Convidada: RITA FERRO


Pedro Correia,

 

A imunda fidelidade

 

Começa por aceitar que esta que te escreve é um ser tão infrene e indómito que chega a ser respeitável na defesa histérica das suas contradições – pode ser? É um exercício que te peço: acreditar por um momento – dois minutos, porra – que a vida não é como deveria ser, mas como é, e que o homem não é o que se espera dele, mas o que pode apenas.

Partindo disto, tenho algo incómodo a partilhar contigo que me anda atravessado na garganta como uma espinha de truta, tão difícil de retirar da laringe como um cabelo humano. E sai bomba: tanto me metem nojo os parceiros fiéis como os infiéis – e sim, estou a referir-me à fidelidade carnal ou ao respeito que todo o compromisso amoroso sério merece aos lógicos, aos sensatos e aos literais.

 

(Não liguem à expressão «meter nojo», não? Sei que é excessiva, mas define-me. Ultimamente, tudo em mim é extremado e cada vez mais desconheço o meio-termo: as pessoas são estimáveis ou vermes, quem ama tem de estar preparado para matar ou morrer, e alguém que faz batota a discutir, por exemplo, é tão bandido como o que rouba esmolas na igreja ou desvia balúrdios – talvez me passe quando eu própria descobrir as minhas baixezas.)

 

Tentarei então explicar, com a moral bem arredada do assunto, como convém, para não mascarar, pouco que seja, o que sinto a este respeito: ao infiel, falta a consciência de que pode matar, e da forma mais bárbara; ao fiel, falta a noção – tão básica – de que uma infidelidade pode tornar o companheiro mais feliz, desde que a mentira o proteja. Para todos os efeitos, ambos os perfis são abjectos.

E é certo: não saberia responder à pergunta «Que propões então, minha palerma, já que entre uma coisa e outra nada existe?» Reconheço: não saberia responder-te, mas isso não significa que me arrede um decímetro que seja de argumentos tão inaceitáveis como verdadeiros: alguém que consegue resistir à tentação da novidade não me oferece garantias de sensualidade, da mesma forma que o que lhe cede sem medir as consequências tem o seu quê de totó.

 

Posto isto, passo ao móbil deste posting: uma das frases finais da letra da canção «Famous Blue Raincoat», do terceiro disco de Leonard Cohen, «Songs of Love and Hate»:

 

Yes, and thanks for the trouble you took from her eyes

I thought it was there for good, so I never tried

 

Não sei se recordam o tema: o legítimo agradece ao amante da mulher ter retirado ao olhar dela a sombra de inquietação que ele não foi capaz de debelar, por achar que estaria ali para sempre; mas tinha solução, pelos vistos, e só traído o descobre.

E pronto, no fundo é isto: da mesma forma que há mentiras morais e verdades imorais, há fidelidades cobardes e inglórias e infidelidades como esta: arriscadas, mas redentoras pela forma como são lidas pela vítima:

 

 

 

Rita Ferro

121 comentários em “Convidada: RITA FERRO”

    1. Ainda bem que acha, Sérgio. Falo a sério. Há pessoas que acham outras coisas e isso enerva-me muito. Pela hospitalidade na estreia fica já aqui um abraço reconhecido e a curiosidade compulsiva pela sua prosa. (Vêem como também sou venal? Ah, pois é… O charme corrompe.)

    1. Adoro este modelo ecossistémico, Ascot não perdoa 🙂

      Obrigada, Ariel.

      (Estava à espera de ser sovada, mas vejo
      que esta gente aqui do Delito é muito à frente. Bem que a Ana me dizia…)

  1. Parabéns à Rita Ferro. O texto com que nos brindou tem muito que se lhe diga. E não serei eu a ter o atrevimento de o dizer, mas destaco não ser coisa de meias-tintas.

        1. «Is it fixed or does it change? Does it stay the same distance, or does it zoom in and zoom out, like a camera lens?» Who is telling the story? Me or you?

          1. Há luz entre as trevas: o tom do tipo camisa-rasgada-para-sair-a-alma que sobrevoa este post é um farol na noite.
            Porém, ainda assim, prefiro sublinhar a disponibilidade para o diálogo entre autores e comentadores que cultivamos nesta casa. Bem-vinda, Rita.

          2. Queria dizer «João», desculpe! É da hora… Boa Noite a todos, obrigada!

  2. Dando de barato que a “forma” do texto é irrepreensível (em todo o esplendor da palavra), poupo a autora aos legítimos elogios e lanço-me às canelas do “conteúdo”.
    A fidelidade (no sentido carnal / afectivo) não é, entendo eu, uma virtude em si mesmo. Se não houver Amor, pode ser apenas uma renúncia estéril e desprovida de sentido, usada como uma espécie de exibicionismo para os outros ou para descanso de uma consciência desvirtuada. Nem toda a fidelidade é, por isso, “boa”.
    No extremo oposto, entendo que nenhuma infidelidade é “boa”, porque é uma traição e um desrespeito a terceiros. Não lhe vejo, por isso, redenção nem virtude e enquadro-a no conjunto das falhas a que todos, por sermos humanos, estamos sujeitos. Espera-se que a olhemos com compaixão, não com moralismos.
    Acontece que nalguns casamentos / relações uma infidelidade episódica (e excluo as continuadas do meu raciocínio) pode resolver um problema existente – a tal sombra de inquietação. Todos nós conhecemos pessoas que mudaram radicalmente com algo que se tenha passado nas suas vidas: uma doença grave, uma falência injusta, a morte de alguém próximo. Significa isto que a “desgraça” foi boa? Não. Significa, apenas, que quem foi personagem soube encontrar um sentido para o drama.
    Concluo, que escrevi mais do que devia.
    A fidelidade pode ser uma virtude. A infidelidade pode ser uma solução.
    Faites vos jeux…

    1. Querido JdB : verifica se o teu «pode ser» me dá razão.

      Ambas, fidelidade e infidelidade, são princípios ou normas de averiguação moral difícil, pelo que a interrogação se mantém nos dois casos: pode ser que sim, pode ser que não.

      E mesmo em relação ao amor, J., sabes o que penso: as imitações são hoje tão boas, e a exigência tão pouca, que ninguém dá pela diferença.

      Olha lá o que MEC quis dizer no livro cujo título acharias pouco elegante citar: difícil, também, verificar-lhe a pureza.

      Pergunto: o teu amor foi sempre puro, ou seja, sem sombra de cálculo ou contaminação de interesses, ainda que estéticos ou burgueses? Não foi, impossível, não acredito.

