A princesa
De um teatrinho que se fazia aqui na aldeia há mais de quarenta anos, sobre uma princesa que acaba por morrer, conta o meu amigo Zé Neto que ao fanhoso foi dado um papel com uma única fala. Também não se lhe tinha dado grandes explicações sobre o enredo, apenas que no momento oportuno seria mandado para cima do palco e diria:
– Cheguei para te salvar.
Fanhoso em pulgas, peça no seu decurso, momento chegado, é dada ordem ao fanhoso para subir ao palco e ele sobe e diz:
– Cheguei para te salvar.
Faz-se silêncio por momentos. É uma cena de consternação, o único personagem em pé no palco para além do fanhoso, põe-lhe uma mão no ombro e diz pesaroso:
– Vens tarde, a princesa morreu.
O fanhoso solta um urro, outro urro! Sai do papel, bate com os pés no chão e vocifera:
– Eu não tenho culpa! Foram eles… Só me deixaram entrar agora, a culpa não é minha…
Foi esta historinha que me ocorreu quando ouvi que Jorge Sampaio, durante um debate no Porto, por três vezes referiu que “Portugal está em apuros”.
Perpassou-me ainda, do Fernando Pessoa, uma estrofe d’O Mostrengo:
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
…
… mas logo abandonei o mostrengo e voltei à princesa. Devo ter sido levado por o “Voou três vezes a chiar”, mas no conjunto detectei um problema de escala, é melhor guardar o Pessoa para coisas de peso. Voltei ao teatrinho.
O Sr. Dr. Jorge Sampaio, muito me conta! Sempre tinha razão, havia mais vida para além do défice. E também me lembro muito bem da passadeira estendida a esta equipa que nos governa.
Por três vezes:
– “Portugal está em apuros”
– Vens tarde, a princesa morreu!


Excelentes o texto e o conteúdo, José.
Obrigado pela visita, caro José. E pela qualidade do texto que aqui nos traz.
Um abraço.
Agradecido pelas palavras amáveis