O consolo estético
Todos os anos se repete. Chega o Verão e a nossa intimidade é invadida de imagens de nudez multiplicada nas bancas, como nas ruas, como na praia, que para Nélson Rodrigues não é mais que um “campo de nudismo”. Vem isto a propósito do próprio Nélson Rodrigues, o jornalista e dramaturgo que me pôs a ler brasileiro sem enjoar. As crónicas de O Óbvio Ululante (1968) – livro que me foi dado a conhecer recentemente – são únicas. A forma como, numa delas, expõe a tragédia da nudez do carnaval do Rio é digna de nota. Deixo aqui um pequeno trecho: «Nunca houve um carnaval tão triste, porque nunca houve um carnaval tão nu. Dirá alguém que minha obsessão pela nudez é uma fixação infantil. Não sei se infantil, mas é uma fixação. Os jornais e os locutores vão falar em “alegria, alegria”. Realmente, não houve tal. Nada mais triste do que a nudez sem amor. Mas o nu é sempre belo, dirão alguns. Nem isso. É feio, e repito: – sem amor, é feiíssimo.»
O que que eu quero dizer é que hoje são muitas as instituições – “pai, mãe, irmãos, marido, namorado, vizinhos, autoridades, imprensa, rádio e televisão” – que se juntam para promover nádegas e umbigos, em especial no Verão, sem sequer perceberem que «não há nada mais feio, mais triste e ofensivo». E eu, que li com gosto as crónicas de Nélson Rodrigues, encontrei alguém que me proporcionou um enorme consolo estético e me reconciliou com a língua portuguesa do Brasil. Tudo num único movimento: uma escrita excelente.



Tem toda a razão, quanto ao que opina, quer quanto ao autor que refere.
A estética é nos dias de hoje uma coisa muito mal tratada. A todos os níveis. Perdeu-se o sentido do belo.
Não me refiro ao facto de uns serem gordos e outros magros e alguns assim-assim. De alguma forma, há sempre beleza num corpo.
A nudez é particularmente bela.
Por isso não a confundo com a exibição comercial, prepotente, invasiva, de rabos e mamas, de todos os tamanhos formas e feitios, que diariamente nos assola e não só no Verão. Essa é medonha, feia, pornográfica, e esconde toda a beleza da nudez e aquilo que nesta há de confortável, de sensual.
É um pouco como a diferença entre a imagem de uma coxa de Deneuve num filme de François Truffaut ou uma fotografia da tanga da Ana Malhoa na edição nacional da Playboy . E não se trata apenas de uma questão de escolha entre louras e morenas. Infelizmente, há quem não veja isso. A começar por muitos dos nossos publicitários.
Espero que o Pedro a traga até nós com regularidade.
Era um conservador, esse Nelson Rodrigues. Muito púdico com a exposição pública dos corpos, mas muito liberal a fruí-los. Era um femeeiro de primeira água, sabia? Se não conhece, leia “O Anjo Pornográfico”, a sua biografia.
Para conhecer a biografia – e o biografado -, é necessário ler mais que o título – sabia, Maria?
Abra e leia, em exórdio, a “confissão” que inspirou Ruy Castro (o biógrafo): «Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.»
Agora leia um pouco mais: as badanas, a contracapa… se possível, passando pelo livro todo.
Depois leia as crónicas do próprio Nelson, incluindo as de futebol (sobretudo se não gosta de futebol, ou se gosta muito)… e descubra um dos mais geniais criadores da Língua Portuguesa.
Leia também o Teatro Completo, se gosta de experiências fortes… e descubra como só aparentemente é contraditório. (Ao contrário do que pensam os «idiotas da objectividade», para usar uma expressão de Nelson). O Teatro («Completo», repito) recomendaria eu (se pudesse recomendar alguma coisa) também, e especialmente, à convidada de ontem e seu coro: para uma cura.
Eu prefiro o decoro (como diria o Nelson, «a unanimidade é burra»). Por isso, faço o elogio do elogio do elogio do pudor: Parabéns, Isabel Teixeira da Mota.
Caro Nunca Fiando:
Gostava que me dissesse em que se baseou para concluir, todo lampeiro, que não li a bio do Anjo. Ofendeu-se com o meu comentário? Reconheço o talento do cronista, mas não fiquei fã do homem. Lamento. A avaliar pela sua crispação deduzi que para si ele é um exemplo a seguir em todos os sentidos. Pois que lhe faça bom proveito.
Cara Maria Sobral:
1. Digamos que quase insinuei. Obviamente, não posso concluir. Não quer arranjar tempo e vontade para dar outra espreitadela à biografia…?
2. Li e gostei do seu comentário àquele post sobre a infidelidade. Nesse caso, os meus aplausos vão todos para si.
http://nuncafiando.wordpress.com
Tchhhhhh….
Gosto muito de te ver por cá, Isabel. Esta foi a primeira. E sei que não será a última.
Beijinho.
Uma reflexão interessante e incomum que a Isabel aqui nos traz. Parabéns.
Nunca li nada de Nelson Rodrigues embora conheça obviamente a referência. Contudo, travo desde sempre uma intensa paixão com a literatura brasileira e com a doçura dessa português inigualável dos trópicos.
Nelson Rodrigues é autor de alguns dos maiores aforismos de sempre em língua portuguesa, vários dos quais passaram para a linguagem corrente. “Toda a unanimidade é burra”, por exemplo. Foi também um dos mais espantosos cronistas do nosso idioma, além de dramaturgo de créditos firmados. Mas é mesmo como autor de crónicas que mais lembro este excepcional escritor que foi jornalista desde os 13 anos e nunca deixou de exercer a profissão.