Convidada: VÂNIA CUSTÓDIO


Pedro Correia,

 

Todas as promessas perdidas

 

Naquele momento em que tudo se apaga, naquele último sopro de vida que se esvai no peito, o sonho sobrepõe-se à angústia e ao medo que leva ao desespero de desistir? O que leva um adolescente, com tanto para viver, a baixar os braços? Durante muito tempo, não se falava de suicídio na imprensa. Havia um código de ética e deontologia que se arrepiava e acreditava no efeito perverso do comportamento de imitação que podia advir deste tipo de notícias. Hoje o suicídio dos jovens é o tema mais quente do momento, seja pela jogo Baleia Azul ou pela série Por 13 razões, a passar na Netflix.

De repente, somos obrigados a encarar a realidade que foi escondida durante tanto tempo. Alguns não aguentam. E não aguentam o quê? Todos sabemos o quê. Todos passámos por lá. A transição da infância para a idade adulta é um caminho complicado, difícil e angustiante. Não é por acaso que se ouvem notícias de mil estudantes “expulsos” de Espanha das férias de Páscoa. E não, não estamos a misturar temas. A aceitação do grupo é o busílis de tudo. Numa altura em que ainda não sabemos quem somos, sem personalidade verdadeiramente definida, o medo tolda as decisões e pode de facto ser mau conselheiro. Se para sentirmos que há mais quem seja como nós, temos de nos anular em comportamentos de grupo, por que não deixarmo-nos ir? É tão mais fácil quando a nossa própria convicção ainda não encontrou uma linha de pensamento e acção que a mantém segura. Mais ainda quando toda esta angústia se afoga num estado depressivo de quem ainda há tão pouco tempo só conhecia dias felizes.

É tão difícil crescer. O que sente um adolescente que desiste? Quem de nós, por uns minutos que fosse, não chegou a desistir? E o que acontece quando não conseguimos encontrar o tal grupo que consegue levar-nos ao colo, mesmo que à boleia de muitas parvoíces, gargalhadas e algumas experiências limite? O chamado ciclo do animal-noivo, o processo de passagem à vida adulta existe e não pode continuar a ser ignorado. Pais, médicos, familiares e amigos, todos temos um papel importante a desempenhar. E o mais importante de todos talvez seja mesmo o de reconhecer que este é um caminho que tem de ser percorrido. A sós, mas não necessariamente sozinhos.

Quantas vidas e sonhos de libertação desse peso e angústia que a adolescência carrega não teriam sido salvos com apenas uma palavra amiga? Alguém que explicasse o processo e fizesse ver a luz ao fundo do túnel. Estaremos assim tão alheados que já não nos lembramos de como foi?

 

 

Vânia Custódio

(blogue CAIXA DOS SEGREDOS)

0 comentários em “Convidada: VÂNIA CUSTÓDIO”

  1. Havia um código […] que […] acreditava no efeito perverso do comportamento de imitação

    Ainda hoje há quem acredite num tal comportamento de imitação em relação a crianças/jovens que vivem com homossexuais. Há quem acredite que a criança/jovem, se viver com homossexuais, tem alta probabilidade de vir a ser homossexual também.

  2. O que leva um adolescente, com tanto para viver, a baixar os braços?

    Deve haver qualquer coisa de errado no ser humano, que faz com que, precisamente na idade em que ele tem maior energia física e mental, em que está no topo das suas capacidades físicas e mentais, mais se perca a fazer asneiras e a colocar em risco a sua vida e bem-estar.

    1. Na minha opinião, essa atracção e fascínio pelos limites e pela morte é que define a passagem da infância para a vida adulta. Há uma conceptualização do que é estar vivo que leva a esses comportamentos muitas vezes não entendidos por quem já encontrou a sua forma de aceitar este enigma do que somos, quem somos e para onde vamos.

  3. Sobre a adolescência, pergunto-me se ela de facto existe? As mesmas características que se lhe encontram, encontramo-las, também, na fase adulta da vida e hoje ainda mais, nesta sociedade moderna que glorifica a irresponsabilidade/ausência de compromissos. Que glorifica a ignorância da “adolescência”.

    Será que a adolescência existe, num aspecto psico-sociológico típico, ou não passa ela, na sua maior parte, de uma construção sociológica por parte dos estudiosos/adultos, em que se perdoa todos os excessos da idade jovem por ser “normal”, perpetuando-se assim algo, que no seu essencial, é uma construção ideal?

    “Não partilho desta visão, pois acho que existem tantas adolescências como adolescentes “

    Mário Cordeiro, pediatra

    1. Tem muita razão. Conheço bastantes mulheres já adultas que continuam a ter comportamentos de hesitação, de não saber o que querem, de cataventos, que as tornam muito semelhantes a adolescentes.

    2. Acredito que a adolescência não só existe como é crucial para definir que somos em adultos. A diferença entre os dramas da adolescência e os da vida adulta em que nos primeiros ainda não temos limites porque não escolhemos um caminho: andamos a testar alternativas até descobrir quem somos. É muito mais dramático e perigoso.

  4. O acompanhamento é essencial. As crianças e os jovens precisam de sentir a presença dos pais (ou de quem se encarrega da sua educação). E a presença dos pais não se limita aos bens materiais que podem proporcionar. Se bastasse vestir e alimentar os rebentos, todos eles podiam ser criados em lares e orfanatos. É preciso estar ao lado deles, ouvi-los e estabelecer regras, sem censurar demasiado, nem humilhar. Prejudicial é também proporcionar tudo o que o dinheiro pode comprar sem empatia e compreensão. Quem não encontra acompanhamento e apoio em casa, vai buscá-los a outro lado. Quem se sente esquecido e abandonado, procura experiências radicais, a fim de se sentir vivo. E a experiência mais radical é o suicídio. O suicídio é sempre um grito de: “eu estou aqui! Eu existo! Porque não me veem?”. É sempre um pedido de ajuda, um ato de desespero contra a sensação da inutilidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *