Amor: a pose e a posse
Sempre me preocupei com o amor. Intuitivamente, desde cedo, era o amor, o rosto, a conversa, esse absoluto
que me atirava deslumbrado para os outros e me investia do verdadeiro e transcendente encanto:
arder por longas conversas em torno de uma mesa alargada para o mais prosaico convívio intergeracional.
Aos seis anos, participava activamente em conversas sobre foguetões, astros, autodomínio oriental,
oratória, filosofia, o quanto temos de Romano, também se contavam anedotas e estórias da tradição oral.
Mas o forte era falar sobre política, especialmente política. E tudo isto com jovens de quinze e adultos de trinta.
Havia um odor a liberdade por todo o lado. Tudo me sensibilizava numa excitação simultaneamente intelectual e sensual,
roubando-me a vontade de dormir, tanto havia a viver. Ouvir rádio. Ver televisão. Uma voraz curiosidade por tudo.
Anos setenta. A esperança florescia e eu estava lá para perguntar tudo, tagarela afogueado e interessado.
Crescer, entretanto, conduz a processos complexos de desintegração de grupos e recomposição de euforias.
Ao chegar aos oito, essa tertúlia havia murchado: as moças ficaram demasiado próximas dos moços.
Se o ambiente tutelado pelos pais crepitava de testosterona e outros vapores, o melhor seria afastar o fogo da estopa
e por isso piqueniques de domingo e especialmente esses longos serões na casa do vizinho marceneiro,
homem dogmático e de opinião definitiva sobre qualquer matéria em debate,
cessaram por completo. Fora um tempo de posse.
Nessa altura, os pais fizeram-me integrar uma turma de ginástica desportiva, no clube da terra.
Teria de desenvolver o esqueleto sob pena de ficar ressequido como a erva de Agosto, temiam.
Ensimesmei-me na busca perfeccionista da perfeição e habituei-me a ouvir durante anos que «o melhor» ali era eu.
Gloriosamente, no final de cada ano desportivo, havia Sarau. Era nesses saraus que
arrancava ahs e ohs da multidão que apinhava o salão, enquanto os aplausos estralejavam.
Tinha excelentes desempenhos, especialmente no solo, que eu amava:
piruetas, duplos mortais, rodas ao longo do tapete, coordenação e finais perfeitos dos movimentos, hirto, de pés juntos,
sob um silêncio expectante que logo explodia em aplausos.
No fim, os treinadores repartiam entre si a glória averbada por este macaco prodigioso
nos andaimes façanhudos da grande sala.
Como os demais meninos e meninas da mesma idade falhavam os mortais,
desengonçavam as cambalhotas, como se não davam ao denodo de correr mais,
saltar mais, alongar mais, sofrer mais no tapete, ao longo do ano,
como não liam as Selecções do Readers Digest nem enciclopédias nem livros de espécie nenhuma,
afastei-me para ser perfeito a sós, treinando muito e lendo muito, sem a contaminação
da humanidade limitada e prosaica deles. Tempo de pose.
Ânsia do infernal céu de Narciso.
Muita coisa passou entretanto. Décadas. Cedo, num salto abrupto,
regresso à mais delicada fraternidade, ao gosto de estar com os demais.
O mais importante e o que mais se me impôs até aqui foi o amor fraterno:
encontrar encantos surpreendentes nos outros, amigos e adversários.
Cativar e ser cativado por gente. Fazer amigos e mais amigos, construir laços.
Aterrar desde o Norte no Alentejo profundo e ficar enternecido com a arte de conversar ali,
coleccionando ao longo de um ano uma riqueza de cumplicidades, de empatias,
amizades, coisas muito difíceis de interromper no que só a carne intermedeia
quando o sorriso ilumina e a palavra calorosa percute vibrando grave e doce.
Perante tudo isto, a nossa bloga, caros leitores, é outra coisa.
Ácidos mortais, sarcásticas piruetas verbais nada mortíferas por amor de Portugal.
Risco assumido de opinar e provocar, dando a cara e o nome,
tendo o atrevimento da recusa do Feio Ético, do Feio Cívico,
apostrofando a balofa e desonesta pose em que se esmeram homens públicos devastadores,
tão vaidosos quanto irresponsáveis.
Mas sempre pronto para mais posse do essencial:
aproximar corações desconhecidos, construir empatias insuspeitas a uma mesma mesa
fraterna e deleitosa de Palavras, mais tarde mesa de pão e vinho rubro,
rescendendo a madeira de carvalho.
Acho que é precisamente por isso e graças a isso que aqui estou, no Delito,
partilhando, delituoso, algo de meu.


Este post faz-me lembrar a história do filho pródigo. Realmente o mais importante na vida são as relações, que tanta gente insiste em ignorar em troca de outros valores supostamente mais importantes.
Bem vindo de volta Joaquim!
Sorrir às pessoas, acolhê-las bem, viver do enternecimento pela sua história. Ainda hoje, corri imenso para comprar o «Jornal de Negócios» e assim ler a entrevista de Henrique Neto, pessoa que muito admiro e tanto tem para ensinar.
Bem-haja pelo comentário.
Parabéns, Joshua. Grande texto. Abraço.
Vindo de ti, é uma honra! Grande Abraço.
Bem-vindo, meu caro Joshua. Um grande abraço.
E com que prazer, caríssimo Pedro! Abração!
muito bem.
Abraço.
Excelente texto, Joshua. A blogosfera é só uma forma mais de construir pontes entre pessoas de carne e osso, mesmo as que se escondem atrás de nomes fictícios. Claro que também pode servir para cavar fossos ainda maiores entre elas, mas a escolha cabe a cada um de nós.
Bem-vindo ao Delito, onde preferimos a primeira hipótese.
Não me fales em pontes que fico nervoso. A que travessia de referes?
À de baixa velocidade, a melhor de todas. Só assim se aprecia a paisagem pelo caminho.
Então está bem.
A nossa “ponte”, caríssima Ana, a da bloga, tem sido fantástica para o alastrar benfazejo dos afectos. A escória não faz memória.
Pegando na brincadeira do João mais abaixo, ela, essa ponte, é a única, verdadeira e imaterial SCUT, único e sustentável “novo aeroporto” de amar mais, saboreando voos rasantes, coração a coração, mente a mente.
Um respeitoso Beijo.
E com a imensa vantagem de não pagar portagem, Joshua. O identificador electrónico é, neste caso, a mera intuição para quem interessa conservar e quem dispensamos rapidamente.
Outro para si.
Bom como era de esperar. Ou melhor. Parabéns e um abraço para ti, Joshua.
Obrigado, caríssimo João. Tive imenso gosto.
Como sempre, excelente texto !
Aquele abraço, Amigo e Companheiro!