Convidado: JOÃO ESPINHO


Pedro Correia,

 

Beja merece +

 

Ora cá estou a aceitar o repto do Pedro Correia para pisar a passadeira vermelha do DELITO.

É com agrado que aqui regresso.

Espero que os habituais leitores do D.O. não saiam defraudados.

Quem há muito frequenta a blogosfera já deve ter passado pela minha Praça, a da República, em Beja.

Sim, quem diria que a província, nesse Alentejo profundo, para além de bom vinho, pão de categoria superior e um dos melhores azeites do planeta, para além de um sol ardente, poetas e cantores – e muito principalmente cantadores, de gentes afáveis com aparência por vezes rude e ar entristecido, quem diria que esta terra que tem quase tudo, também em tempos pariu um blog que persiste em sobreviver e em viver lá no seu cantinho resguardado numa terra que há quem queira mandar para o abandono.

Disse-vos atrás que nós, aqui os de Beja, temos quase tudo. O que nos falta então?

Talvez gente aguerrida, destemida, sem receios de lutar pela sua terra.

 

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Isto vem a propósito do quê?

Bem, quem queira vir a Beja tem várias alternativas. Por terra, onde as estradas estão velhas e onde as auto-estradas são uma miragem que tem dificuldade em concretizar-se. Iniciadas as obras, a troika e quem manda neste país logo decidiram suspender as mesmas. São viadutos e quilómetros de terra esventrada, à espera de anos eleitorais para que as obras possam avançar mais um ou dois quilómetros.

Por via aérea também seria uma possibilidade, mas o aeroporto – sim, temos um aeroporto – teima em não descolar. Ora por isto, ora por aquilo, o facto é que o Aeroporto Internacional de Beja (como eu gosto deste pomposo nome) não recebe passageiros. Estavam previstos milhares, muitos milhares, de pessoas a aterrar e a descolar na planície, mas… plof! Nesta terra quase tudo não passa de um grande plof.

 

Mas a via mais aconselhável é a ferroviária. É uma aventura, um passeio turístico inigualável. Se sair de Lisboa, pode contar com uma paragem obrigatória em Casa Branca. A nossa, a alentejana, onde deverá mudar de comboio. Isto é, abandona o Intercidades (linha electrificada) e entra para uma composição dos anos 50 – a CP tem uma atracção pelo vintage – pois a linha até Beja não comporta comboios e carruagens de geração recente e em bom estado. Antes de vos contar como são as diesel onde embarcamos para a capital de Distrito, convém realçar que o transbordo do IC para a carroça pode demorar algum tempo, muito tempo, pois a carroça está, normalmente, avariada, e temos que esperar que venha outra automotora que, também ela, pode avariar. A espera faz-se numa estação sem condições, onde os passageiros ficam à mercê de ventos, chuvas e frios (no Inverno) ou de temperaturas escaldantes, como só o Alentejo conhece no Verão.

Embarcados na automotora, tudo pode acontecer. É uma aventura digna de um filme de Lynch. Carruagens climatizadas? É mentira! Um serviço de mini-bar para tentar matar a fome ou a sede, é uma miragem. Os vidros, por estarem todos grafitados, não permitem que se aprecie a paisagem. As luzes estão em constante intermitência. Há ruídos que ninguém sabe identificar. A qualquer momento espera-se o pior. Sugiro que vejam os 20 segundos deste vídeo. Estou quase a terminar, até porque a viagem está a chegar ao fim. Invariavelmente com atraso significativo, o que acontece quase diariamente. E nos dois sentidos.

 

Perguntam os leitores: e por que razão não apresentam queixa? Pois é, julgo que largas centenas de reclamações foram já feitas à CP, REFER, DECO, etc…

Respostas? Nada, zero!

Termino com o lema que nos une num movimento: #bejamerece +

Oxalá alguém nos dê atenção. Beja merece!

 

 

João Espinho

(blogue PRAÇA DA REPÚBLICA)

0 comentários em “Convidado: JOÃO ESPINHO”

  1. Alentejo profundo, bom vinho, pão de categoria superior e um dos melhores azeites do planeta

    O Alentejo tem alguns excelentes vinhos, mas muitos outros que têm mais marketing que qualidade, e muitos vinhos “fáceis” de mais.

    O pão alentejano é saboroso, mas hoje em dia é praticamente todo ele feito com trigo importado. O Alentejo já quase não produz trigo.

