A mesma, outra vida
Dou-lhe, leitor, três hipóteses.
Primeira: a vida que anda a viver já alguém a viveu antes de si.
Segunda: só vive a vida que anda a viver porque, algures, alguém, escriba sofrível que seja, a escreveu por antecipação.
Terceira: a sua vida, a que já começou e a que ainda não sabe como vai acabar, nasceu no súbito bling de uma estrela e há-de morrer na desamparada rotação de um planeta.
Olhe o leitor para o céu e deixe-me a mim começar, manso e em noite de lua nova, pelos astros. Nem convoco o magistério de astrofísicos, nem o terrífico deslumbramento de bestiário celeste. Um escritor apenas, a vida e morte de um escritor bastam. Mark Twain nasceu a 30 de Novembro de 1835. Nesse dia, na Florida em que a mãe o dava à luz, ardeu no céu a aparição do cometa Halley. Passou altíssimo o fulgurante risco luminoso e Twain entrou no mundo dos vivos.
Não tinha corrido um século e o mundo em pânico esperava nova vinda do cometa e da sua cauda de letal cianogénio. Não foi a essa histeria que Twain se rendeu, mas a uma lógica poética, a uma rima melódica. “I came in with Halley’s Comet in 1835. It is coming again next year, and I expect to go out with it.” Nem o cometa, nem Twain falharam o profético encontro. A 21 de Abril de 1910, numa irrelevante vilória de Connecticut, Twain apagava-se na terra enquanto Halley se acendia no céu.
Não lhe digo, descuidado leitor, que não viva, que não se entregue à obscena orgia que é a originalidade de cada dia, mas, peço-lhe, vigie o obscuro firmamento, a bizarra cintilação das estrelas; espreite nelas o amor, os trabalhos, cada dor, a aguda alegria da vida que leva.
Reticente aos astros, diz-me que prefere viver agora o que alguém escreveu antes. Acertada escolha, confesso-lhe. E não pense que está sozinho. Ainda os engenheiros não tinham pensado construir o Titanic quando um inglório romancista, Morgan Robertson, publicou “Futility – The Wreck of the Titan”. Em 1898, o autor imaginou um transatlântico que jamais iria ao fundo. Chamou-lhe Titan, e imaginou-o o maior gigante que mãos humanas pousaram no oceano. No obscuro romance de Robertson, numa noite de Abril, a 400 milhas da Terra Nova, à velocidade de 22,5 nós, o Titan embate num iceberg e a tragédia instala-se: o navio afunda-se e a escassez de salva-vidas condena os passageiros a salina agonia, o pedaço de atlântico a uma torpe mancha ensanguentada. Catorze anos depois, no que ilusoriamente alguns pensam ser a vida real, outro transatlântico, o Titanic, repetiu (sintagma a sintagma) a escassa e trémula trama desse ficcional antepassado; voltava a ser uma noite de Abril, nesse mesmo desterro dos mares situado a 400 milhas da Terra Nova, tão cerca da meia-noite como meia-noite era no romance, quando à velocidade de 25 nós, o Titanic rasgou um iceberg ferindo-se de morte. Nenhum dos 3.500 passageiros sabia estar a ser usado por uma mão que, hábil, reencenava as páginas adversas e esquecidas de uma novela do século anterior.
Aceito, avisado leitor, que a tépida literatura o canse e que não queira a sua vida fechada num diegético casulo de letras. A vida, a verdadeira vida, as aventuras de grandes homens são únicas e irrepetíveis e é com elas, isso sim, que o leitor desafia a pobre lógica deste texto descrente e fatalista. Já me convenceu: partilho uma chispa desse entusiasmo. O leitor sugere que eu me lembre, por exemplo, de John Fitzgerald Kennedy. Ich bin ein Berliner e sorri. Também eu, também eu, dinâmico leitor. Mas contam-me em surdina – a voz arrastada que tudo revela é a de Arthur Koestler, o deprimido autor de “O Zero e o Infinito” – que Kennedy, a vida dele, é um plágio trivial. Um plágio com o rigoroso intervalo de 100 anos. John Kennedy, nos passos essenciais da sua vida política repetiu humilde, porventura contrafeito, o que Abraham Lincoln já vivera. Lincoln é eleito congressista em 1846, JFK é-o 100 certos anos depois, em 1946. Presidente o primeiro em 1860, Kennedy imita-o em 1960. Ambos foram assassinados por sulistas. O de Lincoln, num teatro, acerta-lhe na nuca e foge para um armazém. Na nuca, acerta-lhe o de Kennedy, disparando de um armazém para sair a esconder-se no teatro que é cada sala de cinema. Ambos os assassinos seriam abatidos a tiros infames antes do julgamento.
