Convidada: SOFIA BRAGANÇA BUCHHOLZ


Pedro Correia,

 

O grito

 

No início, quase parecia uma pergunta filosófica: interroguei-me de onde vinha, quem o dava, por que razão. Era um grito intenso, assustador, forte, sofrido. Durava uns segundos, o que fazia com que o alarme inicial que me provocava nem sequer tivesse tempo de ser investigado ou socorrido, pois logo se instalava, de novo, a calma. Mas naquela fracção de tempo a casa tremia, as paredes tornavam-se de papel, trespassadas por aquele som angustiante, o meu coração acelerava de pânico e os meus cinco sentidos disparavam em alerta: Que raio era aquilo?!
Depois, com o tempo, fui-me habituando. A experiência dizia-me que nada de mal dali advinha, que aquele horror era passageiro e inconsequente, que daria lugar novamente à calma e à ordem. Apercebi-me, contudo, que não era a horas certas. Umas vezes à tarde, outras de madrugada, outras aos fins-de-semana de manhã, era aleatória a sua exclamação. Previsível era a rotina que se lhe seguia e em que comecei a reparar: um descer de escadas, um bater da porta da entrada, um ligar de carro na rua.
Um dia, a curiosidade foi mais forte do que eu e segui-o. Depois de o ouvir, colei o olho à mira da porta, espiando as escadas do prédio. Vi-o descer descontraído, assobiando, aliviado. Vi um homem alto, entroncado, ligeiramente calvo, mas de viris braços peludos, aquele mesmo que um dia, à entrada de casa, vira roubar um beijo à cinquentona inquilina de cima e percebi finalmente o porquê de todo aquele clamar: aquele grito de dor, de aflição, de tormento, mais não era do que o orgasmo histriónico do histriónico namorado da vizinha.

 

Sofia Bragança Buchholz 

26 comentários em “Convidada: SOFIA BRAGANÇA BUCHHOLZ”

  1. À atenção de Sexa, o Ministro das Finanças: lançar um imposto sobre decibéis em excesso para diminuir o buraco das contas públicas.

    (viva, Sofia, gosto de a ver por cá)

      1. Parece-vos mal, anónimos. Mas dou de barato que vos tenha escapado a variedade de opiniões no Delito, presumindo que vêm cá pouco. Tudo para não considerar-vos intelectualóides distraídos. Ou burros.

  2. Peço desculpa à autora pela curiosidade. Então e a vizinha cinquentona ( que maldade) não se manifesta? nem um ai ou mesmo um uuiii?

  3. Oh, Sofia, mas não é já só isso o que nos resta de bom, sem pagar impostos? Admito que não seja muito agradável para os vizinhos, mas ainda bem que ainda há quem se vingue assim da crise.
    🙂
    Bem-vinda ao Delito, com esta denúncia gritante!

  4. “A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha”.

    A Sofia tem a certeza que o homem calvo, de braços viris e peludos, alto e entroncado não é um estimável seguidor de provérbios e um indefectível admirador de galináceos? De resto, pelo que li… só ele é que grita… e a vizinha, coitada? Hummmm …. cheira-me a provérbio :))))
    Sofia, estou a brincar, não a conheço, mas diverti-me com o grito. :))

  5. Para além de concordar com os comentários das pessoas que assinam anónimo, ainda acrescento isto ao do primeiro ilustre e inteligente incógnito: seis sentidos (pelo menos)! «Contos» destes nem merecem ser dados a ler, de tão primário. Parece um iogurte líquido. Cara Sofia, não escreva; é um conselho vindo de mim.

  6. Estimada Sofia
    Este pequeno conto é de fazer inveja à Margarida Rebelo Pinto.
    Já agora permita perguntar -lhe: o Simão e o Martim também partilham essas sonoridades?
    Se sim, e atendendo que se trata de duas crianças prodígio, podemos imaginar os seus comentários pertinentes e sagazes.

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