      Ora bem: se podes viver uma vida inteira com a tua mulher, sem essa prova-dos-nove amorosa, também te podem ser fiéis ou infiéis sem jamais vires a saber até que ponto isso foi nocivo ou salvífico para qualquer dos parceiros.

      O que «me mete nojo», sempre, nesta matéria, são as batotas que todos fazemos à conta da virtude ou da vitimização – humanas, porém.

      (Obrigada por teres vindo aqui, meu querido Amigo)

      1. Gostava de responder à tua resposta com duas ressalvas que me parecem fundamentais: não faço juízos de valor sobre ninguém; o que aqui defendo reflecte aquilo em que acredito, não é uma demonstração da minha moral ou comportamentos superiores.

        A não ser, talvez, uma claríssima minoria, nenhum amor (e incluo o meu, obviamente) é / foi permanentemente puro, sem a sombra desses cálculos ou contaminação de interesses de que falas.

        Nenhum amor (e incluo o meu, obviamente) está livre dessa infidelidade não carnal, que pode ser mais corrosiva do que a outra. Acontece que, até um certo limite, não há maus pensamentos – o que há é más acções. E, em quase todas as circunstâncias, cabe ao Homem poder dizer que por aí não vai. Quando não o fazemos, e enveredamos pela infidelidade (a que controlamos), penso que temos, quase sempre, o sentimento do erro, mais do que do valor redentor ou salvífico.

        Acredito ainda que, se houver o tal Amor, a virtude não é uma batota. É genuína e, em nome da consciência – é com essa que nos deitamos todos os dias – é recompensadora. Não é fácil, mas é recompensadora. Mesmo para aqueles que dizem o contrário.

        1. «Não há maus pensamentos, mas más acções», dizes tu? Que significa isso? Sabes que nunca percebi e que já uma vez um padre me veio com essa? Podia dizer-te agora, catequizada: há, sim, maus pensamentos, o que ninguém te pode é responsabilizar pelo teor dos mesmos sem conhecer a história da tua vida. Agora tu, sim, podes, se escolhes o bem ou o mal, se segues as trevas ou a luz, se apascentas Deus ou Lúcifer. Mas até com isso não me conformo, sabes? Posso vir a dar o braço a torcer um dia – e sei que o que vou dizer não despertará popularidade – mas acredito realmente que estou aqui NÃO para ser feliz, mas para compreender, numa lógica de aprimoramento pessoal errática, sim, mas fervorosa. Desse prisma, todo o pecado será então conhecimento e todo o conhecimento poderá trazer-nos enfim recompensa. Mas não traz, e sabemo-lo: os escritores matam-se como tordos, os génios comem literalmente crianças para se aguentarem em prova. Todavia, os que escapam à travessia do Inferno interessam-me pouco, porque a maioria é tolhida não pelo amor ao outro, como inferes, mas pela promessa do céu ou a ameaça de Inferno – lá em cima ou aqui, irrelevante, nunca saímos do coro. Escapar à vida para merecer o quadro de honra sempre me pareceu desprezível. E o que é o mal, vamos? O mal é tão simplesmente NÃO magoar, pelo que todo o esforço deve ser investido no sentido de o evitar. E é possível, J., é possível. O inferno SERÁ então ferir, pois, fora das gramáticas, é verbo reflexo, e o céu SERÁ então não ferir, porque custa mais e requer maior conhecimento. Em que ficamos? – perguntas tu e com razão. No ponto de partida: «Não interessa Ítaca, mas o caminho até Ítaca», dizia o Kavafis. (Desculpa o caos, mas dormi uma hoje um par de horas)

    2. Curiosamente este comentário de JdB : “a fidelidade pode ser uma virtude. A infidelidade pode ser uma solução” resume, do meu ponto de vista, a questão. E muito bem.
      A escolha depende sempre de cada um e das suas circunstâncias. Porquê tentar catalogá-las?

      1. Pois pode, Helena, e, como o verbo indica, trata-se sempre de possibilidades, de interrogações. Quanto à catalogação ninguém lhe escapa: é-se fiel ou infiel, independentemente das atenuantes, certo?

        Bom ver-te aqui.

        1. Sendo opção porquê falar de atenuantes, minha querida? Se eu optar por ser infiel, não procuro atenuantes. É uma escolha.
          Quando muito, os outros é que podem achar que “há atenuantes”…

          1. Queria eu dizer, doce mafarrica, que, mesmo que se engane por sobrevivência – por absurdo – o veredicto nunca se compadece das atenuantes. E a catalogação vem sempre dos outros, claro…

  3. Por que será tão importante a fidelidade e a ilusão da exclusividade? Concordo quase absolutamente contigo, apenas me distancio no tudo ou nada. Hesito. Por vezes o cinzento é tão desafiador como aquele vermelho paixão. Aqui a cor do sentimento pouco conta, são as nossas necessidades contraditórias que nos impelem a receber ou a negar o convite…

    Beijos da Fernanda

    1. Relativamente à tua pergunta inicial e para fugir aos chavões da «posse» e da «invasão de território», demasiado «psi» para o meu gosto, arriscaria:

      – Nos homens, embora não interiorizada, a sempiterna incerteza de paternidade – e daí a explosão primitiva, no flagrante ou na suspeita.

      – Nas mulheres, a perda, agravada com o desamparo imorredouro na criação da prole.

      Beijos para ti, leoa!

  4. Rita…não sei o que te diga. Sou fiel por natureza talvez não tenha jeito para infidelidades. Tenho pena e acho que a infidelidade física/carnal não se compara á infidelidade afectiva. Podes ser fiel ao teu marido, mas gostares de outro qualquer. Podes fingir que estás bem, ninguém te toca ou beija, mas o teu coração está noutro lado. Esta infidelidade é muito pior. Porque o corpo a “gente” lava e desinfecta, esquece as carícias e satisfaz-se com outras, o afecto não, esse pode ser para a vida. Não sei que te diga…apenas que tenho pena de ser intrinsecamente fiel. Nunca ganhei nada com isso!

    1. Querida Ana, desculpa a provocação, mas que significa ser «intrinsecamente fiel», já apuraste? Aguardo a tua resposta em alvoroço…

      1. Simples minha querida, sou porque sou. Nada me obriga, não há imposição social, moral ou outra. Sou assim prontus “… é como aquela máxima do alentejano que sem pretensões diz – gosto de ti porra !
        Achas desconcertante? querias esforço, mérito, luta interna sofrimento. Nada disso! Acha que me que me sinto melhor que os que são infiéis ou igual aos que que são e serão sempre fiéis? Não, é tão natural como a minha sede, por isso é tão desinteressante.
        Continuo a ter pena porque a infidelidade dá mais gozo, dá mais luta, impõe-se entre dois seres, pode ser reparadora, desafiadora, destruidora e até aceite, perdoada…aprende-se a viver com ela ou mexe connosco, com a nossa vida. A fidelidade não tem história para contar, não é valorizada, não é reconhecida é apenas o que é.

