Reentradas, à esquerda e à direita
Estamos nesse maravilhoso período da rentrée política. O PCP lá está na sua Festa do Avante, com as habituais reportagens sobre comunistas que trabalham na feira sem receber um tostão, como se trabalhar sem receber um tostão fosse bonito.
Não é incrível? Os comunistas vivem a vida a pedir aos patrões para pagarem melhores salários, mas depois não pagam a quem trabalha nos seus próprios negócios. Seria interessante saber quanto se paga aos funcionários do PCP e que aumentos tiveram nos últimos anos. Talvez o capitalista Belmiro seja, feitas as contas, mais comunista.
E também seria interessante saber das condições de trabalho e da remuneração dos operários da construção civil que estão a recuperar um prédio na Lapa que é propriedade do – imaginem, por favor – Partido Comunista Português.
Não – desenganem-se, se for caso disso – o prédio não está em obras para vir a ser uma casa do povo. Está a ser reconstruído para se dividir em quatro ou cinco fracções que o povo só conhecerá para limpar, consertar sanitários ou a televisão por cabo. Bom, mas ao menos receberão qualquer coisa por isso, não é como na Festa do Avante.
Seja como for, chega de comunismo, vamos ao PSD. Acho que já reentrou. Ou não? Acreditem, não sei. Os congressos já não são o que eram, nada no PSD é como era. Nem a rentrée.
Mas acho que sim, que já fizeram aquela festa. Gabou-se a origem “massamâmica” do líder, não foi? Ouvi qualquer coisa, ouvi. Mas não ouvi mais nada. Ocupado que está em restaurar o líder, o PSD não tem tempo para pensar em restaurar o país.
Falou-se por aí numa revisão constitucional que não foi um tiro no pé, não senhor, foi um tiro do pé em cheio na testa – o que acaba por constituir um milagre, pois nunca um pé tinha alvejado a sua própria pessoa. Mas lendo aquela proposta, se fosse o pé do proponente também não me aguentava.
À esquerda – embora não assim tanto – o Partido Socialista teve uma rentrée pequenina só para desestabilizar o PSD, o que não era preciso porque o PSD estava a dar conta desse recado muito bem. Acabou por configurar até alguma deselegância política. Está um partido a destruir-se sozinho, vem o outro e toma lá mais um bocado disto. Não fica bem.
Bom, mas vamos esperar pela rentrée oficial do PS, hoje em Matosinhos. Digam lá se José Sócrates não é um homem corajoso ao marcar a rentrée para Matosinhos? Tantos concelhos pacíficos e escolhe o mais enguiçado.
Razão tem Paulo Portas para reentrar sempre na Praça do Peixe, em Aveiro. Em praça vencedora não se mexe. Daquele espaço exíguo, o líder do CDS já arrumou quatro ou cinco líderes do PSD e três do PS.
Faria o quê em alternativa? Encher a Fonte Luminosa? Está muito bem na Praça do Peixe!
Adiante, no Bloco a rentrée é feita com um fórum de ideias. Claro! A esquerda intelectual tem ideias! É verdade que depois só as de dois ou três cabecilhas valem, mas muitas centenas tiveram ideias e isso é importante para eles pois está provado que ter ideias combate a obesidade.
Por falar em combater a obesidade, Francisco Louçã fez a Route 66 nestas férias. É pelo menos o que transparece da sua página no Facebook. Route 66 é bonito para o líder do Bloco de Esquerda, mas não lhe teria ficado mal ouvir o presidente Cavaco e palmilhar a Nacional 125.
Dos Verdes nada sei, mas se não reentrarem com o PCP na Festa do Avante, provavelmente a deputada Heloísa Apolónia reentrará sozinha, discursando do seu apartamento, que se for em Massamá lhe garantirá o voto de Mendes Botas já nas próximas eleições e desde que Passos Coelho não se candidate.
Por fim, uma palavra para a rentrée do Presidente da República que… Alto! Cavaco não pode fazer rentrée este ano porque não cessou efectivamente a actividade política. Nem um lanche pode organizar. Nada.
Bom, não vou dizer que Cavaco está a preparar alguma. Prefiro dizer que está a fazer a “rodagem ao Citröen”.
(Obrigado ao Pedro Correia e co-autores do Delito de Opinião pelo convite para aqui escrever. Respondi com muito gosto.)


Oportuno e bem disposto, o José Costa e Silva. Parabéns.
Grande texto, cheio de ironia, num dia em que certamente ouviremos imenso a famigerada palavra ‘rentrée’. Um abraço, José. Gostei muito desta visita.
Muito obrigado pelos vossos comentários. Foi um prazer, grande, escrever este post para o Delito de Opinião. Abraço.
Quase sempre na “mouche”. Parabéns. Gostei do parágrafo dedicado ao meu BE: muitas ideias, sempre!
Bem-vindo ao DO, e volte sempre.
Quanto ao tema, acho que o grande problema é que já não há para onde reentrar… o melhor que temos a fazer é sairmos todos, o mais depressa possível.
Eheh…
Pelos números da emigração, parece que optámos pela ressaída.
Brilhante e divertido, como sempre!