    Não gosto do azeite alentejano (casta galega), é fino de mais para o meu gosto. Gosto do azeite transmontano e beirão, que é feito com outras castas.

    1. “O Alentejo tem alguns excelentes vinhos, mas muitos outros que têm mais marketing que qualidade, e muitos vinhos “fáceis” de mais.”

      Isso pode ser dito sobre os vinhos de qualquer região demarcada ex: Douro, Lisboa, etc

      Vinhos – Prove o Monte das Servas Reserva, Tapada das Lebres, ou os do Enólogo Luís Leão.

      “O pão alentejano é saboroso, mas hoje em dia é praticamente todo ele feito com trigo importado. O Alentejo já quase não produz trigo”

      Ali para os lados de Beja ainda há muita seara e excelente pão – ex: Vidigueira

      “Não gosto do azeite alentejano (casta galega), é fino de mais para o meu gosto. Gosto do azeite transmontano e beirão, que é feito com outras castas.”

      Existe um azeite beirão, de cor verde – Vila Velha de Rodão – que me dá volta à tripa. Quanto ao transmontano, para mim, quando comparado com o alentejano, nem lhe noto a diferença…misturado nas carnes sabe-me todo igual…não sou muita dessas paneleir… de molhar a ponta do pão

  2. Vivi em Beja na década de 80.
    Lembro-me do desperdício gerado pelos fundos europeus da PAC. E dos marcos da Luftwaffe.
    A Belle Epoque alentejana, esses saudosos anos 80.

    Em jipes, barcos, e montes alentejanos, foram parar os dinheiros europeus. Não na modernização do tecido produtivo.

    Fala em mais Estradas? Ou em acabar as projectadas? Fala na locomotiva? No avião?
    Vá a Trás os Montes e veja o que por lá se passa, ou que deveria passar não com a pressa alentejana. Beja e o Baixo Alentejo já estão mais que servidos. Na Primavera-Inverno quando por lá vou, nem um carro vejo na Autoestrada que a serve, antes de entrar no IP-8. E nesta mesma estrada circula-se velozmente. Para quê então mais estradas? Tapem-se antes algumas.

    Fale antes nos Serviços de Saúde medíocres que Beja oferece aos seus cidadãos (O Hospital Distrital até há pouco tempo teve a sua maquineta de TAC avariada durante semanas. Cardiologistas até há bem pouco tempo era um ou dois, etc – Quem lucra com isso? As clinicas privadas e os consultórios que abundam nessa vila despida?)

    Beja….
    O latifundiário, de peito aberto mostrava o pelo com que era feito. Do bordão, junto à cruz do peito, mostrava o santinho em que não acreditava, mas que lhe dava jeito. A sua oração era a do pito. A mulher, tida ou mantida, aprimorada e vestida à espanhola, fazia da loja, no centro da cidade, não um negócio, mas uma sala de chá, onde se bebericava laudações à maledicência. E se mostrava, da montra fez lema de vida.

    Os grandes beneficiários? As mesmas famílias que fizeram e fazem (?) de Beja, há décadas, a sua herdade murada – Em Beja a ascensão social é inexistente. Call centers, manicuras, ou cafés são as suas Novas Oportunidades. Até os Serviços, Beja tem perdido para Évora….em Beja é o apelido e não a mão que marca o destino.

    Beja definhou desidratada de vontades e abandonada de valores…

    Uma cidade que fez da sombra e dos cantos, a sua mesa de operações. Pelos Partidos, pelo “conhecimento” do apelido, e pela informação privilegiada traficaram-se sinecuras- ex: EDIA/PSD, Câmara Municipal/PS/PCP,etc

    Quem chupou Beja até ao osso? Os mesmos que nesses anos olhavam para o lado quando se falava em voz baixa, num misto de indignação e ironia, ao som de um fado árabe a tinto, as indignidades que por lá se pavoneavam – durante muito tempo Beja teve no pavão do jardim publico o seu totem.

    Mas era a Belle Epoque, e todos, de uma ou outra forma lucraram com o roubo concedido. Mataram a terra e as suas gentes. Mas ninguém os pode levar a mal. Era a Belle Epoque.

