Ainda temos tudo o que não perdemos
“Perdi anos da minha vida.” Sempre que ouço esta frase, ponho a shotgun à anca e espero a carga seca e rápida do leopardo. Nunca a ouvi a miúdos, jovens e velhos.
Exacto: é dita sempre por humanos do meu escalão (sensivelmente 30-60). Para um estóico (a escola do Arco aceita todo o tipo de alunos), isto não faz sentido. Perdemos os anos? E eles vão para onde? Podemos recuperá-los? Como?
Se supusermos que cada dia é uma unidade finita, que se renova incessantemente, os anos desperdiçados são uma falácia. Esses pedaços de tempo ficaram lá, nos dias que habitaram. Podem então ser considerados perdidos? Não, porque tal classificação supõe que podem ser recuperados. Não podem: são como a água que despejamos num rio.
Resta saber se podemos considerar a perda. Um velho paradoxo grego explica que ainda temos tudo o que não perdemos (perguntem a um amigo se perdeu recentemente um par de cornos…). As partes da nossa vida, por piores que tenham sido, ainda são nossas. Temos memória, rugas e úlceras que o podem confirmar.
Resumindo: não podemos recuperar o tempo perdido, porque o tempo não é nosso. O passado, ensinava Séneca, é tudo o que temos.


Boa. Os anos perdidos não podem ser recuperados, tal como a interrupção voluntária da gravidez não pode ser retomada. Parabéns, Filipe.
É, o passado é tudo o que temos e a única coisa que não nos podem roubar. Nem hoje, nem no futuro.
O que se perde é susceptível de ser encontrado, com excepção para o tempo, porque os ponteiros do relógio não podem voltar para trás.
Engraçado este texto faz-nos mesmo pensar que a expressão ” tempo perdido ” é mesmo ambígua.
Bem-vindo, Filipe. Gostei muito de vê-lo a escrever connosco. Abraço.
Fiquei a saber que o Heráclito era da escola do Séneca. Quando não escreves sobre o Benfica ou a Palestina, até a filosofia te sai bem, hombre.
Tens alguma coisa contrao Benfica?
Eu é que agradeço o convite, Pedro.
O Benfica? É aquela coisa que nos corre nas veias.
Hum…
E pronto, de uma penada arrumou com Proust!
Brinco: concordo em absoluto.
Não se perdem anos coisa nenhuma, isso é aquela manobra consciente e batoteira que descrevemos quando colocamos objectivos onde eles não poderiam (ainda) ter existido.
Excelente, como sempre, este blogger-matemático…….:):)
(Brinco outra vez: Psi! Prestigiado psi).
Mas o passado são vários. A beleza da memória é ser selectiva e aldrabona. (Como pode José Sócrates ter as mesmas características e não ser belo? Er, não nesse sentido. Embora também não seja. Acho eu, que nunca lhe apreciei o nariz.) Não podemos recuperar o tempo mas podemos recuperar memórias diferentes desse tempo.