Convidado: JOSÉ MARIA PIMENTEL


Pedro Correia,

 

Não será fácil derrotar o PS

 

A figura de Sócrates e o modo como o povo – essa entidade difusa – o vê constituem um tema que não deixa de ser fascinante. Seis anos depois, Sócrates resistiu espantosamente bem (acreditando nas sondagens). Seis anos, recorde-se, de muitas falhas e poucos feitos (mesmo o suposto controlo inicial do défice acaba de ser refutado pelo INE, de acordo com as regras impostas pelo Eurostat), com incontáveis polémicas em torno da sua idoneidade pessoal, três PECs (e a proposta de mais um) e, por fim, um pedido de ajuda ao exterior. Uma vitória do PSD está longe, então, de ser um dado adquirido, já não falando da expectável maioria absoluta. Passos Coelho – ou, admitamos, (quase) qualquer outro no seu lugar – enfrenta uma tarefa difícil. Sócrates é unanimemente visto como o arquétipo do político maquiavélico. Não creio que muitos duvidem disso. Porém, paradoxalmente, esse facto acaba por jogar, em certa medida, a seu favor, perante a convicção geral de uma falta de alternativa, espelhada no velho chavão: “os políticos são todos iguais”. Quem o enfrenta fica, assim, praticamente reduzido a duas hipóteses, nenhuma das quais proveitosa. Se embarca no mesmo tipo de discurso e atitude, é visto como uma cópia, e, nesse caso, é preterido em função do original, até por que provavelmente fá-lo-á com menos “talento”. Se tenta adoptar um estilo antagónico, conciliador, acaba inevitavelmente por cair nas armadilhas constantemente montadas pela máquina política de Sócrates, acabando visto pelo referido povo como, perdoem-me a expressão, um panhonhas. E na política não há espaço para panhonhas.

 

Um exemplo, simultaneamente, do tacticismo maquiavélico de Sócrates, e da dificuldade da oposição em lidar com ele, esteve patente na recente crise política. Assumindo que Sócrates acalenta esperanças de voltar ao Governo, esta crise correu-lhe na perfeição. Um pedido de auxílio ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e ao FMI era, para muitos, e há muito, inevitável. Percebendo que teria que tomar esse passo, em Março, Sócrates desejaria divisar um método de o fazer sem receber o ónus correspondente e, assim, conseguir continuar no governo. O cenário que se seguiu era, creio, a única alternativa de poder alcançar esse objectivo. Por outras palavras, a crise não foi provocada pelo PSD mas, antes, antecipada pelo Governo. No cenário actual, a culpa da situação continua a poder ser imputada ao Governo, todavia este pode, agora, e com alguma propriedade, refutar essa tese. Recorde-se que Sócrates nunca negou abertamente que um pedido de ajuda rotularia imediatamente o seu Governo de incompetente. Jogou, de resto, com esse critério, ao afirmar diversas vezes que Portugal não pediria ajuda internacional.

 

A estratégia para a próxima campanha eleitoral afigura-se, por conseguinte, bastante clara. Aliás, já começou. Sócrates dirá até à exaustão que a culpa é do PSD, que rejeitou o PEC-4, levando à queda do Governo e à precipitação da subida dos juros, que, por sua vez, obrigou o executivo  a pedir ajuda ao FEEF e ao FMI. Antes disso, ainda procurará o apoio do Presidente da República e do PSD (e do PP) ao pedido de ajuda, o que permitirá afirmar que o bailout não é filho de mãe solteira.

 

Por isto – e não só – é que nas próximas eleições não será fácil derrotar o PS. Em todo o caso, importa considerar outro aspecto. O efeito da percepção clara, por parte do eleitorado, do comportamento de Sócrates é, de facto, muito menor do que seria de esperar. Mas é, ainda assim, maior do que parece. Senão vejamos: Admitindo que o PS terá uma votação de 30-35% nas próximas eleições (uma premissa que me parece razoável), esse valor relativo corresponderá, provavelmente, a bastante menos votos do que aqueles obtidos nas primeiras eleições e, também, menos do que os conquistados nas últimas eleições. Por outras palavras, embora a votação relativa (percentual) demonstre uma resiliência notável, a votação absoluta não deixará de reflectir, numa medida não negligenciável, alguma rejeição do eleitorado a José Sócrates.

