o seu máximo desde Dezembro de 1996, e os ganhos dos investidores desde o início do ano já ultrapassam os 60%, o que faz atrair fortes fluxos monetários vindos do exterior e coloca mais pressão sobre o baht.
A Tailândia sabe viver o passado, sabe conhecer as suas raízes, como o irão mostrar as comemorações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Sião, mas sabe igualmente projectar-se no futuro sempre com um sorriso e uma visão positiva. São quase 65 milhões de pessoas profundamente enraizadas numa sociedade tradicional e fortemente budista onde a família é peça crucial ao mesmo tempo que são capazes de grandes aventuras viradas ao futuro.
Será um bom exemplo para Portugal?


Nuno Caldeira da Silva está carregado de razão e, ainda por cima, apresenta uma visão simultaneamente alargada e objectiva. Parabéns.
Seria bom que Portugal ao menos aderisse, já que não toma as iniciativas para seu próprio bem. Infelizmente, por cá, são poucos os que têm alguma ideia sobre a pujante realidade tailandesa (que a maioria se limita a traduzir canhestramente por “turismo sexual”).
Caro Nuno
As suas palavras não podiam ser mais assertivas. Portugal foi o primeiro pais do Ocidente a ter relações comerciais e politicas com a Tailândia e os Tailandeses sempre deram a maior relevância a este facto. Quando viajamos para a Tailândia somos surpreendidos pelo acolhimento e a deferência que os tailandeses dispensam a todos os portugueses. Infelizmente por cá ainda ninguém deu valor a este facto e temo que as celebrações dos 500 anos possam vir a envergonhar a nossa diplomacia se não nos pusermos rapidamente em campo.
Rosário Louro
Representante da Autoridade de Turismo da Tailândia em Portugal