Tanto dinheiro
Talvez tão preocupante quanto o montante da dívida pública foi a forma como se gastou tanto dinheiro, sem qualquer estratégia e ao sabor das conjunturas políticas. Uma estratégia de endividamento visando o desenvolvimento económico poderia ser questionável mas seria defensável, teríamos melhores infra-estruturas portuárias, o sistema de ensino proporcionaria maiores qualificações, as universidades poderiam ir de encontro às necessidades da economia, os jovens formados por essas universidades poderiam ter acesso a capitais de risco, teríamos uma maior diversidade de produtos de exportação.
Em vez disso temos auto-estradas que mal rentabilizam a sua manutenção, um Estado mal estruturado e gastador compulsivo e um número quase ilimitado de rotundas bem decoradas. Ou seja, Portugal perdeu a oportunidade histórica de aproveitar a integração europeia, desmantelou uma boa parte da sua capacidade produtiva e está à beira do colapso económico.
É a consequência dos sucessivos governos pouco corajosos e de péssimas colheita de políticos que tivemos nas últimas décadas, as grandes decisões foram tomadas mais a pensar nos resultados das eleições seguintes do que no futuro dos portugueses. Em vez de se ter decidido em função das prioridades do país foi-se de encontro às clientelas que ajudaram líderes partidários fracos a chegar a primeiros-ministros ou dos interesses empresariais que financiam as organizações políticas.
Mas criticar os políticos é ignorar que em maior ou menor grau todos somos responsáveis, começando por muitos do que hoje erguem a voz mas ao longo de anos beneficiaram de um sistema generoso para com os que o mantiveram, desde os pensionistas precoces do parlamento ou do Banco de Portugal a alguns empresários que enriqueceram rapidamente e que hoje aparecem tão empenhados em defender o país.
Da mesma forma que temos excelentes auto-estradas para passear e nos falta dinheiro para a gasolina, também contamos com centenas de modernos supermercados e estamos sem dinheiro para fazer compras. Precisamos de exportar mas faltam-nos empresas exportadoras, queremos deixar de importar mas nada temos que consiga substituir as importações, em compensação temos empresas saudáveis a vender telemóveis, centros comerciais de fazer inveja a muitos países ricos e das mais modernas redes de distribuição. E em vez de capitães da indústria temos muitos generais da mercearia.
O país e os portugueses perderam mas foram muitos os que ganharam e enriqueceram à custa de subsídios, de comissões e de negócios fáceis ou facilitados pela falsa abundância de recursos.


Boa análise.
Não esquecer que os generais da mercearia são também os maiores vendedores de couves e de bicicletas.
que bem dito.:-)
Obrigado pela visita, meu caro. E pela reflexão que aqui nos traz. Infelizmente, não poderia ser mais oportuna.