Os Passos Perdidos
Depois de uma década de governação perdida, que culminou na iminente bancarrota do Estado e na necessidade de o país ser resgatado pelas instâncias financeiras internacionais, o povo português, chamado a pronunciar-se em julgamento político soberano, foi a eleições no dia 5 de Junho de 2011. Eivado do sentido de responsabilidade que lhe é sobejamente reconhecido, no dia do sufrágio o povo acorreu em massa às praias e esplanadas de todo o país, face ao belíssimo dia de sol e calor que lhe fora ofertado.
Das eleições resultou um empate entre PSD e PS. Em consequência de uma votação histórica do CDS, constituiu-se um governo de coligação entre o PSD e o CDS, com o apoio parlamentar maioritário dos respectivos grupos parlamentares.
Após um período de cerca de 12 meses de governação PSD/CDS, marcado por vários incidentes entre o Ministro das Finanças do PSD e alguns ministros do CDS, e por grande contestação pública, devido às medidas de austeridade entretanto aplicadas e às pequenas reformas feitas, começaram a surgir na imprensa diversas e graves acusações ao Primeiro-Ministro, nomeadamente o de ter sido apanhado a beber uma caipirinha XXL no Bairro Alto num sábado à noite, de ter afirmado publicamente que apreciava carne mal passada e desprezava a comida vegetariana, quase tanto como desprezava os Abba, e bem como de não ter pago uma multa de estacionamento. O episódio mais grave aconteceu quando foi apanhado pelas câmaras de televisão a obsequiar a chanceler alemã com um objecto de cerâmica das Caldas, sendo imediatamente acusado de ter rebaixado e submetido o país à Alemanha. Entretanto, na rua, o povo manifestava-se em massa contra as políticas de direita levadas a cabo pelo governo de coligação. Grupos de anarquistas e fãs dos Abba, elementos do PNR e dos movimentos contra os transgénicos e contra os bifes mal passados começaram a juntar-se a tais manifestações, expressando a sua ira através da queima de pneus e lixo na via pública, da destruição de material público e privado, incluindo ainda a troca de mimos com a polícia, tudo à boa maneira magrebina.
Além disso, os constantes atritos com muitos dos dirigentes dos organismos públicos na directa dependência do Governo (direcções gerais, institutos e fundações públicas, etc.), fruto das extensas nomeações de gente da confiança do PS nos anos anteriores, e que faziam uma oposição camuflada à política executiva do governo, levaram à quase inoperância da administração pública portuguesa.
Com toda esta instabilidade, a gota de água chegou com a demissão do Presidente da Assembleia da República, em desacordo com a política seguida pelo Governo, e da posterior falta de entendimento parlamentar para a eleição de novo Presidente da Assembleia. Em face de tal situação política, e perante o cenário existente de grande contestação política e social, o Presidente da República decidiu demitir o governo e dissolver a Assembleia República, marcando novas eleições legislativas.
Nessas eleições apresentou-se a sufrágio José Sócrates, pelo PS, imbuído de um espírito messiânico nunca antes visto, anunciando-se como portador de uma solução de confiança e optimismo para o país, e visando o fim imediato das políticas de direita que estavam a matar o estado social, esventrando a segurança social, asfixiando a magnífica e exemplar escola pública portuguesa, e destruindo o eficiente serviço nacional de saúde.
Com este discurso, e ajudado pela forte queda do PSD (alvo de divisões intestinas, travava uma guerra interna entre as correntes socialistas e liberais, pontuando ainda nas suas fileiras não poucos que nutriam uma admiração secreta pelo D. Sebastião que ora surgira), José Sócrates conseguiu obter duas maiorias absolutas, uma logo em 2012, outra no final de 2016.
Durante os primeiros anos de governação, o governo, carregado de esperança e optimismo, reintroduziu um plano maciço de obras públicas, construindo-se em tempo recorde uma nova auto-estrada Lisboa-Porto, o novo Aeroporto de Lisboa, o TGV Madrid-Lisboa, um porto de águas profundas na Nazaré, e um gigantesco novo centro de congressos em Lisboa (o maior do mundo para dizer a verdade).
Para combater o desemprego estabeleceu-se uma política de contratação pública, assente no princípio de que para um posto de trabalho na função pública, dois trabalhadores, um para trabalhar e outro para dar apoio moral, de modo a manter-se sempre em cima os valores de confiança e optimismo.
Novos programas de formação e ensino foram criados: a “licenciatura na hora”; o “mestrex”; e o “doutoramento electrónico”. Em pouco mais de cinco anos Portugal ultrapassou o Japão em número de licenciados e doutorados por habitante. No entanto, continuava a ser um dos países com maior taxa de analfabetismo no mundo.
Na energia, prosseguiu-se a forte aposta nas eólicas, tornando-se Portugal na maior potência eólica do mundo, tendo para isso renunciando à sua bela paisagem e natureza selvagem. Devido aos preços exorbitantes da electricidade (dos mais elevados do mundo), começou a ressurgir em Portugal a indústria de velas e candeias de azeite. Podíamos não produzir automóveis, aviões, comboios, nem barcos (os poucos que fizemos ninguém os quis comprar), mas pelo menos produzíamos eólicas com fartura (que entretanto deixaríamos de exportar, uma vez que a China começou a produzir unidades mais baratas).
