Los 10 milliones
Em finais de 2009 a equipa gerente da mina anunciou que os 10 milhões de portugueses estavam a 9,4 metros abaixo do solo. Muito mais do que os 5,3 metros que a mesma equipa anunciara antes de ser escolhida novamente para dirigir a operação. O engenheiro-chefe disse que agora é que ia ser. Embora fosse operação demorada, anunciou que no final do ano seguinte estariam 1 metro acima, nos 8,4. Seriam precisos sacrifícios, como seja cada um dos mineiros pagar um pouco mais das suas economias. Mas em contrapartida a equipa dirigente diminuiria a despesa, isto é, aquilo que leva a terra acumular-se em cima dos desgraçados.
Os financiadores da operação torceram o nariz. Não acreditaram, até porque aquela mesma equipa já tinha revelado igual incompetência antes e com as mesmas promessas. Começaram a pedir juros mais altos.
Em Maio, aflita, a equipa de resgate apelou para a equipa suplente. Esta, contrariada, mas face aos anúncios de que caso não colaborasse seria cortado o crédito, deu o seu aval a novas medidas: um pouco mais de contribuição financeira dos mineiros retidos e a promessa de que seria tirada maior quantidade de terra, diminuindo-se a dívida, para que no final do ano não ficassem os coitados nos 8,4 mas desta vez nos 7,4 metros.
Os financiadores da operação continuaram a achar que aquela equipa não batia certo. Mesmo com o apoio da equipa suplente, de toda a mobilização feita, via-se que apenas se estava a aumentar a contribuição dos mineiros, mas na verdade não se tirava terra nenhuma, pois a divida aumentava. A menor velocidade, mas aumentava. Os juros da operação subiram ainda mais.
Em Outubro a equipa de resgate, numa situação aflitiva, anunciou que para dar um sinal claro aos financiadores desta vez é que ia mesmo cortar na dívida, ia tirar terra a sério. De imediato e também no próximo ano, em que se atingiriam os 4,6 metros. Para isso tinha que ir buscar umas poupanças suplementares que um grupo de mineiros juntara numa caixa económica para a eventualidade de uns dias difíceis, bem como cortar os seus vencimentos e prometia que desta vez era a sério, ia mesmo tirar terra, diminuir a dívida. Disse que agia assim, até porque noutras minas fora feito o mesmo (em Maio e parecia estar a dar certo), mas que só fazia agora porque estava convencida que não seria necessário.
Para conseguir levar isto por diante e até porque os financiadores nem ligaram muito a tal intenção por já a terem visto sem resultado muitas vezes, viraram-se para a equipa suplente e disseram «assinem aqui como concordam, para que os financiadores nos ajudem». Mas os suplentes disseram que não, que não conheciam o documento, que não conheciam os resultados da operação de Maio, que não confiavam na equipa dirigente face aos péssimos resultados. Que só vendo as contas. Com essa não se contava, e de todos os lados surgiram umas velhas megeras e umas carpideiras profissionais a dizerem «ai os nosso meninos lá em baixo, salvem-nos, os suplentes tem que ajudar, senão isto vai ao charco. Sois maus se não assinais em branco, os financiadores vão-se embora e eles vão ainda mais para o fundo». Foi um autêntico arraial: antigos dirigentes da mina, colegas bem colocados da equipa suplente, e mesmo uns administradores da empresa surgiram a apelar a que sim, que a salvação dos mineiros dependia do aval em branco da equipa suplente.
Entretanto a equipa de resgate esfregava as mãos de contente: ninguém lhe pediu contas, ninguém lhe apontou o dedo aos falhanços, à incompetência, às promessas não cumpridas, ao facto de não ter na verdade tirado um quilo de terra, de dívida, e apenas ter sacado mais dinheiro aos mineiros. Sendo a sua actuação um desastre, tinha conseguido que as atenções ficassem em cima da equipa suplente. Já se falava mesmo que podiam os trabalhos ser interrompidos até Maio, até à escolha de uma nova equipa, mas correndo-se o risco de ficar tudo na mesma. Os suplentes lá iam resistindo corajosamente: que não sabiam o que estava a ser feito, que se tinha de conhecer os dados, que não podiam assinar ordens em branco, que haveria alternativas menos gravosas, que a responsabilidade era inteiramente da actual equipa de resgate.
Foi então que …… (continuará, como se verá)


Se esta história não for um plágio (porque parece-me que conheço uma história muito parecida), parabéns ao Gabriel.
Mesmo que os 10 milhões que trabalham na mina sejam resgatados com vida, o seu dia-a-dia nunca mais será igual. E uma boa parte sofrerá danos profundos que se irão revelar ao longo do próximo ano. A actual administração da mina, depois de muitas promessas de punição exemplar, aproveitará uma esquina do tempo para, de mansinho, se ocupar de outras jazidas bem mais lucrativas. E a nova administração, perseguida pela má fama da mina, será incapaz de arranjar financiamento para suportar o elevado investimento exigido pelo reforço das condições de segurança. Terá assim que optar entre fechar a mina ou pedir apoio a consórcios de outras nacionalidades. Daqui por uns anos, a história dos 10 milhões de mineiros servirá para entreter os serões de crianças já cansadas dos seus dias irrequietos. No alpendre de uma casa em ruínas, adquirida a crédito em 2003, com uma hipoteca que certo Banco se cansou de executar, o velho mineiro, com olhos rasos, ouvirá um netito perguntar-lhe pelo ouro dos tolos.
Estou ansioso pelo próximo episódio da telenovela.
Com tão fracos actores, será ainda hoje?
Ansiosa, é claro…
A mim só me resta mesmo dar os Parabéns ao Gabriel Silva. Retratou bem a infelicidade destes “mineiros”.
Viva, Gabriel. Gosto de te ver por cá. Abraço.