    1. Esse é um dos retratos possíveis da minha cidade. Há outros, muito mais coloridos e igualmente bem contrastados. A cidade (e já agora toda a região alentejana) padece de várias maleitas. As culpas podem ser apontadas aos que cá vivem ou viveram. Aos que cá nasceram e fugiram. Mas há algo de muito verdadeiro: existe um propositado “desviar de olhos” por parte de quem deveria ter uma noção do que é o território nacional, sempre que se fala do Alentejo. Não falo do aeroporto, cujo projecto (ou a sua falta) sempre me pareceu muito duvidoso. Mas os comboios? Transmito o que um amigo escreveu: ” Depois de termos tido durante décadas um comboio directo e rápido, que depois em Casa Branca se ligava ao de Évora, formando uma composição única, vimo-nos com a linha fechada durante dois anos, com a promessa da modernização e melhoria. Uma mentira indecente, pois não houve obras, antes pelo contrário. Depois da reabertura, eis uma desgraça de um veículo sem condições nem qualquer qualidade, uma automotora mal cheirosa e sem climatização que a ASAE consideraria até imprópria para transportar gado!” Beja não merece ser tratada assim.

      1. João, oxalá eu tivesse podido ficar aí. Beja e o Alentejo oferecem tudo para uma vida arejada, sendo o seu problema a qualidade do emprego oferecido/inexistência de emprego qualificado.

        Quanto ao comboio que “serve” Beja, tem toda a razão. Uma vergonha que dura há pelo menos 10 anos!!!
        Lembro-me que também se mudava para um autocarro, em Vendas Novas, etc…já lá vão muitos anos….
        O que me espanta é o poder politico/elites locais não terem pressionado, via comunicação social, por exemplo, o poder central/CP…enfim

        Espinho? Havia uma loja de fotografia/fotógrafo com esse nome em Beja.

        Boa sorte!

        1. @Einstürzende Neubauten – Não me espanta o poder político. A região é fraca em votos, somos poucos e muito pouco (ou nada) podemos influenciar nas decisões tomadas pelo poder central. As elites locais adormeceram, migraram ou estão subjugadas a interesses particulares. A loja a que se refere é de um familiar.

  3. Um pecador morreu e foi pró Inferno. Quando lá chegou, estava um calor infernal e o pobre pecador lamentou-se: “porra, se aqui está assim o que fará em Beja!” Esta é uma velha anedota que se conta entre alentejanos bem dispostos.
    Mas para além do bom vinho, do bom azeite, do bom pão e da extraordinária cultura popular do Baixo-Alentejo, e claro, do sol ardente, a região de Beja é hoje uma terra abandonada ao nível das mais básicas infraestruras pelo poder da “Lesboa” que absorve a parte de leão dos recursos disponiveis. A história do “Aeroporto Internacional” é uma partida de mau gosto que Beja não merece. Teria sido muito melhor terem construído uma linha férrea em condições até à Casa Branca e a A26 que ligaria Beja à A2 e a Sines, do que gastarem largas dezenas de milhões de euros num aeroporto que não serve para nada.
    Um abraço de um Eborense solidário.

  4. Faço parte de uma geração de jovens médicos que se deslocou para Beja vindos do Porto, de Coimbra e de Lisboa. Um traço comum entre os elementos desse grupo era um certo idealismo, ainda que sentido em diversas tonalidades. Uma parte desse grupo foi ficando, passaram-se quase quatro décadas e alguns resistem. No que me diz respeito, passo a um registo pessoal. Em 1980, vinha engajado na militância de desenvolver os serviços de saúde numa perspectiva de integração e na missão pública. Apesar de ter uma vivência de centros urbanos muito maiores, não me foi difícil adaptar-me às características da cidade e da cultura dos seus habitantes. Trilhei os primeiros vinte anos da carreira com paralelo envolvimento cívico. Contribui com o meu trabalho para a evolução e crescimento do Hospital de Beja. Vi que a cidade crescia e as mentalidades evoluíam. A aldeia parecia estar seguramente a ficar num tempo passado. Entrámos num novo milénio determinados a enfrentar os desafios. Parecia-me que essa era a atitude da Elite Bejense. Ilusão minha. Os anos vieram a demonstrar a descrença em si próprios que tomou conta dos bejenses. Passividade, inibição, conformismo, ausência de atrevimento criativo. Qual o fator que determinou que esse derrotismo se instalasse nas mentes? Não sei, não avanço qualquer hipótese. Parece-me que os recursos materiais e naturais existem aqui. Mas o aproveitamento das potencialidades depende na iniciativa dos indivíduos. É este um problema educacional ou sociológico?