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        Simples minha querida, sou porque sou. Nada me obriga, não há imposição social, moral ou outra. Sou assim prontus "… é como aquela máxima do alentejano que sem pretensões diz – gosto de ti porra !
        Achas desconcertante? querias esforço, mérito, luta interna sofrimento. Nada disso! Acha que me que me sinto melhor que os que são infiéis ou igual aos que que são e serão sempre fiéis? Não, é tão natural como a minha sede, por isso é tão desinteressante.
        Continuo a ter pena porque a infidelidade dá mais gozo, dá mais luta, impõe-se entre dois seres, pode ser reparadora, desafiadora, destruidora e até aceite, perdoada…aprende-se a viver com ela ou mexe connosco, com a nossa vida. A fidelidade não tem história para contar, não é valorizada, não é reconhecida é apenas o que é. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Bjos</A>
        1. Ah, então a tua fidelidade é da boa, fico mais descansada, embora me reserve o direito de suspeitar de tanta facilidade nesse teu «sou porque sou», tipo Gabriela Cravo e Canela, «eu nasci assim, eu fui sempre assim» – ri-te!

          (Aproveito para dizer aos que porventura me julguem desavergonhada ou libertina, que nunca fui infiel aos pais dos meus filhos, com quem assumi os chamados compromissos sagrados, e que nunca deixei casas a reboque de acenos, promessas ou amparos externos. Porém, não tenho a certeza se toda essa elegância obedeceu a moral, ética, prevenção, instinto ou terror. Como já disse em cima – ou em baixo? ou no meu blogue? indiferente, sigamos – não sou contra nem a favor, apenas desconfiada da pureza de ambas as condutas. Dizem-me «é fiel, aquela/» e eu penso primeiro «tão bonito» e a seguir debruço-me sobre a situação em causa. O que descubro nem sempre é edificante e então digno nem se fala.)

  5. “As pesoas ou são estimáveis ou vermes” … Rita… por mim, prefiro os vermes…têm os pés mais assentes na terra… À parte da piada seca felicito-a pelo brilhantismo… das palavras e da frontalidade…

    1. Há lugar para todos, só lhe sei dizer isso. Vermes, borboletas, primatas – imagine-os estadios humanos, pois tranquiliza. Toda a espécie eliminada conduz à catástrofe ecológica, mesmo à escala das formigas. Os homens uns dos outros degraus são, já dizia o meu pai 🙂

      Um abraço, Luís!

  6. “ao fiel, falta a noção – tão básica – de que uma infidelidade pode tornar o companheiro mais feliz, desde que a mentira o proteja.”

    Tenho alguma dificuldade em perceber como a mentira pode fazer alguém feliz. Admito que a infidelidade pode ser útil como meio de afastar fantasmas, de readquirir certezas. Mas não com mentiras pelo meio (aliás, acaba o seu – excelente – post com uma referência à indispensável leitura – e aceitação – da vítima), e não sem consequências: a sensação de que se está a perder algo, de que se tem de experimentar sempre mais, de que isso é que é viver, gera quase sempre um efeito de insaciabilidade que, neste como noutros campos (veja-se a nossa tendência consumista), leva a tudo menos a qualquer sensação de plenitude.

    1. Querido João – posso tratá-lo assim? Num país opresso como o nosso, até este tipo de liberdade é passível de ser mal visto, já viu? Vou dizer-lhe uma coisa e peço-lhe que não me leve a mal: a maior protecção que o ser humano – a saque de todas as invasões – ainda tem, é justamente a mentira. Está visto que tenho que ser eu a escrever o seu elogio! Já viu o que seria se todos começassem, de um dia para o outro, a dizer verdades aos outros? Não queira saber. Observar-se-ia o maior genocídio da História e sobre isto não tenho uma dúvida. O homem só sobrevive porque ainda nenhum se lembrou de inventar um artefacto que nos leia os pensamentos. A mentira é a nossa maior protecção, acredite. A verdade é outra coisa: é plasticamente deslumbrante.

        1. Há desde logo uma diferença entre mentir* e omitir, que é o que costumamos fazer para não dizermos a verdade (no emprego, por exemplo). Mas, numa relação amorosa, não vejo grande razão sequer para omitir. O quê? Que se acham outras pessoas atraentes? Alguém o estranha? Caramba, eu até o Federer acho atraente, quanto mais algumas mulheres! Que por vezes se têm fantasias com elas? Mas de vez em quando eu ainda fantasio que sou astronauta ou campeão do mundo de Fórmula 1! O ser humano quer sempre tudo mas “lógicos” e “sensatos”, esses seres desprezíveis, sabem que nunca o obterão. E que nem é propriamente desejável consegui-lo. Dar azo a todos os impulsos é – não queria escrever “regredir” mas serve – ao ponto da não-consciência. Um cão não tem pruridos destes. E qual a diferença, a nível puramente de controlo de impulsos, entre ter relações com todas as pessoas que nos atraem (e estiverem para aí viradas…) e agredir todas as pessoas de quem não gostamos? Sinto mais vezes vontade de fazer a segunda do que a primeira. Não o faço porque não gostaria do ser em que me transformaria se o fizesse. Idem em relação à infidelidade, ou a imensos outros assuntos. Concebo perfeitamente a infidelidade, desde que ambos a aceitem (e então o termo “infidelidade” nem sequer tem muita lógica). Mas não encaro a cedência a impulsos passageiros ou a busca incessante da “novidade” como objectivos a defender. Por muito reduzidas “garantias de sensualidade” com que isso me deixe.

          E pode chamar-me João à vontade. Já me chamaram coisas muito piores.

          * E também é diferente mentir em aspectos acessórios («Sim, esse vestido fica-te bem») ou em pontos que podem questionar toda a relação. Mesmo que eu – juro – não dissesse que o vestido ficava bem.

          1. Parabéns, Jaa. Nos tempos que correm é preciso coragem para assumir um discurso assim tão contra a corrente 🙂

          2. JAA, fazer-me rir a esta hora não é fácil, parabéns. É nessa alusão final aos ‘aspectos acessórios’ que sobrevive, esplendoroso, o eterno feminino 🙂

            Mas atenção: para entrar neste jogo há também que retirar do universo apreciável os camarinhas deste mundo, considerando apenas tentações episódicas e não compulsivas, por razões obscuras à primeira vista.

