Last mile
Entrámos na última semana de campanha eleitoral. E tudo está em disputa. PS e PSD, quais gatos siameses, não se largam. A contenda está ao rubro, com décimas a separarem os dois principais partidos para o desejado primeiro prémio.
Há um mês esta situação não se adivinhava. O PSD parecia a caminho de uma vitória certa; o que quer dizer que a campanha permitiu verificar que a muito anunciada ‘morte política’ de José Sócrates e do seu projecto foi, como tantas outras, prematuramente anunciada. Muito por culpa das ambiguidades públicas do PSD, é verdade, mas também porque de facto, e comparado com há 6, 7, 10 anos atrás, o país está hoje bem melhor, em muitas áreas, e tal é devido aos frutos da boa governação socialista. E os portugueses sabem disso.
Por outro lado, o PSD não conseguiu sustentar a vantagem adquirida na pior fase do consulado Sócrates, desperdiçou capital político com um conjunto de más decisões e arrisca-se hoje a perder as eleições justamente por não conseguir apresentar um Partido e um líder que dêem garantias de governação.
Os debates, que se poderiam julgar decisivos, acabaram por não o ser, antes pelo contrário ajudaram a adensar as dúvidas no eleitorado, até porque nenhum líder se destacou particularmente.
Temos assim, em expectativa, uma interessantíssima última semana de campanha eleitoral, momento em que PS e PSD terão de jogar as suas cartas finais e tentar descolar nas intenções de voto. E será interessante acompanhar o comportamento dos principais actores políticos e verificar que estratégias seguirão.
Mas, independentemente do que aconteça, é óbvio antecipar um sistema parlamentar de 2 + 1 + 2 (PS, PSD + CDS + PCP, BE), não sendo de esperar que algum partido a solo obtenha maioria no hemiciclo.
E isso pode ser um problema, pois Cavaco afirmou, explicitamente, que deseja empossar um governo maioritário o que, caso o PS vença, o Presidente terá algumas dificuldades em conseguir.
O que acontecerá então? Sócrates já afirmou, naturalmente, que apresentará proposta de Governo caso ganhe. Passos diz que não o fará caso não ganhe as eleições. Portas que não se coligará com Sócrates. Jerónimo admite a coligação com o PS caso Sócrates rasgue o acordo com a troika (o que não é de todo expectável e seria uma loucura), e Louçã parece mais preocupado com procurar suster a previsível hemorragia eleitoral do Bloco que apresentar-se como possível parceiro governamental.
Parece-me assim evidente que Cavaco procurou condicionar esta campanha, usando de forma abusiva o seu cargo institucional, indirectamente passando a mensagem que só Passos poderá ser primeiro-ministro de um governo de apoio maioritário; o que será, julgo, uma das armas de campanha da malta da São Caetano à Lapa para esta última semana.
Infelizmente vivemos ainda, em Portugal, num caldo político que entende de forma esquizofrénica o nosso sistema eleitoral e constitucional. É que, em teoria, deveríamos estar confortáveis com coligações, mas na prática estas só acontecem à direita, o que é uma natural deturpação das intenções originais dos nossos ‘Pais Fundadores’.
Neste sistema, o PS encontra-se na posição mais difícil, pois sabe de antemão que não tem parceiros naturais de governo. Neste sentido, as palavras do Presidente só podem ser lidas de duas formas: ou Cavaco pretendeu apresentar o PSD como única possibilidade governativa, ou o Presidente procurou mandar um recado para dentro dos partidos da troika para estes não desconsiderarem quaisquer possibilidades coligatórias.
Se assumirmos a primeira leitura, estamos perante um inaceitável abuso de poder por parte do Presidente e uma chantagem inadmissível e intolerante. Se, por outro lado, considerarmos a segunda hipótese, então tanto Passos como Portas têm de abandonar o discurso e as birras anti-Sócrates e afirmarem que respeitarão as decisões de 5 de Junho, mesmo que isso queira dizer aceitarem coligar-se com o PS.
Em todo o caso, este é, para mim, o tema-chave à entrada da last mile da campanha, e um assunto que espero suficientemente esclarecido por parte de todos os actores políticos, Cavaco incluindo. Para mais, o país não está em condições para aturar caprichos ou teimosias de gente que deve saber assumir as responsabilidades do momento. E refiro-me a Passos Coelho e Paulo Portas, que devem assumir a responsabilidade de considerar que pode vir a ser necessário contar com o PS como parceiro governamental.
Ao não o fazerem apenas se apresentam como actores de ‘política pequena’, sem dimensão ou sentido de Estado, preparados apenas para a pequena intriga e jogo de soundbite. O país, hoje, requer mais. Saibam os actores políticos nacionais, então, dar-nos mais. Surpreendam-nos por uma vez. E refiro-me a todos. Porque não estamos em tempos de soluções milagrosas ou individuais.