  5. Há anos, muitos, que não utilizava os comboios. Quiseram as circunstâncias que, desde Set/2016 até hoje, por duas vezes utilizasse a “nossa linha”, numa primeira viagem Beja/Porto e volta e, mais recentemente, Beja/Lisboa e volta. Felizmente, em ambas as ocasiões não aconteceram as, parece que frequentes, avarias na automotora velha, suja e barulhenta, que nos serve.
    Devo no entanto referir que, numa primeira abordagem às minhas viagens, comecei por consultar na Net (site da CP) os horários que me fossem convenientes e, pasme-se, sabendo eu que já não havia Intercidades a partir de Beja, por nos ter sido tirado à má fila, só consegui aceder aos horários entre Beja e Casa Branca, selecionando os horários do IC. O regional estava fora de questão. Quer isto dizer, que nos querem dar lebre, quando nos dão gato. Uma maneira muito enganosa de convencer o Zé de que a cidade não perdeu valências ferroviárias. Bom, mas se ia no IC, esperava usufruir das comodidades compatíveis com esse IC. Puro engano, puseram-me à disposição uma automotora velha, com um aspecto interior deprimente e com a pretensão de se apresentar com alguma modernidade. Ronceiramente lá se chegou a Casa Branca e aqui, depois de uma espera, felizmente curta, numa plataforma completamente desabrigada, o que não se compreende e só acresce a falta de respeito pelo passageiro, um transbordo para, esse sim, um comboio IC limpo e silencioso que não disponibilizando todos os serviços (o bar estava fechado) me levou à Gare do Oriente.
    A partir daqui e até ao Porto, embarquei num IC a 100% numa rápida e cómoda viagem. Aqui está, continuam a privilegiar-se os grandes centros, em detrimento daqueles em que os votos mais escasseiam. Acentuam-se as assimetrias em vez de se atenuarem, propagandeando no entanto que se “trabalha” para o contrário.
    A conversa vai longa, o essencial já foi dito e nós por cá teremos que ir continuando a lutar. No entanto, por tudo o que não nos respondem, já começamos a crer que estamos Quixotescamente a lutar contra moinhos de vento e isso é desesperante.

  6. Escreve-se hoje no “Público”:
    À medida que a temperatura sobe gradualmente na região alentejana, a paciência da população de Beja esgota-se na expectativa sistematicamente gorada de poder vir a ter viagens de comboio que respeitem os horários, em carruagens que não cheirem mal e permitam aos passageiros verem a paisagem. Os grafittis cobrem as janelas de tinta espessa, o que confere ao interior um ambiente pesado. Os alentejanos preparam agora formas de luta e a música será uma das armas.”

    Para ler aqui: https://www.publico.pt/2017/06/06/local/noticia/versao-alentejana-de-we-are-the-world-quer-melhorar-os-comboios-bejalisboa-1774389

  7. Continuando Beja, subscrevo no essencial o que o Dr. José Frade aponta em comentário anterior. Discordo num pequeno pormenor: para o Dr. José Frade, o ponto de viragem das mentalidades e forças criativas bejenses, teria sido a entrada do novo milénio. Teria sido bom, sem dúvida, mas na minha perspectiva já um pouco tarde. À passagem do milénio, já Beja tinha, sem resistir, perdido quase todas as suas valências administrativas e decisórias de âmbito regional. Um retrocesso impunha-se já como impossível, estava-se a deixar ir, paulatinamente a Capital Administrativa para outras paragens, neste caso Évora. A Região tornou-se Sub-Região e temos que ter muito cuidado para que também isso se não perca. Disse há dias, num comentário na PR que Beja parou, é o que sinto. Nota-se cada vez mais o desinteresse das pessoas pela sua cidade. São confrangedores os Domingos e Feriados sem gente, porque não há motivos que as fixem. Perdeu-se a Feira de Agosto, um evento secular, carregado de tradições relacionadas com as vivências locais. Outras cidades equivalentes, ou que o foram, mantêm essas tradições “inventaram mais outras”, agarraram-se com unhas e dentes à sua condição e procuraram o desenvolvimento. Desenvolvimento, palavra chave que não consegue desabrochar em Beja, pois até parece que as forças viva se conjugam para o suster. A falta de criatividade e iniciativa é atroz e assim vamos “morrendo” aos poucos. É o comboio que se perde, o aeroporto internacional que nos inibe de voos regionais, tão necessários, que não funciona, é o comércio tradicional que decai a olhos vistos, é a falta de qualquer tipo de indústria transformadora, exceptuando os lagares, etc. Temos o vislumbre de Alqueva, está algo a mexer, ao menos isto se não perca.

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