Nação bipolar, marchar, marchar
Portugal começou com o período da conquista aos mouros (estranhamente chamada Reconquista); depois tivemos a época dos Descobrimentos, a Lenta Decadência, o Jacobinismo, e vários outros; e agora, à maneira chinesa, vivemos o período “Um País, Duas Realidades”. Dinâmica e dialéctica não lhe faltam.
De um lado está o Portugal Metido Numa Alhada Mas a Safar-se. É o Presidente “honestidade por dois”, o primeiro-ministro caluniado mas firme, as discussões de lana caprina na AR e os jogos interpartidários, a Justiça “não me toques” e totalmente inconclusiva, as verbas de milhares para guardanapos, os carros topo de gama e os almoços no CC institucional, as negociatas muita bem aviadas, as férias de inverno da neve e de todo o ano em terras exóticas. É também o shopping permanente, o favorecimento discreto, os activos seguros e os aforros offshore, as reformas confortáveis e todas as benesses desta civilização maravilhosa. Um país que se sente dinâmico e empreendedor, a lutar pela vida, e estranhamente incompreendido pelo reviralho, pelas invejas e incompetências a turba multa, essa malta que se queixa e não faz nenhum.
Do outro lado está o Portugal Lixado pela Cambada Que Se Está a Safar. São os funcionários públicos e privados que vêem o salário diminuir à vista desarmada, os pequenos empresários que não conseguem crédito nem passar entre os pingos do fisco, as percentagens imensas e ocultas de desempregados, precários e recibos verdes, as hipotecas e os créditos pessoais acachapantes, os saldos baratos e os transportes atrasados, a bica que está cara, a chuva que não pára.
Um país paira alegremente por cima do outro, sem o ouvir, sem quase se aperceber que ele existe. E o outro, preso ao chão, não tira os olhos do primeiro, a ranger os dentes de inveja e despeito.
Não se entendem, mas têm de viver juntos. Uma relação simbiótica parida no inferno. Até 2000, com os fundos europeus a tapar todas as inconsistências e incompetências, parecia que a coisa ia lá, a luta de classes estava demodée, a sociedade de serviços servia a todos. A partir daí, os vírus entraram no sistema e não há antídoto que valha. De ano para ano, nota-se mais o afastamento dos dois países. Hoje ouvem-se coisas nos programas de opinião pública e nos comentários aos posts da net que seriam impensáveis há um ano atrás: “isto só vai à bomba”, “porrada neles” e outras brutalidades de quem está a sentir a desigualdade na pele. Já há quem fale do sinistro tempo da outra senhora como um período de progresso – sobretudo aqueles que não o viveram e podem imaginá-lo como lhes dá jeito. Dizem-se disparates como “Ditadura da Democracia”.
A grande questão nem é como será o período seguinte; a grande questão é quando começa. Porque este está agreste de mais.
José Couto Nogueira escreve com a antiga ortografia


“Reconquista” refere-se à existência de reinos cristãos na península ibérica antes da conquista da maior parte desses reinos pelos mouros, na expansão relâmpago do Islão pelo Norte de África e península ibérica, esta última iniciada no princípio do século VIII. Talvez tenha perdido alguma ironia no texto, porque este significado de “reconquista” é bastante óbvio…
Os árabes estiveram 700 anos na Península Ibérica, portanto não se pode falar de “reconquista” de uma coisa perdida há sete séculos. E depois os conquistadores eram uma ordem moral, social e política diferente dos godos romanizados decadentes que os árabes tinham derrotado.
Mas claro que isto foi dito com um certo cinismo e até nem tem nenhuma importância para as afirmações do post.
Meu caro, agradeço-lhe esta visita – com um texto tão saboroso, tão certeiro e tão bem escrito.
Um abraço.
É sempre um prazer visitar a família. Quanto ao texto, fiz o possível para estar ao nível desta página.
Boa malha, José Couto Nogueira. E como eles merecem.
Olá, Zé! Só hoje li o texto. Óptimo, como seria de esperar. Mas acho que a grande questão é se chegará a haver período seguinte, depois deste…
Bem-vindo, sempre.