Convidada: MARIA ARAÚJO


Pedro Correia,

 

O momento certo

  

Há cerca de um ano tive um contratempo com alguém da blogosfera, a propósito de um e-mail que me enviou, e a que não respondi porque a minha frequência no Sapo Mail era praticamente zero. Desde então tento ler, diariamente, a correspondência que recebo. São, maioritariamente, comentários/respostas aos posts.

Hoje, final da tarde, dei uma vista de olhos ao correio e, de repente, um nome que conheço da blogosfera chamou-me a atenção. Reparo no assunto.

Se os meus olhos ficaram petrificados, o meu coração bateu forte com a surpresa do conteúdo.

«Porquê eu?»

«E agora?! O que vou fazer?»

 

Sem a miníma ideia sobre a volta a dar ao assunto, sem conseguir perceber o que levou tão distinta pessoa a fazer-me um convite destes, estava a minha cabeça confusa e os meus olhos liam e reliam o pequeno texto.

Não tinha palavras nem dedos que me levassem ao teclado para dar-lhe uma resposta.

Pensei procurar textos no meu blog que me dessem ideias. Não queria decepcionar este senhor.

Foi então que me lembrei de cumprir o desafio que eu própria lançara a alguém, há algum tempo, e que não cumprira porque estava sem ideias.

No ambiente de trabalho do computador, procurei o documento que guardara para o reler e retribuir no momento certo.

Abri-o e li.

 

Num desabafo (assim o interpretei), o autor do texto transmitia alguma nostalgia de escrever no papel, à moda antiga, de corrigir os erros manualmente, o que a tecnologia agora faz por si.

E fazia a comparação entre o texto publicado, escrito no teclado, sem erros e perceptível, com o original, manuscrito, que vai “esgalhando”, de modo a chegar assim ao leitor.

Os puristas vêem a escrita no teclado como um retrocesso, porque assim não se tem consciência da passagem das ideias do papel para o monitor. Isto levou-me a verificar de que modo a minha escrita no computador e a manuscrita seriam diferentes também.

Peguei no papel e na caneta. Escrevinhei o que me veio à mente.

Risquei, rabisquei, rasguei folhas.

Confesso que senti alguma dificuldade em escrever uma frase.

 

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No teclado, os dedos chegam lá com destreza e os olhos detectam os erros. Percebemos que as ideias estão mal definidas, apagamos, corrigimos, acrescentamos, copiamos, colamos. Perdemos consciência do valor que as rasuras, os rabiscos, o pensamento e as emoções que transmitimos ao papel têm tanto na escrita como na nossa vida.

Isto fez-me voltar atrás no tempo. Foram muitos os manuscritos que guardei nas gavetas físicas das minhas memórias: os de amor, os de família, os de amigos, os do simples prazer de escrever.

No teclado do nosso computador escrevinhamos uma frase, um sentimento, uma opinião, um conceito. E esquecemos.

É como as fotografias. Com as novas tecnologias, deixámos de gravar no papel, de pôr na moldura que decoraria o móvel da sala aquele momento especial. Ficam arquivadas nas muitas pastas do computador até ao dia em que nos lembramos de reviver aquela viagem, aquele dia, aquele momento.

Acabo este este texto com a mesma frase/pensamento que o autor “esgalhou” no seu: “Com os actuais processadores de texto, deixei de ter passado.”

 

 

Maria Araújo

(blogue CANTINHO DA CASA)

21 comentários em “Convidada: MARIA ARAÚJO”

    1. Muito obrigada, Robinson.
      Sabe que o autor que me inspirou tem um post sobre o assunto?
      Acredita que sinto saudades de escrevinhar, uma carta, por exemplo, colar o sêlo e deixá-la seguir o seu destino?
      Há dias, enviei um e-mail para uma pessoa que está do outro lado do Atlântico.
      Comentei com uma amiga.
      Um dia destes, vou escrever uma carta. Com esta tenho a certeza que recebe em mãos.
      E não digo mais nada.

      1. Aos grandes amigos, ou àquelas pessoas que nos marcam, envio sempre postais e cartas… Penso que é mais pessoal. A facilidade com que escrevo num computador não me dá espaço para ir mais longe…

  1. Aqui está um tema que não cessa de nos interpelar: até que ponto os textos se tornam impessoais ao perdermos o rasto da sua carpintaria?
    O que seria do nosso entendimento da obra de um Eça ou de um Pessoa, por exemplo, sem o acesso aos manuscritos de cada um, nomeadamente nas cartas que escreveram?
    Li algures que na Finlândia as crianças deixaram de ter caligrafia. Nas escolas, só aprendem a escrever com letras de imprensa – ou de computador. A nossa capacidade de interpretar textos antigos diminui drasticamente com estas novas tendências pedagógicas, de duvidoso mérito. E também a capacidade para desvendarmos personalidades alheias, na medida em que a caligrafia diz muito do que somos. (Ou do que éramos.)
    Obrigado pela visita, Maria.

      1. Maria,

        o meu filho mais novo diz que o acto de escrever à mão está a entrar em desuso. Pois… infelizmente.
        Todavia, e mesmo que a mão me doa, tento manuscrever. Geralmente em papel quadriculado.
        Entretanto belo texto.
        Seria bom que os nossos professores, principalmente o da escola primária, lessem este naco de prosa bem esgalhado.

        1. O computador veio facilitar a comunicação/ escrita a muitos níveis, sobretudo no trabalho.
          Mas este pode ser enganoso, quando convém.
          Por exemplo, há uns meses enviei um e-mail para uma amiga.
          Tenho a certeza que o enviei, embora ela me dissesse que não o recebera.
          Infelizmente, com o hábito de limpar a caixa de correio, penso que sem o desejar foi para a lixeira.
          Se tivesse manuscrito uma carta, ela chegaria ao seu destino ( a não ser que se extraviasse), e aí não haviam dúvidas.
          Ontem, recebi um e-mail dela.
          Desta vez, vou responder com um manuscrito.

  2. Grande verdade.
    Ainda guardo uns diários e algumas cartas… eu que tinha um 20 a caligrafia tenho muitas vezes dificuldade em perceber o que escrevi.
    Os teclados são práticos e rápidos , mas roubam-nos a identidade.

  3. Excelente tema Maria.
    Efetivamente com o Word perdemos a essência e a pessoalidade de escrever à mão. Tudo passa a ser em Calibri e com os risquinhos vermelhos a assinalar algo que não está bem escrito.

    1. Muito bem, Gábi.
      Dou mão à palmatória porque não sou excepção e uso o teclado que me facilita rapidez na escrita.
      Quanto à impressão de fotografias, faço-o, sobretudo as de família.

      Beijinho

  4. Olá Maria! Gostei do texto e do tema. Tenho pena de já não escrever cartas manuscritas e também de já não as receber. Mas mantenho cadernos onde rabisco textos e bonecada. Os textos ficam sempre cheios de rasuras mas soam a mim, às minhas indecisões, aos meus erros…

    1. Olá Luísa.
      Adorei ler este comentário, porque diz exactamente o que sinto sobre os textos manuscritos:
      “soam a mim, às minhas indecisões, aos meus erros…”
      Quando escrevi este texto, fiz o manuscrito e o do teclado.
      O manuscrito fica para recordar, um dia.

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