 

Em suma, a resiliência de Sócrates nas urnas é verdadeira, todavia menor do que possa parecer, devendo-se, em grande medida, à incapacidade das alternativas de governo em granjear o apoio popular. Facto este que, por seu lado, não deixa de ser tanto – ou mais – preocupante do que a ausência de punição dos eleitores ao Governo.

 

Analisando agora a situação do país no âmbito do pedido de ajuda ao FEEF e ao FMI, esta não é, olhando para as experiências equivalentes já observadas, auspiciosa. Na Grécia e na Irlanda, apesar da ajuda, a pressão dos mercados manteve-se elevadíssima. A dimensão do empréstimo foi vista como insuficiente para fazer face às necessidades de financiamento do Estado, fazendo com que os receios relativamente a uma reestruturação da dívida não desaparecessem. Até porque na estrutura pós-2013, com o Mecanismo de Estabilização Europeia (MEE), e, mesmo, possivelmente, na actual estrutura, os detentores de dívida pública poderão ser os primeiros sacrificados. Acresce que os juros cobrados são muito elevados, ao que se soma o facto de que as medidas que estes países foram obrigados a tomar se demonstram ao mesmo tempo, pouco eficientes e muito duras para a população. Por outras palavras, as perspectivas futuras não são famosas. Finalmente, e numa perspectiva mais genérica, a dimensão total do fundo, bem como a do que lhe sucederá em 2013, o Mecanismo de Estabilização Europeia (MEE), são vistas como insuficientes para evitar que economias bastante maiores, como Espanha ou Itália, necessitem de ajuda. Por trás destas dificuldades está, todavia, um único factor: a ausência de vontade única, equivalente à “Moeda Única”. Os países fortes não estão dispostos a pôr em cima da mesa as garantias necessárias para acalmar os mercados, ao mesmo tempo que, num estilo medieval, fazem depender as poucas garantias que dão do sangue vertido pelos países periféricos. Perante isto, as presas não parecem capazes de se aliar, com o próximo sempre a renegar qualquer comparação com o anterior. Agora é Espanha, que “não é Portugal”. O velho problema, que até aqui era meramente teórico, tornou-se agora simultaneamente prático e doloroso. Com o Euro, a Europa levantou um pé, mas não chegou a completar o passo, com a união fiscal que se impunha. E com um pé no ar, qualquer um perde o equilíbrio. Em suma, para Portugal, não só a ajuda do FEEF vai exigir sacrifícios irracionais, como nem mesmo esses sacrifícios lograrão descansar os detentores da nossa dívida soberana.

 

Nota Final: A Ernst & Young estima que o PIB português sofra uma contracção de 1,1% em 2011, com riscos de descida. Concordo, genericamente, e parece-me razoável. No entanto não deixa de ser curioso que os jornais publiquem esta notícia sem a contrapor às previsões divulgadas há 9 meses, quando a mesma consultora previu que a economia portuguesa sofreria uma contracção de 1,1%, em 2010. Deve recordar-se que, em 2010, o PIB logrou não contrair e cresceu, ainda que a muito custo, 1.3%.

 

José Maria Pimentel

3 comentários em “Convidado: JOSÉ MARIA PIMENTEL”

  1. O PIB vai cair quando o dinheiro que se pede emprestado ano após ano não chegar como no passado e o que se pediu emprestado tiver de ser pago.
    Portugal nunca foi tão “rico” como agora. Nunca houve tanto dinheiro como hoje. Esse aumento de riqueza é pedida emprestada. Não sustentável.

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