Convidado: NUNO CALDEIRA DA SILVA


Pedro Correia,

 

A Tailândia, hoje

 

Em 2011 fará 500 anos que os portugueses chegaram às terras do então Sião numa primeira fase da expansão portuguesa depois da conquista da Índia. A partir da praça-forte que era Goa as naus portuguesas começaram a explorar para oriente e assim foram chegando primeiro a Malaca e mais tarde, nesse mesmo ano de 1511, a Ayuthaya, a então capital do reino do Sião. Ali ficámos durante muitos anos, criando a base de uma comunidade luso-descendente ainda existente e ajudando os siameses nas suas lutas contra os birmanes.

Portugal é sem dúvida o primeiro grande explorador das terras asiáticas. Existem inúmeros marcos dessas viagens desde a Índia até ao Japão.

Contudo hoje em dia para Portugal parece nada existir na Ásia para além da Índia, China e Timor-Leste (este quase que por dever) e o desconhecimento sobre a Ásia é grande.

Os discursos políticos que se ouvem quer nas Necessidades quer em São Bento para aí apontam. A forma como são encaradas as nossas representações diplomáticas e comerciais são disso também um claro sinal. Um simples navegar pelos sítios do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do AICEP são tristemente esclarecedores.

Deste modo vamos em 2011 prepararmo-nos para “não comemorar” aquilo que por dever histórico, patriótico e hoje em dia económico deveríamos fazer. Interessante é que os nossos parceiros assumem muito mais a sério essas datas do que nós e irão levar a efeito, por iniciativa e memória próprias, um vasto número de actividades comemorativas.

 

 

Olhando agora para a Tailândia que os portugueses conheceram em tempos e que agora “desconhecem”, com muita mágoa minha, não posso deixar de relatar que o inverso não é verdade. Aqui o comum dos tailandeses sabe que os portugueses foram os primeiros a aqui chegar e conhecem bem os elementos da cultura local relacionados com essa passagem dos portugueses por estas terras, nomeadamente a doçaria tradicional inspirada nos nossos doces conventuais trazidos para o Sião por uma luso-japonesa de nome Maria Guiomar ao tempo do Rei Narai.

Ao contrário do que muitos portugueses pensam a Tailândia é hoje, como a grande maioria dos países na Ásia, uma força bem viva e vibrante daquilo que é o mundo do futuro sem esquecer a sua cultura tradicional que está fortemente enraizada no seu povo. Combina assim uma sociedade bem ligada ao seu passado com uma força económica impressionante e um desenvolvimento que seria muito bem-vindo no nosso país.

Por certo que para muitos portugueses a Tailândia está na memória recente pelas manifestações, com alguma violência, que ocorreram em Abril e Maio deste ano. O facto é que, e apesar disso, a economia cresceu no primeiro semestre deste ano uns impressionantes 10.2%. E note-se que a Tailândia não é um país subdesenvolvido, como se pode observar em todas as estatísticas das Nações Unidas, e a sua capital – Banguecoque ou Bangkok – é uma cidade do mundo onde o poder de compra e a oferta de serviços é muito superior ao que Lisboa pode oferecer. A economia da Tailândia é baseada na exportação embora seja de igual modo um dos poucos países do Mundo auto-sustentável do ponto de vista alimentar.

As principais exportações do país são: acessórios para computadores e computadores, acessórios para automóveis e automóveis (a Tailândia é o 7º maior produtor mundial de automóveis), borracha, pedras preciosas, arroz (maior exportador mundial), frangos (segundo maior exportador mundial após o Brasil), camarão, atum em lata (o maior exportador mundial sem que contudo capte um só atum), etc.

A economia não é baseada na exportação de produtos baseados em baixa tecnologia ou baixos salários: é sim baseada em forte investimento estrangeiro (Japão e a União Europeia nos dois primeiros lugares) e local, e na qualidade da mão-de-obra. E tudo isto se passa no momento em que o baht, a meada tailandesa, tem vindo a sofrer uma forte pressão em alta (o euro já perdeu este ano cerca de 23,5% em relação ao baht). Apesar disso as exportações continuam a aumentar a um ritmo impressionante, fundamentalmente puxadas pelo vigor dos mercados asiáticos com a China à cabeça.

A Bolsa de Bangkok também acaba de atingir o seu máximo desde Dezembro de 1996, e os ganhos dos investidores desde o início do ano já ultrapassam os 60%, o que faz atrair fortes fluxos monetários vindos do exterior e coloca mais pressão sobre o baht.

A Tailândia sabe viver o passado, sabe conhecer as suas raízes, como o irão mostrar as comemorações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Sião, mas sabe igualmente projectar-se no futuro sempre com um sorriso e uma visão positiva. São quase 65 milhões de pessoas profundamente enraizadas numa sociedade tradicional e fortemente budista onde a família é peça crucial ao mesmo tempo que são capazes de grandes aventuras viradas ao futuro. 

Será um bom exemplo para Portugal?

 

Nuno Caldeira da Silva

2 comentários em “Convidado: NUNO CALDEIRA DA SILVA”

  1. Nuno Caldeira da Silva está carregado de razão e, ainda por cima, apresenta uma visão simultaneamente alargada e objectiva. Parabéns.
    Seria bom que Portugal ao menos aderisse, já que não toma as iniciativas para seu próprio bem. Infelizmente, por cá, são poucos os que têm alguma ideia sobre a pujante realidade tailandesa (que a maioria se limita a traduzir canhestramente por “turismo sexual”).

  2. Caro Nuno

    As suas palavras não podiam ser mais assertivas. Portugal foi o primeiro pais do Ocidente a ter relações comerciais e politicas com a Tailândia e os Tailandeses sempre deram a maior relevância a este facto. Quando viajamos para a Tailândia somos surpreendidos pelo acolhimento e a deferência que os tailandeses dispensam a todos os portugueses. Infelizmente por cá ainda ninguém deu valor a este facto e temo que as celebrações dos 500 anos possam vir a envergonhar a nossa diplomacia se não nos pusermos rapidamente em campo.
    Rosário Louro
    Representante da Autoridade de Turismo da Tailândia em Portugal

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