Os assassinados Lincoln e Kennedy foram substituídos na presidência por dois sulistas, um chamado Johnson, outro chamado Johnson. O secretário de Lincoln, de apelido Kennedy, pediu-lhe pelas alminhas para não se expor indo ao teatro. A secretária de Kennedy, de apelido Lincoln, ralhou e implorou para que o jovem presidente não visitasse Dallas.
Chamam-lhe coincidências. Só a miopia ou um prosaísmo insípido se atreveriam a tão ignorante qualificação. Os passos de Kennedy são a rigorosa e premeditada repetição de outros passos. Nenhum retorno, Herr Nietzsche. São vidas que se replicam noutro ponto, noutra curva de uma espiral. Parecem cópias, talvez sejam simulacros. Vidas com o mesmo libreto, mas com variação na coreografia: às vezes um inovador guarda-roupa, outras um amargo falhanço nos adereços ou na iluminação, tentam disfarçar o que é apenas repetição, humilde repetição de um deus monista, copista medievo sem imaginação.
Não me desgosta também pensar que o intangível curso de cada vida é sempre a mesma música, mas outro andamento; allegro a primeira vez, quem nos dera que à segunda, a nossa vez, seja molto appassionato.



Quais serão os papéis de Da Vinci e Júlio Verne na premonição? Parabéns, meu caro.
Um texto vivo de “Gente morta”. Parabéns.
Texto profundo.
Raro na Lusitânia.
Parabéns!
Manuel Fonseca,
assim que o tapete voltar a estender-se e chegar novo convidado ao tão bom Delito, ZÁS, este texto vai aparecer plasmado por inteiro no nosso Cemitério.
Isto para não fazer figuras materno-adolescentes, com a agravante de me pôr a falar com letras: o que é as meninas fazem aqui?! Já para casa, imediatamente!
Belíssimo texto que tive o privilégio de editar aqui. Obrigado pela visita, Manuel. Um abraço.
Que bom vê-lo aqui, caríssimo e saudoso companheiros das terças! E o texto, excelente, Manuel, molto appassionato.
Beijinho
Quero dizer ao Pedro Correia, aos seus companheiros de blog (em especial à Leonor de outras aventuras), que foi um gosto colaborar pelo menos um dia no Delito de Opinião. Perdoem-me ter escrito um interminável lençol, mas senti-me em casa e não conseguia calar-me. Um abraço.
E obrigado aos leitores, pacientes para começar, e generosos ao ponto de deixarem comentários. Com a Eugénia ajusto contas quando regressar ao cemitério donde fugi por uma noite.
Li algures, já não lembro onde, que há qualquer coisa de selvagem nas coincidências. Há mesmo!
Gostei de ler.
Extraordinário!
Grande texto, Manuel, tão grande que só poderia vir de um autor que hoje considero maior que aquele outro sujeito que tinha aquela grande coleção de livros cujo nome eternizei num ano passado quando eu sabia que nada sabia.
Fico feliz em encontra-lhe aqui, local que visitava constantemente antes de conhecer o Cemitério.
Fatalismos e coincidências como as conhecemos à parte, acredito que o universo possua uma singular forma de repetir-se.Talvez seja mesmo em espiral, o que justificaria as pequenas diferenças das grandes semelhanças.Assim trocam-se os papéis, os cenários e os instrumentos. Mas a ciranda ou roda da vida e da morte continua a rodar, e depois de hoje em espiral.
Até mesmo o que ainda não conhecemos, que costumamos classificar como ficção algumas vezes científica, já deve ter acontecido por aí em outra roupagem. E está suspenso no ar rodando em espiral até a hora de pousar novamente em terra firme.E alguns autores talvez não saibam que na verdade o que a sua inspiração lhes sussurra seja somente o que sempre esteve lá, escrito nas estrelas.
Obrigada por ampliar-me a visão :o)