Convidado: FERNANDO LOPES


Pedro Correia,

 

Eternamente jovem

 

O aumento da esperança de vida, o prolongamento da vida académica, a forma como envelhecemos mais tarde e de um modo mais suave, arrastam consigo um prolongamento da infância para idades bem para lá dos 30, num processo que me causa estranheza. Entre mestrados e doutoramentos, muito por consequência do desemprego, mas também porque um mestrado passou a ser «habilitação mínima» num universo de licenciaturas curtas, a constituição tardia de família passou a ser norma.

Hoje todos achamos que alguém que faleceu para lá dos 70 anos ainda era novo. Há trinta anos, sete décadas era uma idade vetusta. Somos pais pela primeira vez aos 40, jovens quadros promissores aos 45, aos 55 é-nos pedida a jovialidade de alguém 20 anos mais novo.

Bem na meia-idade, não sinto que seja velho, mas em muitas coisas o meu tempo já não é deste tempo. Esperam de mim um entusiasmo quase inocente, quando há muito o perdi, e uma visão distante, muitas vezes cínica, é o que me caracteriza. Noutros tempos, a capacidade de comunicar só era valorizada se existisse substância; hoje a forma exerce primado sobre o conteúdo. Importa mais parecê-lo que sê-lo.

Nós, cinquentões, estamos encalhados em terra de ninguém. Esperam que tenhamos a energia, a mundivisão da gente nova, enquanto nos consideram demasiado velhos para algum tipo de progressão, profissional ou outra; esperam que dancemos as coreografias em vigor mesmo que para elas não tenhamos paciência ou vocação; que tenhamos o aspecto dos 30, a maturidade dos 40 e a energia dos 20.

Sempre dancei conforme a minha música, não pela que me queriam impor.

Hoje em dia ser assim, assumir a idade, não brincar aos eternamente jovens, é aceitar um estatuto de pária. Assim seja.

 

 

Fernando Lopes

(blogue DIÁRIO DO PURGATÓRIO)

0 comentários em “Convidado: FERNANDO LOPES”

  1. Mais uma amostragem de que o DO está para falecer. Tem de ir buscar textos a outros blogs. Em geral, com infelicidade.
    Bom enterro.
    Pode apagar o comentário.

    1. Mais um comentário imbecil.

      Os textos não são copiados de outros blogues: são originais, que depois serão (ou não), naturalmente, reproduzidos nos blogues dos respectivos autores.
      Esta não é uma iniciativa inédita do DELITO. Houve uma igual a esta que se prolongou por 13 meses, entre Junho de 2010 e Julho de 2011. Com mais de duzentos autores-convidados.

      “Apagar o comentário” para quê? Exerça à vontade o direito ao disparate.

  2. Fernando, já por aqui no DO se falou sobre a nova decadência. Digo nova pois a Decadência é sempre presente, ao contrário das Alvoradas esquecidas em terras de ontem. Olho para trás e não vejo nenhum tipo de degradação moral cujo clímax é do Agora. Veja bem, porventura o vocábulo era mais redondo na idade de antanho, mais cortante pela ideologia vincada. Hoje ganhou-se um certo cinismo ao discurso inflamado. À palavra cavada. Ao pensamento profundo. Pois deste obtivemos, na maioria das vezes, apenas o Abismo. Morramos antes num carrossel, engasgados em algodão doce. Depositemos mais esperança na boa vontade da ignorância e não na doença das certezas robustas em mentes e espíritos de marfim

    1. É um fenómeno peculiar, pois a decadência é sobretudo de valores. A crise de um certo «humanismo» levou a uma visão eminentemente egocêntrica da realidade que não está relacionada com gerações, é transversal.

  3. É uma boa reflexão sobre a vida e o fluir (ou refluir?) das gerações.
    O que acontece é que a malta gosta pouco de refletir.
    Gosta muito mais de ostentar erudição.
    E, vai daí, desanca este tipo de textos.
    A propósito, devo testemunhar que o que mais me choca é a atual desvalorização social e familiar dos maiores (prefiro a nomenclatura castelhana).
    No meu tempo de menino, eles eram os mais respeitados nas famílias e nas comunidades.
    Agora, são os mais roubados e maltratados, sobretudo pela família.
    É a vida!…
    João de Brito

    1. João, permita-me!
      Nos tempos de Roma um escravo seguia o imperador, dizendo-lhe:

      Memento mori.

      Sábia filosofia de vida. E não tendo eu escravo, por uma questão de costume, nunca me olvido, todas as manhãs, de olhar para o fundo da retrete antes de puxar o autoclismo. E funciona. Quer o autoclismo, quer a humildade.

    2. Concordo que é um paradoxo contemporâneo uma sociedade «geriatrizada» que nutre tão pouco respeito e afecto pelos seus mais velhos, mas é resultado da hipervalorização da juventude per si. Um médico dizia que no futuro teremos uma sociedade de idosos, elas com seios firmes, eles com falos erectos, sem que saibam exactamente para o que servem.

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