O chumbo e o livro
A mão. A primeira vez que tive consciência da minha mão foi quando levei um tiro que a atravessou de lado a lado. Em Luanda. Tinha 15 anos e tinha uma espingarda de chumbos, o que, mutatis mutandis, fazia de mim um herói de Mark Twain. Eu era Tom Sawyer e quem me deu o tiro foi Huckleberry Finn. Fazíamos, se bem me lembro, um jogo perigosamente adolescente: tínhamos de abrir e fechar dois dedos com uma sinuosa rapidez de cobra, em frente à espingarda de ar comprimido de quem ia disparar a seguir. E já não me lembro, mas sei que tínhamos todos a Diana 27. Lembro-me de coisas que já não sei e sei coisas de que já não me lembro, mas sei e lembro-me que passei a palma da mão esquerda em frente do cano da arma inimiga e, tiro célere e limpo, o chumbo entrou, rompeu e passou pela palma da minha mão, entre os nervos e os ossos que levam a dois dedos, o médio e o anelar. O chumbo raivoso perdeu força no impacto e ficou preso, incapaz já de sair, na pele das costas da mão. No posto médico, com um golpe de bisturi, a pele abriu-se, sangrou um pouco mais e o chumbo caiu, derrotado e som metálico, no mesmo balde onde – ai dos vencidos – tombavam agulhas, seringas e dentes cariados.
E não é dessa mão que quero falar, mas só da consciência dela. Antes da passagem deste diligente projéctil, se de alguma coisa tive consciência, foi do que, dizível ou indizível, nessa mão segurei, história e elenco a que vos poupo, por a mim me querer poupar. Mas a entrapada mão esquerda acelerou, como um aguilhão, a consciência da única e útil mão direita. Se já lia muito, muito mais li durante essas semanas de braço ao peito. E tive, então, pela primeira vez, a consciência da dimensão centáurica da mão e do livro. Tinha na mão um romance de Steinbeck, outro de Caldwell, a história do Dia D, o Fio da Navalha, um Saint-Exupéry, o meu primeiro Papini, e a mão e o livro tinham, como a impenetrável harmonia do uno sempre tem, o mais completo desdém pelo múltiplo. Só tinha um problema, faltava-me sempre um dedo, o entrapado dedo, para folhear.
Donde vem essa simbiose da mão e do livro? Quando começou? Platão escreveu livros, o primeiro a Apologia de Sócrates, que é também o primeiro livro filosófico a ter-nos chegado inteiro, não fragmentado, da antiga Grécia. Mas a mão que segurava a Apologia de Sócrates não segurava um livro. Sabem todos melhor do que eu que segurava um rolo. Quem, em nome de Deus, nos ensinou então a folhear, a ler combinando estas improváveis coisas: a mão que segura o livro, o dedo que vira a página e os olhos que a varrem?
![415_supp_10070_434[1].jpg 415_supp_10070_434[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2017/20687287_ZCB8Z.jpeg)
O livro, esse luxo sibarítico, que tantas vezes roça a maravilhosa obscenidade, ao contrário do tiro intempestivo e imediatista que em Luanda me furou a mão esquerda, nasceu devagar, página a página, e começou a nascer no primeiro século da nossa era. Pergaminho ou papiro dobrado e cortado em cadernos, páginas de madeira até, foram a primeira revolução. Não foi a mão que procurou o livro, foi o livro que ousou nascer para se fazer à mão. E andou séculos a namorá-la – que romance! Catorze séculos depois, Guttenberg conferiu leveza e deu início à tímida massificação que, até há poucos dias, nos permitia dizer que mal sabemos onde a mão acaba e o livro começa.
Já quase não há na minha mão esquerda, na palma e nas costas dela, vestígios da entrada e saída desse chumbo Mark Twain da minha adolescência. O recalcitrante anelar da mão canhota começa a recusar o alongamento e deixa-se ficar entrevado e curvo, submisso à aliança das bodas de prata, que em breve serão de ouro. Temo que essa minha resignada artrose seja só o humilde, porventura imperceptível, símbolo da harmonia de Brigadoon (ou de How Green Was My Valley) que mão e livro andaram séculos a entretecer. Inconsciente e cada vez mais jovem, a mão, toda articulada em volta do polegar, deixou, como o meu dedo anelar da mão esquerda, de se estender. Há um livro caído – ai dos vencidos – nesse balde onde antes tombaram agulhas, seringas, um dente cariado, o audacioso chumbo de uma Diana 27.


Excelente texto, caro Manuel. É um enorme gosto tê-lo hoje por cá, escrevendo novamente no DELITO.
Com direito, naturalmente, a passadeira desta cor. Encarnada.
Forte abraço.
Meu Caro Pedro,
a cor da passadeira foi a cereja. O bolo, que ataquei com vontade, foi a sua simpatia e a oportunidade de pousar um segundo neste DELITO nobre, onde se pensa bem e se escreve melhor. Eu não sou digno, mas bastou um palavra sua e senti-me salvo. Um abraço rijo
Texto maravilhoso.
Dava de bom grado uma rajada de tiros de chumbo na minha mão para saber escrever assim. Contento-me a ler.
Obrigado.
Muito obrigado, AM, pelo seu admirável exagero. Mas é verdade que, uma vez pelo menos, a associação de tiros e soberba escrita foi digna de se ver num livro: foi quando a escrita de Borges entrou em duelo com os tiros e os mortos de Bill the Kid. Está tudo num inenarrável texto da pasmosa História Universal da Infâmia.
Este senhor tem quid.
Obrigado Beatriz, tenha eu o que tiver, é tudo em small. Perddo-me a mim mesmo, reclamando que small is beautiful.
Mas aproveito para rectificar: os dois comentários anónimos acima, que são respostas minhas, foram anónimos por pura inépcia informática. espero que este já chegue assinado.
Texto muito bonito, mas onde é que leu a “A apologia de Sócrates” foi o primeiro livro grego de filosofia a ter-nos chegado inteiro? E o Timeu, o Fédon, o Ménon e o Parménides, traduzido já no s. XIII com o comentário de Proclo? E as obras do Aristóteles, inteirinhas já nos s. XII e XIII?
Obrigado pelo comentário.
O que eu quis dizer é que dos filósofos anteriores a Platão só nos chegaram fragmentos, muito embora eles tenham escrito “livros”. O primeiro filósofo grego de que nos chegaram textos completos foi Platão. A Apologia faz parte dos Early Dialogues e lê-se na faculdade como se fosse o primeiro. É só isso que queria e quero dizer, que os rolos da Apologia nos chegaram inteiros e hoje podemos lê-lo como um livro. Estou, aliás, e aproveito para dar a notícia, a pensar publicá-lo, inaugurando uma nova colecção da minha editora.
Ok. Assim fica mais claro. Obrigado pela resposta. Boa sorte para esse projecto.
Tem dias que me perco por aqui, calma, tranquila e deliciava.
Hoje é um deles.
Vou reler.
Ler é um dos mais sofisticados e democráticos prazeres que inventámos. É,hoje, um prazer cercado por novos prazeres tácteis, digitais,mais instantâneos. O meu pessimismo teme um processo de canibalização. Mas pode ser só minha adversa e assustada idade a ver exércitos onde só há moinhos de vento.
Igual a si próprio, meu caro Manuel. Texto belíssimo!
Querida Helena,
Tenho saudades de si, de a ter como autora, de lhe ouvir a gargalhada franca. Obrigado pelo generoso comentário. Um beijinho.
ah! foi aqui que se veio abrigar em tão boa companhia…uhm…bem me parecia. e que bela história com H