Caro José Reis Santos
Diz que, «…e comparado com há 6, 7, 10 anos atrás, o país está hoje bem melhor, em muitas áreas, e tal é devido aos frutos da boa governação socialista. E os portugueses sabem disso.» Sem por minimamente em causa a sua análise do percurso do PSD, permita-me discordar no entanto da sua bonomia relativamente ao consulado PS. Tendo em conta a pacífica verdade de que, nenhum governo em lado nenhum e momento algum, é capaz de fazer tudo mal e inevitavelmente acaba por fazer algo bem (a não ser que estejamos na presença de algum artificioso maquiavelismo, que até é muito frequente), a nossa apreciação sobre determinado acto de governar, haverá naturalmente de pesar o bem e o mal do que foi realizado. Ora, no caso presente do governo Sócrates, e mesmo aceitando o bom da governação socialista que refere, não sei de que modo tal conseguirá contrabalançar, no outro prato da balança, a bancarrota que tal governação acabou por trazer, não só ao país, como sobretudo às famílias, numa situação praticamente irrepetível na nossa história, e sobre a qual ainda mal sentimos (e imaginamos) os piores efeitos. Dito de outro modo e mais futebolisticamente, caro José Reis Santos, que contentamento me traz uma grande exibição do meu clube na 1ª parte de um jogo determinado (futebol de ataque, jogadas lindas, etc.) se, sem apelo, acabou vergado a uma vergonhosa e pesada goleada, e ainda por cima relegado para a II Divisão por uma mão cheia de anos??
Ler nas entrelinhas às vezes dá nisto.
O PR procurou condicionar a campanha eleitoral, sim, mas não no sentido apontado no texto. O PR foi claro em pretender um consenso alargado dos partidos (sem excluir o PS) e que a campanha deveria ser positiva e esclarecedora, sem atritos desnecessários e desmedidos (como habitualmente é), com vista a possibilitar soluções de consenso após as eleições.
Foi isso que o PR disse. Querer ler nas entrelinhas o que o PR disse com base na evolução dos resultados eleitorais que entretanto têm vindo a resultar das sondagens é pura invenção. É querer ler nas entrelinhas o que não vem dito no texto e que com ele não tem o mínimo de correspondência.
O isolamento eleitoral do PS deve-se exclusivamente a um factor, chamado Sócrates. Não são os adversários políticos do PS que devem escolher o líder desse partido. Em contrapartida, o PS não pode queixar-se da escolha do líder que fez, designadamente pq sabia que essa escolha inviabilizaria qualquer solução de consenso pós-eleitoral.
Ou seja, foi o próprio PS que se isolou por mote próprio e não por qualquer condicionamento externo, designadamente pelas palavras do PR. Essa “queixa”, por isso, não colhe.
No texto apenas é colocada a hipótese de o PS vencer as eleições, hipótese essa que é, aliás, a menos provável de acordo com as sondagens. Por isso, não entendo pq razão não são colocadas as restantes hipóteses, designadamente a de o PSD vencer as eleições e não conseguir formar maioria com o CDS (hipótese pouco provável, mas ainda assim mais provável do que a considerada no texto).
Nesse caso, é evidente que o PS de Sócrates se recusaria a formar governo com o PSD. O que chamaria a isto o autor do texto em matéria de responsabilidade? Chamaria “política maior” por parte do Sócrates? Ou apenas o PPC e o PP é que são irresponsáveis, por se recusarem a governar com Sócrates?
Eu tenho outra definição de irresponsabilidade. Irresponsabilidade é deixar o país no estado em que Sócrates o deixou. Irresponsabilidade seria aceitar governar com essa pessoa. Assim como irresponsabilidade é admitir que se aceitaria como ministro alguém que se apelida de irresponsável e de impreparado (que é o que o Sócrates diz do PPC, admitindo simultaneamente que o aceitaria como ministro).
Haja bom senso… e bocadinho menos de parcialidade.
comparado com há 6, 7, 10 anos atrás, o país está hoje bem melhor, em muitas áreas, e tal é devido aos frutos da boa governação socialista.
Como? Em quê? Homessa!
sobre o autor
José Reis Santos Doutorando em História Contemporânea. Membro do Partido Socialista. Blogger no Loja de Ideias …
Aaaaahhh… Pois!
Mais um cúmplice.
Caro José: como sublinho mais abaixo, hoje é um dia especial para esta rubrica, que faz um ano certo. Julgo ser uma iniciativa inédita, pelo menos com um prazo tão longo e tanta regularidade, na blogosfera portuguesa. Uma iniciativa que se destinou, desde o início, a homenagear colegas das mais variadas tendências políticas e a confirmar que nós, por cá, não vemos a bloga como uma ilha ou uma trincheira, mas como uma casa comum – onde é sempre possível debater ideias com elevação.
Venho agradecer-lhe a colaboração com um abraço que torno extensivo a todos quantos colaboraram connosco desde o dia 1 de Junho de 2010 até hoje.