A condecoração
Em 1988 chamaram-me louco porque decidi meter-me a caminho entre Macau e Lisboa a bordo de um UMM. Atravessei o Império do Meio, num tempo em que rareavam estradas, telefones, hotéis, carros e homens ricos. Uma China imensa cheia de exército, deserto, miséria, trabalho escravo, experiências nucleares e muito comunismo.
Nos Himalaias, a seis mil metros de altitude, senti a morte por perto, à semelhança do que se passou perto da fronteira com o Afeganistão e no Irão. Homens armados eram mais que as tempestades de areia. Os revolucionários do Irão obrigaram-me a beijar a fotografia do ayatollah Khomeini mais de uma dezena de vezes. E ainda não existia o Bin Laden.
Habituara-me ao longo da expedição a temperaturas que variavam entre os 15 graus negativos e os 60 positivos. Quando os bombardeamentos do Iraque destruiam as vilas iranianas pensava estar com febre a mais. E prossegui viagem passando pela Turquia, Bulgária, Jugoslávia, Itália, França, Espanha e Torre de Belém. Acabara de simbolizar o regresso dos portugueses por terra em homenagem aos de antanho que por mar tinham chegado às praias chinesas. Foram 22 mil quilómetros durante 50 dias em que a realidade mais se assemelhou a um planeta situado a milhões de quilómetros.
Por este feito, amplamente documentado nos jornais da época, o Presidente da República do meu País e o governador de Macau, que eu tinha abraçado, entenderam que era merecedor de uma condecoração oficial.
Como a vida dá muitas voltas, deparei-me há tempos com dificuldades extremas de sobrevivência financeira. Um jurista amigo descobriu que a legislação das Ordens Honoríficas portuguesas contempla todos os condecorados com uma pensão equivalente ao salário mínimo nacional. Requeri o devido, na esperança de poder sobreviver por este Portugal que ainda amo.
A resposta foi rápida e condizente com os políticos dos dias de hoje: não!


Beijinho, João. Gosto de te ler por aqui.
Obrigado, Teresa. Retribuo o beijo e bom fim-de-semana.
Ao amigo Pedro quero agradecer este convite honroso em fazer parte desta família exemplar que consegue opinar sem delito. O delito é de opinião…
Abraço a quantos escrevem aqui.
Assim vai o mundo e o nosso país nesse particular não fica na retaguarda. Assiste-se a uma espécie de cultura do século XXI, baseada na mentira na fachada na injústiça.
Hoje, essa “cultura”, trás-nos fenómenos que têm vários personagens a dar a cara: uns voluntariamente, os Bin Ladens , outros obrigados a dar a cara por um exército de igualmente ou verdadeiramente malfeitores (culpados).
Os esclarecidos que não se deixam embebedar pela retórica politiqueira de vendilhões da pátria, são intitulados demodés “. Deixá-lo ser! Objectividade, honestidade, não passa de moda e equidade também não.
Irene
As suas palavras dão alento, Irene. Obrigado.
És frontal? Pois que sejas. Parabéns, João.
A ti, caro JC, já não sei como agradecer as tuas “bocas”, únicas e sensibilizantes. Grande abraço e cuidado não vá o anti-ciclone sujar um Rolls descapotável que anda por Angra nas mãos de um historiador… 🙂
És um exagerado, como sempre. Eheh…
E eu estava em Macau na altura. Bem me lembro te dar umas dicas sobre a Turquia. Um feito que nunca ninguém fez.
Conheci o vosso entusiasmo e pensei que os UMM não aguentassem a viagem.
De ingratidões estão os portugueses cheios dos que vivem/viveram nesta Ásia.
Abraço João
Zé Martins
Obrigado Zé. E aquela Turquia deu tanto trabalho a atravessar por causa do gelo nas estradas. Mas o pior foram os polícias de trânsito, só nos mandavam parar para cravar tabaco… e só queriam Marlboro… finos.
Mas as memórias, e a deliciosa crónica dessa aventura, essas ninguém as pode apagar pois não João?
O resto, como bem dizem os nossos irmãos brasileiros, que se exploda!!!
Abraço
É assim, caro Pedro. Mas o pior ainda são as memórias recentes… doem que se fartam.
Abraço até Macau com muitos desvaneios.
Sorry Pedro. Errata: devaneios… do Oriente.
Viva, João. Gostei de te ver desfiar aqui essas saborosas memórias de uma viagem inesquecível e que na altura tanto deu que falar, em Macau e até em Portugal. Um abraço amigo.
Obrigado, Pedro. Tu és das poucas pessoas que sabes quão difícil e aventureira foi a experiência. Hoje, não a fazia nem por 1 milhão de euros.
Aproveito para mais uma vez agradecer o convite honroso para ter a oportunidade de cometer um delito de opinião… 🙂 Abração (para rimar)
Espero, João, que todas as injustiças de que tens sido vítima possam ser corrigidas, assim que se Limpar Portugal da viscosa gente rapace que o sopeia.
Tu bem sabes que os princípios de justiça, de ética, uma vez rasurados, abrem a porta aos piores monstros — pois são eles que nos tutelam hoje e é contra eles que temos lutado e continuaremos a lutar. Por Portugal.
Abraço, Amigo Aventureiro, que desejo venturoso!
Caro Joshua
São palavras que sensibilizam muito e que dão alento. Bem hajas. Grande abraço.