            Quanto aos cães, convença-se: somos antes de tudo animais, ou com essa valência latente, e quem não experimenta a vertigem da tentação deveria estar preocupado – ulcerou a frustração?

            Machos e fêmeas, convém lembrar – aos que já se urbanizaram fisicamente 🙂

  7. Rita: Agradeço-lhe ter aceite prontamente o nosso convite e o texto que aqui nos trouxe. A polémica é o sal dos blogues. Como se viu, como se vê.
    Este intercâmbio de ideias mostra bem como a blogosfera, se assim o quisermos, pode ser uma espécie de ‘casa comum’ em vez de uma trincheira onde só há lugar para quem pense exactamente de uma certa forma. Contra ou a favor.
    Detesto o espírito de gueto, implícito ou explícito em certos blogues. Aqui, no DELITO, sempre gostámos de confraternizar e trocar ideias. Até por isso, recebê-la a si foi um prazer. E um privilégio.

  8. Claro que concordo, e não também. Fui a vida inteira infiel, sem sequer me passar pela cabeça que me pagassem da mesma moeda. Um dia, porque achei que era o meu dever, devotei-me à fidelidade para ver como era. Consegui-o plenamente, sem ceder ás tentações, durante dez anos. Já sei como é, sou capaz, provei-o a mim mesmo, posso repetir, se me apetecer, mas não há verdadeiramente razão para isso. A propósito. é bem doloroso quando nos cai em cima todo o “karma” acumulado…Escalar o Everest também é uma prova, e há maduros que o fazem, porque sim. A fidelidade é sobrevalorizada, religiosamente conotada, nascida do medo do “afinal não era pecado?” da velha anedota. A fidelidade é uma farsa socialmente aceite e cultivada, por conveniências nunca mencionadas. A natural atracção entre seres humanos não tem de levar à perdição e ao descalabro, nem a banimentos. As hormonas, receptores cerebrais, químicos e as predisposições que regem a atracção são a subtil forma ancestral de socializar, os sentimentos que se seguem, se seguirem, justificam o comportamento, ou não. Como em tudo há gente boa, ingénua, franca e extrovertida, e, como não podia deixar de ser, gente má, manipuladora, interesseira e grosseira. Resistir a uma atracção é um acto de cobardia e uma escolha dolorosa.
    Ceder, da mesma maneira, pode ser extraordinário e revelador, mas sem cinismo, deve-se jogar com todos os trunfos com que a natureza nos dotou. Bj Rita

    1. Olha o Luís, que alegria! Sabes? Dei uma mirada aqui em cima e estiquei-me nalguns comentários, pelo que vou tentar abreviar: o problema mais grave da fidelidade não é a subtracção de vida, felicidade ou conhecimento, mas a repressão que causa. Eu sei, tu sabes, eles sabem: tudo o que é reprimido – o desejo, o impulso – conduz directamente à patologia, e nem sempre à explícita, menos perigosa. A fidelidade é linda, conceptualmente, mas despreza este colateral nefasto. Mais: quando não é honrada pelo parceiro pode transformar um ser moral num assassino. É fazer as contas. Não defendo a fidelidade nem o seu contrário, limito-me a investigá-las pois suspeito de ambas.

  9. Cá venho eu espreitar, comentando.
    Concordo, Rita. Cresce-se com a convenção de que a infidelidade não pode ser, é mau, é feio, não se faz. Mas viver uma vida inteira com trouble in the eyes, que alguém podia tirar e só não o fez porque achou que era mesmo assim, não havia nada a fazer, é bem mais triste. Mas isto ninguém nos vai dizer no princípio, só vamos sabendo com os Cohens da vida (bless’em).

    1. Ah, Marta, se as pessoas soubessem tanta coisa que não sabem, pois não vão a jogo e viveram pouco! Isso, chamem-me pedante. A Marta e eu cá sabemos…

  10. Cara Rita Ferro:
    A moral interessa muito mais a quem está de fora, a julgar, do que aos visados, que na hora da verdade, estão muito mais preocupados com o seu amor próprio. Portanto, para facilitar, punhamos a moral de parte. Fica em análise a atitude: perante a vida e perante o outro.
    Quem defende com entusiasmo o direito à traição detém-se, como é óbvio, no primeiro ponto: a atitude perante a vida, reduzindo o outro a uma conveniente abstracção. É fácil falar de traição sem complexos e até com alguma galhardia, quando se arruma assim a questão. Fica então espaço para enaltecer o inconformismo, a rebeldia, a coragem de viver intensamente ignorando as convenções. Avaliada nesta perspectiva a traição pode até ser motivo de orgulho, sobretudo se for bem feita, ou seja, se o actor tiver a sabedoria e a arte de manter o outro na ignorância. Aliás, sabe-se bem que este tipo de gabarolice faz parte do cardápio de muito bon vivant e que costuma render muita admiração.
    Só que na minha modesta opinião quem ama – e falo aqui de amor, não de relações fisico-quimicas – é incapaz de se abstrair do outro. A Rita considera cobardes e até desprezíveis os que não conseguem aproveitar as oportunidades da vida resistindo aos apelos do desejo. Já lhe ocorreu que não é necessariamente por falta de arrojo que fazem essa renúncia mas porque sentem que trair o outro é que é a maior das cobardias?
    Suponho que se me pusesse agora a discorrer sobre o respeito que se deve a quem se ama e etc correria o risco de lhe despertar um longo bocejo. Ao contrário do seu, não seria um discurso nada sexy, portanto fico-me por aqui.

      1. Cara Maria: quando me tratam por «cara» levo sempre a mão ao coldre, é um instinto 🙂 A gralha do «punhamos» é perfeitamente irrelevante, a associação é que é directa: vem de punho 🙂

        Não percebeu nada do que eu disse ou não quis perceber por preconceito, e compreendo-a: uma feminista que é contra o aborto, uma Direita que detesta Salazar e uma snobe que questiona a própria tribo, como eu, torna-se, de certa forma, inclassificável. E como dá trabalho destrinçar é mais rápido encaixar-me na sua grelha de bolso, é isso?

        Um lembrete: quem começou por arredar a moral da matéria para um olhar alternativo fui eu, mas isso não quer dizer que toda a minha conduta de vida não tenha procurado obedecer a um sentido moral, entendeu? (Olhamesta…)

        E acha então, a avaliar pela fulminante solidariedade para com o JAA – a quem reconheci isenção e amplitude -, que é o seu discurso, e não o meu, que é contra-corrente?

        Oiça, tudo o que diz são dados adquiridos, tratava-se de ir mais longe falando dos efeitos colaterais da repressão do desejo ou do impulso, por exemplo, ou do falso-heroísmo ou não-alternativa de certas fidelidades. Nunca viu? Nunca conheceu? Nunca viveu?