Entrementes, com a indústria arruinada e sem nada produzir de valor, o país acabou por perder os únicos monopólios que ainda detinha no mundo: o da produção de cortiça e o da produção de palitos. Isto, fruto, em grande parte, da extinção da floresta autóctone em consequência dos sucessivos incêndios e da sua substituição por culturas arborícolas de rápido crescimento.
Em 2017 foi abandonada a linha de TGV Lisboa-Madrid, face à descida do preço do petróleo e ao subsequente abaixamento das tarifas áreas, visto que a ferrovia – com bilhetes cinco vezes mais caros e uma viagem cinco vezes mais demorada – não conseguia concorrer com o transporte aéreo. Nesse sentido foi decidido pelo Governo construir um novo aeroporto em Lisboa, localizado nos antigos terrenos do aeroporto da Portela (que tiveram de ser expropriados por milhões), entretanto desactivado e transformado em urbanizações de luxo, ficando a capital a funcionar com dois aeroportos, o da Ota para voos low cost e charters, e o da Nova Portela para os voos regulares.
Passados alguns anos, e já depois do segundo resgate financeiro da década, ocorrido em 2016, em 2019 apenas a China se disponibilizou para financiar o Estado Português. Porém, como garantias, o Estado deu de penhor toda a banca portuguesa, pública e privada, a estátua do Cristiano Ronaldo em ouro entretanto erigida junto ao Cristo Rei, e ficou obrigado, dali em diante, a importar pelos menos 80% de todos os bens e serviços que importava a partir da China.
Um triunvirato composto por elementos do Partido Comunista Chinês, da chancelaria alemã e do FMI passou, desde essa altura, a governar de facto o país. A União Europeia há muito se tornara uma mera organização simbólica de confraternização; a França ainda estava ocupada com bombardeamentos cirúrgicos na Líbia, alimentando o velho sonho de Napoleão de dominar o mar Mediterrâneo; e o Reino Unido deixara de participar nas reuniões das instituições europeias, queixando-se da insuportável sobranceria alemã.
Sócrates manteve um governo fantoche, constituído por 34 ministros e 392 secretários de estado, tendo direito às regalias e pompas todas que tivera até então. Dirigia-se ao povo, em directo dos três canais, todas as semanas aos domingos à noite, propagando confiança e optimismo. Era ainda responsável pela organização do congresso anual do PS, que juntava cerca de um milhão de pessoas durante 15 dias seguidos, com espectáculos do Tony Carreira e do Quim Barreiros, uma meia-maratona “José Sócrates”, jogos de computador em rede LAN com os Magalhães (num dos congressos foi, aliás, batido o recorde do Guinness de maior número de portáteis ligados ao mesmo tempo entre si, durante as qualificações para o jogo de estratégia “Socrates Politics Manager”), e incontáveis barracas a servir de borla panados de tofu e cerveja sem álcool.
Em finais de 2020, José Sócrates, aparecendo de lágrimas nos olhos em directo da Sala dos Passos Perdidos na Assembleia da República, comunicou ao país que, em sacrifício próprio, dotado do espírito democrático que sempre lhe foi reconhecido, e de modo a operar-se uma renovação política no país, não se ira candidatar ao cargo de Primeiro- Ministro nas próximas eleições legislativas.
Nota: agora que estamos quase a meio do ano 2021, e as eleições se aproximam, achei por bem fazer esta breve síntese, muito incompleta e imperfeita, da vida política portuguesa dos últimos dez anos.




É bom ver por cá o ilustre Ega com a sua narrativa messiânico-apocalíptica. Daqui a muitos anos um cronista minhoto escreverá no seu eremitério de Viana do Castelo : “Já o velho Doutor Ega, meu pai, fez em 2021, no mítico Delito de Opinião, a primeira síntese ante-rem da vida política do país, provando assim que os prognósticos, contrariamente à voz corrente, também se pré-fazem.”
Desculpe os disparates, é do calor. Um abraço.
Se a Ivone sente que tem de pedir desculpas pelos “disparates”, então que direi eu depois de tudo o que escrevi aqui? Deito-me pelo chão e arrasto-me até S. Bento pedindo perdão pelas meus disparates?
Um abraço e obrigado pelo comentário (sempre fico mais descansado ao saber que, além do Pedro Correia, houve mais alguém que leu o artigo)
Meu caro: parabéns pelo texto, tão original. ‘Ridendo castigat mores’.
Abraço.
Caríssimo,
A máxima de Gil Vicente (segundo creio) não podia ajustar.se melhor a esta coisa que escrevi.
Nesta época eleitoral, em que a seriedade ocupa todas as mentes deste país, pensei em escrever uma coisa mais descontraída, um pouco disparatada também, e francamente exagerada, para aliviar as mentes mais sérias.
Foi um prazer comparticipar no delito.
Um abraço
Muito bem escrito e observado! Parabéns pela análise meio a brincar mas deixando de certo modo antever o que nos pode acontecer se não arrepiarmos caminho!