O mal é simples
Há quatro meses que não consigo escrever este texto. Nem fazer up load das fotografias. Sobretudo as fotografias. Custa-me, é mais vergonhoso. Uma imagem da placa onde se lê “arbeit macht frei” parece tão indigna como filmar a tortura. E, no entanto, necessária.
Só agora, quatro meses passados, e depois de ler dois livros de Imre Kertesz, o Nobel húngaro que sobreviveu a Auschwitz, é que acho que sou capaz.
O que tem de tão impressionante o campo de concentração que os nazis construíram na Polónia?
O facto de não impressionar. Custa percebê-lo, mas é isso. Para mim é isso.
Há lugares que nos chocam porque são reveladores, confrontam-nos com a verdade. Auschwitz, e Birkenau, pelo contrário, são lugares que fazem parte da nossa memória. Já sabíamos tudo antes de termos chegado.
Vistos de perto, chocam pela simplicidade. A maldade humana não necessita de sofisticação, não precisa de nada de extraordinário. Um lugar banal e homens vulgares são suficientes. E o ódio ao outro.
Auschwitz não pode ser apenas a recordação da infinita possibilidade do mal. Com certeza que não. Há homens e mulheres reais que sofreram ali, não são apenas símbolos. Mas esse último sacrificio é necessário. Para que cada um de nós saia de Auschwitz com a certeza de que é possível, de que o mal é facilmente humano.
Sobra a esperança de saber que o bem também é humano. E que, em ambos os casos, é uma escolha.


Muito bem exposto. Parabéns ao Henrique Burnay.
Eu não consegui ir lá. Chorei q.b. no museu do Holocausto, em Washington. Gostei de te ler
(Olá, Ivone. Que boa surpresa. Gostei desta visita.)
Olá menino Pedro. Sou visita frequente, aqui e no Albergue. Beijos
Viva, Henrique. Gosto muito de te ver por cá. E gostei muito do teu texto, como aliás já esperava.
Gostei muito do texto. Eu nunca estive em Auschwitz mas lembrei-me dos sentimentos que uma visita a esse campo despertou na personagem principal do último livro de David Lodge . À partida eram muitas as dúvidas do Prof. Desmond Bates sobre a transformação de um local onde foram cometidas infinitas atrocidades numa atracção turística. Mas depois, achando-se um pouco cobarde, acaba por ir, verificando que os polacos não gostam que se considere aquele local uma herança (basta-lhes que a UNESCO o faça, referindo-se a toda a humanidade). Correndo o risco de ninguém querer ler este comentário até ao fim eis o que se diz: “It has been said often enough that there are no words adequate to describe the horror of what happened at Auschwitz , and in other extermination camps whose traces were more thoroughly obliterated by the retreating nazis. There are no adequate thoughts either , no adequate emotional responses, available to the visitor whose life has contained nothing even remotely comparable . One feels pity of course , and sorrow , and anger , but these feelings seem as superfluous to the immensity of woe this place evokes as tears dropped into an ocean … In the end perhaps the best you can do is to humble yourself in the face of what happened here , and be for ever grateful that you weren’t around to be drawn into this vortex of evil , in either suffering or complicity .”