        E retira a moral para quê, afinao? Para me vir depois com os mesmos clichés moralistas?

        Aliás, desculpe lá: qual amor?

        Alguém é capaz de amar aqui, no sentido puro e pleno do exemplo cristão, o mais belo, desinteressado, e rasgado de todos?

        E qual respeito? Você respeitou-me na intenção deste post?

        E atreve-se a perguntar-me se já me ocorreu que não é «necessariamente por falta de arrojo que fazem essa renúncia mas porque sentem que trair o outro é que é a maior das cobardias», como se a descoberta fosse sua ou me fosse impossível chegar lá sem a sua ajuda?

        Fogo! Isto é a «Música no Coração», por uma pena!

        Olhe: não sabe jogar, não joga.

        Tenho de sair, volto à noite.

        Discurso «sexy»? Não me conformo.

        1. Numa coisa estamos de acordo: quem faz o elogio da infidelidade não está certamente a falar de amor. E pode crer que, por muito inconcebível que lhe pareça, ainda há quem seja capaz de amar. Não com essa pureza bíblica que invoca, mas com generosidade. A suficiente para inibir atitudes que ponham em causa a relação de confiança que se estabeleceu com o outro.

          1. E a Marta a dar-lhe! Procurei fazer um exercício retórico e NUNCA um «elogio da infidelidade», mas se insiste posso fazer: e a TRAIÇÃO a si mesma, é desprezável?

            E fala-me de generosidade sem atender aos biliões que, extinto o amor, permanecem ao lado dos pares por compaixão, hombridade ou compromisso, ainda que precisando de se oxigenarem de vez em quando para poderem continuar a mentir ainda com mais convicção, em nome da responsabilidade que assumiram?

            É um terreno ambíguo e inextricável, cheio de armadilhas, de leitura densa.

            Sabe como se chamam as pessoas que NÃO mentem nessas situações e desandam «por amor à verdade»?
            Patifes.

            E falando da VERDADE e da frase tão feminina «A única coisa que eu não tolero é a mentira», fartas de saber que o que realmente não CONSEGUIMOS SUPORTAR – chegando a negá-la – é a verdade?

            Desculpe se fui agressiva, não foi minha intenção, é apenas calor.

            Não a conheço e isso dificulta a discussão. É que, sabe, nestas coisas a vivência conta.

          2. Oh, Rita Ferro…!
            O que fazem os calores!
            Esteve mal no exercício retórico inicial e pior que mal nas respostas à Maria Sobral.
            V. tem tantas certezas onde melhor fora que tivesse dúvidas e tanta dúvida onde podia arriscar alguma certeza.
            Que pena…!

          3. Que banalidade, senhores…

            Nem um fundamento para amostra, para além da indigência do trocadilho?

          4. Olá, Rita.
            Estive fora o fds, por isso demorei a responder-lhe. Se alguém foi agressiva aqui fui eu, quando entrei nesta caixa de comentários pela primeira vez e peço que me desculpe por isso. Mas sabe, este tema vira-me do avesso, porque discussões como a que levantou aqui já eu tive ao vivo e a cores com piores resultados 🙂
            Mas basta ler atentamente o que escreveram aqui os vários comentadores para se perceber que nisto como em tantas coisas, há pelo menos duas formas de estar na vida que correspondem a duas naturezas distintas e, neste ponto, irreconciliáveis: os que são tendencialmente fiéis e os que o não são.
            Há pessoas que, como eu, procuram estabelecer laços perenes e perseguem como ideal as relações de dependência – sim, de dependência – que para serem saudáveis têm de ser recíprocas. Não me diga que não conhece casais inseparáveis. São poucos, mas existem. A sua cumplicidade comove-me e inspira-me. Há casos em que quando um deles morre, o outro não aguenta e morre pouco tempo depois.
            É a isto que eu chamo amor verdadeiro. É um “estado de necessidade” raro, mas insuperável. Perto destes casais qualquer pinga-amor me parece vulgar.
            É claro que o que mais existe são casais “estáveis” que se mantêm juntos porque sim. Mas sobre esses tenho a certeza que estamos de acordo.

          5. Quanto ao meu comentário sobre Jaa mantenho: é um discurso contra a corrente, ou se preferir, anacrónico. Não combina com os ideais de vida que se vendem agora nas capas das revistas de comportamento.

          6. O JAA é igual a mim, se quer saber, Maria – quis só que saíssemos de nós, para variar 🙂

          7. Querida Maria, bom dia, obrigada pela majestade. Eu é que sou marialva. Nunca me meto com ninguém, assim, personalizadamente, mas quando me sinto provocada salto para o meio da praça de punhos no ar – enfim: patético.

            Sim, conheço casais inseparáveis, mas também pelo ódio. E ainda ontem estive com um. Matam-se, insultam-se publicamente, aturam-se há trinta anos, bebem ambos, mas dizem individualmente no seu círculo de amigos «Aquele gajo é o homem da minha vida, o que é que queres?»

            (Tenho outra explicação para estes, mas adiante…)

            Quanto ao outro modelo, bem-vinda ao sonho! Tenho um tio que amou cinquenta anos a mulher, desvairadamente, que ainda se ajoelhava para lhe dizer «Amo-te, Maria Luísa», que lhe fazia versos a toda a hora e que mesmo depois dos oitenta ainda se testemunhava nele uma actividade sexual confrangedora, pelos sorrisos, pelos suspiros, pelo olhar de enjoativa (desculpe, saiu-me) felicidade da mulher, muito para além do lumbago e das cataratas.

            Morreu o ano passado, na cama de (essa, sim) uma pirata da Brandoa, para cujo branco foi desviando toda a vida os fundos da esposa.

            Agora veja: que sente uma legítima destas, ao descobrir no fim, e com exposição, o seu logro?

            Mas terminamos em sintonia, Maria: é também o meu sonho! Mas, tal como todas as extravagâncias, é difícil!

            Não está a ver aquele tipo de pessoa que diz «Eu só queria era uma casinha à beira-mar e um homem que me amasse muito, ‘prontos’», ou seja, como se essa sua aspiração não fosse a mais cara, exorbitante, exigente e inalcançável da vida?

            Mas pronto, estou consigo, irmano-me no seu sonho supremo: dependência e amparo até ao último sopro – ahhhhhhhhhhhhh!

            Mas olhe, também lhe confesso: é você a arranjar um exemplar desses e eu a desestabilizá-lo! Temos de ser umas para as outras, não podemos ser egoístas! Ria-se!)

