Convidada: SARAH ADAMAPOULOS


Pedro Correia,

 

A minha avó portuguesa

 

Aos 80 e tal anos a minha avó portuguesa ainda era a Menina Conceição. Quando em criança entrava com ela nas mercearias dos bairros que ela conhecia bem (onde tinha por exemplo morado) diziam

–  Seja bem aparecida Menina Conceição!

Eu achava aquilo estranhíssimo, tratarem a minha avó por menina, ela já com sessenta, setenta anos. Nunca perguntei porquê e nunca ninguém me explicou. A dado passo, entendi ser esse o procedimento normal tratando-se de uma mulher da criação dos merceeiros e suas mulheres e parentes que não havia casado. Ser da criação era ser dos mesmos tempo e lugar, das mesmas pessoas e primeiras descobertas, dos mesmos caminhos de cabras, da mesma miséria.

 

E contudo, a minha avó tinha tido um marido: o meu avô. Um marido que lhe lhe tinha feito a vida quase toda negra, dois filhos para ela criar, vários outros para desmanchar, obrigando-a a remover as suas miudezas de mulher (nem tanto assim miúdas) aos trinta anos, de barriga aberta, dizia ela orgulhosa de ter sobrevivido às provações e amputações. Demasiadas desilusões para uma só menina. Por outro lado, o facto de não ter o meu avô feito dela a sua esposa (essa palavra) inviabilizava o estatuto que teria possibilitado à minha avó ser tratada como a Dona Conceição pela gente da sua criação.

 

Custava a entender que a minha avó, uma senhora ainda assim, fosse, já velhota, uma menina – como por exemplo eu, que era a neta dela. Custou-me, também, já adulta, entender que tivesse sido assim estigmatizada, remetida a uma espécie de infância estatutária eterna, por causa de um papel que não assinara. Que ser tratada por menina, ainda que lhe derretesse a carapaça, porque a enternecia e aproximava sentimentalmente dos da sua criação, não era algo de que se pudesse orgulhar. Era como uma marca na pele – o carimbo da desonra nunca consertada, a culpa que não se desculpava. Custava-me sobretudo a entender que se desculpasse tão absolutamente o meu avô, obrigando a minha avó a carregar sozinha a enorme saca das culpas a vida inteira.

 

A única vantagem de ser assim nomeada era poder lançar a dúvida no espírito dos desconhecidos, nos que não eram da mesma criação, e nada sabiam da vida da minha avó. Para alguns desses, a Menina Conceição era apenas uma mulher que não casara e que talvez até se mantivesse virgem. Alguém que passara pela vida sem conhecer os mistérios da volúpia, alguém preservado, mantido na ignorância do que talvez nem importasse tanto assim, porcarias que se faziam com a boca do corpo das mulheres e que traziam ao mundo mais bocas para alimentar – pensavam eles, esses que nada sabiam da vida da minha avó, embora tivessem decerto razão no que tocava a uma certa virgindade da minha avó, que já no fim da vida, espantada com um país tão diferente daquele onde crescera e educara os seus filhos, achava muito estranha a crescente importância acordada às coisas do desejo, de que apenas conhecia a fealdade, de observar o meu avô a ser um homem muito homem dos antigos.

 

Sarah Adamopoulos

5 comentários em “Convidada: SARAH ADAMAPOULOS”

  1. Bem-vinda, Sarah. Excelente texto, que levanta muitas questões daquelas que dão longas e proveitosas discussões. Mas, se a consola, a minha avó casou “de papel passado” e também foi tratada por menina até morrer na terra onde vivia. Coisas de ternura também, nem sempre estigma. Mas a verdade é que o casamento formal não a impediu, note-se, de passar por muitas dessas provações… o meu avô morreu com 45 anos e deixou-a com 6 filhos para criar sozinha, e com muito pouco dinheiro. Valeu-lhe ser uma “menina de armas”!

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