Convidado: HENRIQUE BURNAY


Pedro Correia,

 

O mal é simples

 

Há quatro meses que não consigo escrever este texto. Nem fazer up load das fotografias. Sobretudo as fotografias. Custa-me, é mais vergonhoso. Uma imagem da placa onde se lê “arbeit macht frei” parece tão indigna como filmar a tortura. E, no entanto, necessária. 

Só agora, quatro meses passados, e depois de ler dois livros de Imre Kertesz, o Nobel húngaro que sobreviveu a Auschwitz, é que acho que sou capaz.

O que tem de tão impressionante o campo de concentração que os nazis construíram na Polónia?

O facto de não impressionar. Custa percebê-lo, mas é isso. Para mim é isso.

Há lugares que nos chocam porque são reveladores, confrontam-nos com a verdade. Auschwitz, e Birkenau, pelo contrário, são lugares que fazem parte da nossa memória. Já sabíamos tudo antes de termos chegado.

Vistos de perto, chocam pela simplicidade. A maldade humana não necessita de sofisticação, não precisa de nada de extraordinário. Um lugar banal e homens vulgares são suficientes. E o ódio ao outro.

Auschwitz não pode ser apenas a recordação da infinita possibilidade do mal. Com certeza que não. Há homens e mulheres reais que sofreram ali, não são apenas símbolos.  Mas esse último sacrificio é necessário. Para que cada um de nós saia de Auschwitz com a certeza de que é possível, de que o mal é facilmente humano.

Sobra a esperança de saber que o bem também é humano. E que, em ambos os casos, é uma escolha.

 

Henrique Burnay

6 comentários em “Convidado: HENRIQUE BURNAY”

  1. Gostei muito do texto. Eu nunca estive em Auschwitz mas lembrei-me dos sentimentos que uma visita a esse campo despertou na personagem principal do último livro de David Lodge . À partida eram muitas as dúvidas do Prof. Desmond Bates sobre a transformação de um local onde foram cometidas infinitas atrocidades numa atracção turística. Mas depois, achando-se um pouco cobarde, acaba por ir, verificando que os polacos não gostam que se considere aquele local uma herança (basta-lhes que a UNESCO o faça, referindo-se a toda a humanidade). Correndo o risco de ninguém querer ler este comentário até ao fim eis o que se diz: “It has been said often enough that there are no words adequate to describe the horror of what happened at Auschwitz , and in other extermination camps whose traces were more thoroughly obliterated by the retreating nazis. There are no adequate thoughts either , no adequate emotional responses, available to the visitor whose life has contained nothing even remotely comparable . One feels pity of course , and sorrow , and anger , but these feelings seem as superfluous to the immensity of woe this place evokes as tears dropped into an ocean … In the end perhaps the best you can do is to humble yourself in the face of what happened here , and be for ever grateful that you weren’t around to be drawn into this vortex of evil , in either suffering or complicity .”

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