            (Um beijo e obrigada pela lição de elegância, voltaremos a conversar…)

          8. Curvo-me perante a sua honestidade, Rita, que é algo que prezo muito. Quanto ao exemplar, se o arranjar, só o deixarei vir à rua de trela :)))

  11. Curioso é verificar que os que gostam de andar sempre em festa, por norma fogem a sete pés dos seus iguais. Preferem gozar a vida à custa desses tais seres desprezíveis que não sabem aproveitar as oportunidades. Porque toda a fidelidade é imunda, menos a que lhes é devida, claro.

    1. Ter uma relação extra-conjugal por necessidade espiritual, por exemplo, com sentimentos complexos de divisão, escrúpulo e clivagem, é «andar sempre em festa»?

      (Bolas, fala-se em infidelidade e ligam logo a malandros e a bandidos, a mulheres-piratas e predatórias!

      Perdoem, os que caem neste erro tremendo, mas… não leram os russos?)

      Quanto a si, Inocência: perca-a!

  12. Mas que lufada de ar fresco! Gosto de visitar um espaço e ficar com vontade de voltar. Isso é muito bom!
    Mas, ainda é melhor, quando confirmamos que continua válida a afirmação” felizes os que acreditam sem ver”.Tal é a convicção.

  13. Acredito que há coisas mais importantes do que a mera satisfação de pulsões sexuais e que resistir-lhes em nome de certos princípios é desafiante e motivo de orgulho para muito boa gente.
    Já desprezível pode muito bem ser quem trai alegremente e se vangloria com a façanha. Mas claro, tudo depende de quem se trai. Há pessoas que merecem ser traídas.

    1. Não me parece que as pulsões sexuais sejam «meras» nem que se possa trair alegremente, António. Ou falamos de primatas e imbecis?

      Contribuo com um inédito, para pasto dos meus detractores – LOL:

      «Todo o desejo parte da claustrofobia»

        1. Não se ria logo, António, ria-se agora: 40 portuguesas mortas este ano por terem olhado para o lado 🙂 Aqui, no Brasil, em Espanha – já para não falar dos países islâmicos – quem trai, se for mulher, arrisca a vida. E morre mesmo, de uma ou outra forma.

  14. A Rita fala de amor ou de sexo? É que se é de amor que fala, toda essa conversa sobre matar e morrer, desculpe mas não faz sentido nenhum. O amor salva-nos da selva, não nos atira para ela. A traição não é uma possibilidade quando há cumplicidade e comunhão de interesses. E sem cumplicidade e comunhão de interesses não há amor. Lunática? Sonhadora? Não. Falo apenas de algo que poucos sabem o que é. Infelizmente.

    1. De moi para Moi, imaginando-a mulher: o amor salvar-nos-ia de tudo, tem razão, se o soubéssemos! Mas acorde e olhe à sua volta, olhe para si, olhe para os seus filhos, maridos, ex-maridos, companheiros de empregadas, sobrinhos, irmãs, soldados, toureiros, políticos: NÃO SABEMOS AMAR, NÃO SABEMOS AMAR, NÃO SABEMOS AMAR, NÃO SABEMOS AMAR, NÃO SABEMOS AMAR, NÃO SABEMOS AMAR!

      E o pouco que conseguimos ou não é suficiente ou não é honrado, percebeu? Mas o quê? Viver a dois, para alguns de vós, é uma espécie de «amaste-ganhaste»?
      E a paridade raramente conseguida, não conta?

      (Uma confissão: das três vezes que deixei a casa – e encho o peito a dizer isto, caraças! – NUNCA FOI POR FALTA DE AMOR, mas pela corrosão da convivência, que deserotiza e é fatal! Já viu maior miséria?)

      O amor a dois de que alguns falam aqui é bonito como modelo – não confundir com generosidade, please – mas é tecnicamente impossivel fora da santidade, seja em cenários faustosos ou de penúria. Até lá, peço imensa desculpa: é, sim, uma guerra de poderes. E de vida ou de morte, claro.

      Mas teremos sempre, a compensá-lo, a frescura de asas do enamoramento e da paixão, que são shots de vida e de esperança! É batota, sim, e depois? Não serão legítimas, numa lógica de sobrevivência, por amor – lá vem, agora a generosidade – aos filhos, ao cônjuge, ao «papá» e a à «mamã» que já estão velhotes?

      E já não é mau.

      (Úlima hora: Inês de Catro não era boa peça.)

      1. Pois, as pessoas que pensam como a Rita têm essa característica em comum: não sabem amar. Ou melhor, amam-se a elas próprias, sendo incapazes de sacrificar os SEUS desejos seja por quem for. Talvez porque não acreditem no amor, ou porque não confiam verdadeiramente em ninguém, ou porque receiam a vulnerabilidade que implica a entrega, ou porque sentem que ao dedicar-se a uma pessoa estão a perder todas as outras. O mais certo é ser a mistura disto tudo.
        É uma forma de estar na vida que não me seduz, mas respeito se for assumida com verticalidade. O problema é que muitas vezes não é. O que sobra a muitos em garra falta-lhes em integridade. Se são assim tão afoitos, por que precisam de viver na mentira? Se querem ser livres, por que motivo gostam tanto de criar expectativas nos outros?
        Esse é o lado sujo dos intrépidos amantes da vida, esses orgulhosos predadores de gente “desprezível”. Desculpe a rudeza do desabafo, simples reflexo de feridas muito minhas.

        1. Olhe, Moi, desafio o desconforto dos meus filhos e a legítima reprovação dos seus pais – se alguém aqui chibar – para lhe confessar que os meus casamentos se podem resumir grosseiramente assim: o primeiro marido exigiu que eu não trabalhasse, o segundo, que eu não escrevesse – como se fossem caprichos.

          Tinha vinte e três anos no primeiro divórcio e trinta e seis no segundo: abandonei as casas carregando os meus filhos sem recursos, pensando assim: «Se tivessem um cancro, largaria ambas as actividades e acompanhá-los-ia até à arrastadeira. Assim, não!»

          E amando-os, percebe?

          Quer mais integridade do que isto?

          Sabe, Moi? Uma pessoa tem garra, integridade, exemplo, educação, leituras, filosofia, Fé, mas quando a dignidade se alia ao sistema nervoso temos o caldo entornado.

          E amei desvairadamente todos os meus homens, um deles até começar a ter peladas no cabelo, e sentei-me vezes sem conta em igrejas olhando os santos feita parva, esperando respostas que só eu viria a dar a mim mesma.

          Mas respondi-me!

