Convidado: ALEXANDRE BORGES


Pedro Correia,

 

o atEstado

 

Foi a nossa fraqueza que nos trouxe aqui.

Já lá vão quase 200 anos da última vez que o sangue correu abundante de Vilar Formoso para cá. E mesmo essa revolução deu no que deu. No desapontamento geral, no fim do romance. Em Alexandre Herculano, o escritor-soldado consciência da Nação (não sei se o acordo obriga a escrever com minúscula. Aguardo notificação para pagamento de multa), a retirar-se para o campo e produzir azeite. Em Garrett feliz com o título nobiliárquico, a morrer pensando na decoração da casa.

A Monarquia de 767 anos caiu em 36 horas, de podre, quase sem vítimas a contabilizar além das árvores da Avenida. A República passou educamente o poder a quem lho pediu. Nem a ditadura ofereceu grande luta, depois de lhe facultarem um bilhete para o Brasil.

Essa mesma fraqueza explica o amor que temos a quem fala alto, quem parece ter força para – note-se a terminologia – “pegar nisto”. “Isto” somos nós e não deveríamos gostar que alguém nos “pegasse”. Mas gostamos. Gostamos da dureza de Cavaco, da de Cunhal, da de Sócrates. Não importa a ideologia, nem importam grandemente as acções. Entregamo-nos nos braços do primeiro que parecer saber para onde vai.

Somos órfãos de nós mesmos. Não procuramos líderes políticos; ansiamos por um pai. A admiração que temos por quem fala alto é a confissão embaraçosa da nossa menoridade enquanto sociedade; o apreço pelas maiorias absolutas a revelação da nossa falta de talento para a democracia.

Somos agressivos quando protegidos pela carroçaria do carro ou pelo anonimato da net. Vilipendiamos em mau português até o visado nos olhar nos olhos.

Não precisamos de um governo. Precisamos de tomates.

 

Alexandre Borges

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