          Encontrei muito poucas mulheres «que pensam como a Rita», acredite. A maioria vende-se ao dinheiro, ao conforto, à dependência, ao estatuto, ao medo, e, bem pior do que isso, AO OUTRO. Ou seja: trocam-se pelo outro!

          É essa a sua concepção de Amor? Amiga: teríamos muito que conversar!

          Acuse-me de tudo, menos de falta de integridade, se faz favor.

          1. As generalizações são sempre injustas, Rita. Essa é que é essa (também se aplica ao epíteto de “desprezíveis”…). Beijinho, gostei de trocar ideias consigo.

          2. «E a TRAIÇÃO a si mesma, é desprezável?» – foi esta a única vez que usei o termo e totalmente fora do contexto que cita, por duas vezes. Mas pronto, paz! Também adorei falar consigo. Um dia a Agustina, com quem fui a Ankara numa viagem alucinante, disse-me: «O que importa não é a felicidade, é a luta». E a Moi deu-ma, viva!

  15. O comentário que escrevi não aparece (já era tarde, quando o escrevi, devo ter feito alguma asneira)… pelo que, mais ou menos do que me lembro, aqui vai novamente:
    Lamento, Rita, mas apesar de compreender o seu ponto de vista, tenho de confessar que não concordo. De todo!
    Uma infidelidade, como traição que é, é extremamente difícil de ser ultrapassada. Essa coisa de que as facadinhas nos relacionamentos até “apimentam” a coisa… não é para mim. E sou ainda mais radical. É que pode haver traição sem que haja infidelidade e isso é ainda mais gravoso – sim, mais do que a dita facadinha “!
    Um beijinho!

    1. K, querida, que fique claro: a preterição ou a simples suspeita arrumam com uma pessoa, é pacífico. Só espero é que não experimente uma coisa que já testemunhei em dezenas de pessoas de qualidade: despacharem o companheiro porque se portou mal, e ficarem o resto da vida a lamentar terem-no feito, aprisionadas pelo orgulho ou vedadas por irreversibilidade.

      E sabe o que isto quer dizer, na maior parte das vezes? Que o outro era alguém estimável, mas que teve sede. E sede de uma água boa de que o cônjuge o privou.

      E sabe uma coisa? Por vezes, MUITAS VEZES, o patife é o que leva o outro a sê-lo, nunca pensou nisto?

      (Minha querida: soube das aventuras que tiveste para conseguir postar aqui e não sei o que aconteceu. Mas tive-te aqui a falar de Amor e só por isso, eu… amo-te! (E agora, no fim disto tudo, quem é que me vai acreditar? Fogo!)

      1. 😀 não interessa quem acreditará… nós sabemos que é verdade.

        Quanto ao outro assunto… Sim, o orgulho, esse malvado e destroçador de lares é um perigo! E depois há outro aspecto que tem de ser tomado em consideração: o contexto, as situações que envolvem os protagonistas porque isso poderá fazer toda a diferença entre uma infidelidade ser, ou não, uma traição (e, logo, segundo o meu ponto de vista “desculpável”).
        Poderíamos estar aqui uma eternidade… 😉

  16. Rita infelizmente, ou não, nunca conseguiria olhar para os olhos da minha mulher caso a traísse. Não concebo o amor com a infidelidade. Boa, má, oportuna ou não, não me importa. Ficam os remorsos, e as noites sem dormir. E o pior surge ainda quando existem filhos.
    Se até posso entender o amor sem sexo, não o imagino com traições “oportunas”, ou vivificantes.
    Acho que quando cedemos neste aspecto o melhor é desistirmos da nossa relação, a bem de todos.
    Para mim o amor será sempre naturalmente fiel.

    Um beijinho de quem a admira

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    (a florista já graceja comigo:))

    1. Eu contigo não discuto, acredito em ti. Acompanharei, com interesse, o teu amadurecimento. As tuas flores são versos, obrigada! No teu caso, não tenho nada para a troca a não ser admiração, amizade e um ciúme brutal e saliérico por esse teu imaginário exuberante. Pergunta nunca percorrida: por que não tens um blogue? Como te atreves? Egoísta!

  17. Quando amamos desejamos ser felizes dentro da relação, não fora dela. Não trair é um preço que se paga de boa vontade, acredite.

  18. Lamento mas neste campo não estamos de acordo. Apesar de compreender o que defende. Há algo que mexe muito mais comigo numa infidelidade e que poderá abalar os alicerces (atenção eu escrevi poderá, pois em alguns casos o efeito será outro… e quando acontece o quê? ninguém sabe!) de uma relação. Na minha (muito modesta) opinião uma traição (que até pode ser traduzida em algo que não tem nada a ver com a fidelidade) é algo muito devastador.
    Ora pode existir traição sem infidelidade . Mas, não poderá existir (mais uma vez: na minha maneira de pensar) infidelidade sem traição. Como tal, o relacionamento ficará (80% dos casos) francamente abalado.
    E, só para provocar… será que a sua forma 8 e 80 de ver a questão da fidelidade não é, na génese, uma visão romântica? Por absurdo que possa parecer… eu creio que é!
    Um beijinho e acima de tudo (e independentemente do texto) excelente estreia por estes lados 😉

    1. Presumo que isto seja o mesmo comentário lá de cima, revisto e aumentado, depois de uma tentativa mal sucedida, certo?

      Mas olha que as tuas repetições nunca me maçam, ouviste?

      (Mulher mais espectacular, esta K – e falo agora aos autores e comentadores do Delito. Só queria que a vissem! Soraya Chaves, clamam os cavalheiros? Cem-zero, aqui.)

  19. No que toca ao tema, eu não desculpo nem os fíeis nem os infíeis inexperientes que cultivam pistas a cada dia que passa. Odeio toda a gente que se encontra nestas duas categorias.

    Adorei o seu texto delicioso, Rita. Muitos Parabéns, estamos muito orgulhosos de si.

    1. Tinha a sensação de já te ter respondido, Imagination, mas talvez o administrador do blogue esteja na praia, merecidamente, e não tenha libertado ainda o comentário. Na dúvida, repito: que luxo ter-te agora no Acto Falhado e que parecido comigo és nessa coisa que os outros chamam «exposição» e nós chamamos «pranto»! Já lá vou ao Acto Falhado, depois de encerrar aqui, para te amparar no espantoso contributo que deixaste. ÉS UM HOMEM, não sei dizer-te melhor. Adoro os irlandeses porque dizem que as lágrimas de um homem são a manifestação suprema de virilidade, sabias? Mas está na hora de me abalançar a novo título, que glose e suplante o meu «Uma mulher não chora»: «Os homens já choram». Já viste a revolução»? Estive lá, fui activista, e aí da mais requintada Esquerda! Um beijo carinhoso para ti, novo Amigo!

      1. Vou guardar o teu comentário numa caixa bem especial, pois ele tem um grande significado para mim. 🙂

        Concerteza que vai renovar a minha esperança, as horas mais complicadas custam sempre tempo a passar e o tempo desilude a fé. Tenho um pressentimento que agora vai custar menos.

        OBRIGADO, Rita! Mesmo.

        1. E eu arranjo-te um princesa, Imagination, se não te sentires com forças para matar os dragões necessários para resgatar a tua. Ou até lá, vamos 🙂

  20. Ninguem merece sofrer a imunda infedilidade isso sim!
    Infidelidade é mentira vil e cobarde e egoismo também e mutias cmais coisas mas sempre na negativa.
    Como dizia a minha avó há 30 anos, “muitos namorados sim, mas um de cada vez”…

    1. Deixa-me ser exdrúxula, Maria, e não pessoalizes, rogo-te…

      Há um desabafo que me irrita e ouço muito, na área das mundanidades: «Fui jantar a casa do X e foi uma chatice!» Ouço tanto, tanto, tanto, que já lhes pergunto: «E o que é que tu, pessoalmente, contribuíste para que não fosse?»

      Seria esta a pergunta que todos os traídos deveriam fazer a si mesmos no silêncio das suas almas antes de se sentarem, confortáveis, na cadeira da vítima: «Que aprendi com isto?»

      É giro e pedagógico e retira-se sempre algum ensinamento. E há mais, que gostaria de lembrar a todos os «abandonados» do Mundo: as segundas oportunidades são sempre segundas oportunidades, com todo o aliciante que encerram. E o sofrimento acrescenta-te, bolas!

      Ou terei de lembrar que, de certa forma, a estabilidade não é um terreno particularmente fértil?

      Aqui, sim: sofreste, cresceste – sem ambiguidades.

      (Adoro a vida! É cansativa, porque está sempre a bombar 🙂

  21. Olá Rita! Bem-vinda ao Delito .)
    O que eu mais gostei no seu texto, além da escrira primorosa, é a provocação que ele contém. Quanto à dicotomia fidelidade/infidelidade digo apenas que nada me irrita mais do que a fidelidade canina, embora seja uma adepta fervorosa da verdade, doa o que doer. Nada fácil.

  22. Ritinha,

    Só agora tive acesso à net, por isso ainda não tinha vindo aqui acolher-te. Estou no Minho, com um dia de sonho, um mar sem fim e um belo programa à minha frente para o dia de hoje. Tudo isto convida ao dolce fare niente e um tema destes, homérico como poucos, exigiria dos meus neurónios mais trabalho do que eles estão dispostos a ter hoje (os desnaturados vestiram o fato de banho e nada os arranca à modorra). Além disso tenho os meus galões a defender, também gosto de um brilharete de vez em quando, e… já tudo de interessante foi dito e rebatido aqui. É o mal de chegar atrasada a uma discussão fosfórica como esta.

    Sei que me desculparás a infidelidade (depois deste post, ai de ti que não o fizesses… lol), mas os meus pecados de hoje são mais a preguiça e a gula. Voilà.

    Beijos e abraços a todos, que eu vou feirar a Cerveira!

    1. E a luxúria, está ausente desse programa? Sei que não, ‘tava a reinar 🙂 Serias incapaz. LOL

      (Traz-me um xaile de caxemira falsa de cores garridas, sff, com turquezas e castanhos. Até três euros estás à vontade.)

      1. A luxúria está ausente é da minha lista de pecados…

        Olha, perdi a cabeça e gastei quase 4 euros, mas justifica-se: as turquesas são verdadeiras e as castanhas são marron glacê do melhor. Serve?

        1. Ausente? Ó Ana, não me dês desgostos!

          E fico preocupada: se as turquesas são verdadeiras – em cima escrevi com zê, toma lá que já almoçaste – e as trouxeste por quatro euros o mais certo é ires presa.

          Se assim for, que te restará dentro da cadeia se não a luxúria?

          Quanto às marrons glacés – aqui ganhei eu, não têm circunflexo, toma! – não me fales nisso a esta hora, por favor. És luciferina…

          Beijos e até amanhã, com os suspeitos do costume 🙂

          1. Não me percebeste: a luxúria está ausente da minha lista de pecados porque, para mim, não é pecado. Nem é defeito… é feitio.

            Quanto às marrons: touchée, no glacé! Seguiram com chapéu por serem transmontanas, deve ser isso. Embora sejam de se lhes tirar o chapéu.

          2. Ah, assim fico mais descansada, não tinha percebido MESMO! LOLOL

            Olha, querida, venho pedir-te um favor. O Adminstrador que modera os comentários pode apagar este se quiser, depois de submeter à vossa consideração este meu pedido.

            Hoje/Ontem, no Acto Falhado, levei um caso interessante, juntamente com o seu protagonista, que gostaria que apreciasses e que lesses, numa brecha que venhas a ter. Estou a tentar entender tudo, e chamei já um perito em arbitragens para se pronunciar no dia de (já) de hoje, da parte da tarde.

            Vou tb tentar sensibilizar o Crespo, o Sousa Tavares e a Teggy, porque a coisa parece-me injusta, sobre todos os pontos de vista.

            Faz a caridade de espreitar, para saberes a que me refiro, e, se achares interessante, postares aqui o assunto de modo a que os muitos jornalistas do Delito possam agarrar a história ou contribuir, pouco que seja, para deslindar o mistério da morosidade deste processo absurdo, em que um homem ganha em tribunal todas as instâncias, e não consegue, ao fim de sete anos, obter uma sentença.

            Vá, espreita aqui e ajuda se puderes:

            http://actofalhado.blogs.sapo.pt/743957.html

  23. Olá Rita,

    As guerras que comprou.
    No meio de tanta coisa que fui lendo, na diagonal, nos comentários saltou-me à vista algo que para mim é o fulcral da questão. A fidelidade mais importante é a que devotamos a nós próprios. E se formos capazes de ser honestos conosco, tudo o resto deixa de importar. E se essa honestidade passar por manter apenas sentimentos de amor por um companheiro de cada vez, tanto melhor. Mas se assim não for, e se no meio de uma relação amorosa se permitir a intromissão de um terceiro, será certamente porque algo está errado. E é esse errado que devemos investigar e tentar compor, seja com que resultado for. E se para isso for necessário experimentar, se for essa a solução, então que o seja.
    Bem-aventurados os que nunca tiveram necessidade de tal.
    Obrigada pelo seu texto. Gostei muito de o ler.

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