Uma pedra no caminho
Os vizinhos do segundo andar deixaram uma carta em todas as caixas de correio do prédio, informando que, em 1942, uma mulher judia foi levada do nosso prédio para Theresientstadt e daí para Auschwitz, onde foi assassinada, e que em sua memória tinham encomendado uma Stolperstein, uma “pedra no caminho”.
Trata-se de uma iniciativa de um artista alemão, Gunter Demnig: em frente à última morada voluntária de vítimas do nazismo põe-se entre as pedras da calçada um pequeno bloco de betão com uma placa em metal, onde estão inscritos nome, ano de nascimento, data da deportação e da morte. Uma das intenções é devolver a essas pessoas o seu próprio nome – que no campo era substituído por um número – levando a que os passantes parem e por uns momentos se curvem perante a sua memória. No meu caminho para o metro há onze placas dessas em frente a uma só casa, e fazem-me sempre parar: Selma Sternfeld, aos 79 anos de idade arrancada à sua casa com destino a Theresienstadt. Clara e Minna Plessner, de 63 e 64 anos, imagino-as duas irmãs solteironas, assassinadas em Piaski (onde será Piaski?). Johanna Steuer, a caminho do campo de concentração com 75 anos, um martírio de duas semanas e meia até a matarem. Reparo nas datas da deportação, quase todas diferentes: vez após vez o mesmo terror, “por quem virão eles hoje?” ou “será que hoje há uma carta para mim?”
Também da nossa casa saiu uma mulher, levada à força para Theresienstadt, e os vizinhos do segundo andar encomendaram uma pedra para o nosso caminho. Fomos falar com eles, louvar a iniciativa, pedir para participar nos 100 euros que este pequeno memorial custa, mas em vez disso deram-nos uma lista de nomes: da nossa rua minúscula levaram mais de trinta judeus para campos de concentração. Podíamos escolher um deles, sugeriram, e encomendar mais uma pedra. Temos andado a pensar nisso: é estranho adoptar uma vítima de entre seis milhões, ou mesmo de entre trinta. A mulher de 82 anos? O rapaz de 20? A família pai-mãe-filha que foi enviada para o gueto de Varsóvia? Um deles seria a herança dos nossos filhos: a “nossa” pedra, um nome resgatado para ser levado de geração em geração, dos nossos netos aos seus bisnetos.
No dia aprazado chegou o artista, segurando reverentemente o cubo, e um ajudante que trazia as ferramentas. Descemos todos e fizemos um círculo à volta do homem que, muito rápido, tirou algumas pedras, inseriu o bloco, deitou areia e cimento. O ajudante juntou a água e varreu o chão. Depois levantaram-se, nós acendemos uma vela e pousámos rosas no passeio.
Ficámos alguns minutos em silêncio. A vizinha do segundo andar chorava desamparadamente. A vizinha do terceiro andar, que descende de uma família de judeus assimilados e é muito extrovertida, começou a segredar-me legendas para o que estava a acontecer. “Temos de lembrar”, dizia ela, e repetia-se “que ninguém esqueça”, e lamentava-se “isto foi uma coisa horrível, horrível, horrível”. E eu fazia que sim com a cabeça, e deixava-a falar apesar de não querer ouvir, e tentava não chorar como a outra vizinha, tomada de uma tristeza informe por esta mulher que talvez tenha habitado as minhas salas, e foi morrer assassinada em Auschwitz.




Emocionou-me este texto. Mais uma vez me perguntei: como foi possível acontecer, no meu tempo, o que essas placas lembram? Sim, no meu tempo: nasci em plena II Guerra Mundial…
Mais do que parabéns, obrigado à autora!
Magnifico o seu texto.
Ja agora Piaski fica a circa de vinte quilometros de Lublin ( na Polonia) e foi a primeira cidade onde os alemaes \"instalaram\" um gueto na Primavera de 1940. Posteriormente foram para la transportados judeus de toda a Europa.
Bravo! um primor!
É deveras ridículo, penso eu, cobrir o chão de pedrinhas a lembrar pessoas assassinadas.
Ao fim e ao cabo, temos que pensar, já moraram nas ruas das nossas cidades milhares de pessoas, muitas delas dignas de lembrança, que no entanto não são lembradas. Por que motivo deverão ser lembradas só por terem sido assassinadas e só por terem sido judias?
Como é que V. consegue ter tão chocantemente nojento nos comentários?
Luís, estas coisas não são “só” para judeus.
À porta do supermercado onde costumo fazer as compras tem uma placa a assinalar o lugar onde Rudi Dutschke foi vítima de um violento ataque (de que viria a morrer anos mais tarde). Na praça onde costumo apanhar o metro tem uma placa a assinalar um rapaz que foi atacado por um bando de jovens, há alguns anos. Nas estradas vêem-se cruzes de madeira e flores a assinalar o sítio onde um acidente de viação fez alguma vítima mortal.
Também se usam placas para assinalar quem viveu numa determinada casa. Até em Portugal, aliás.
Sendo assim, porquê achar ridículo que se assinale em frente à sua última morada voluntária os judeus assassinados pela máquina do Holocausto?
Quanto ao “só por terem sido assassinadas e só por terem sido judias”: imagine as pessoas da sua família, as pessoas de quem mais gosta, imagine-os todos todos – grávidas, bebés, mulheres de oitenta anos – a serem arrancados à sua casa e enviados para uma câmara de gás. Imagine que alguém achava ridículo que o Luís quisesse pôr uma placa a lembrar essas pessoas, e dissesse: mas qual é o problema dele? Julga que “só porque foram assassinados” são mais que os outros?
Sinceramente, o modo como formula a questão dá a sensação que ainda não percebeu bem o que aqui se passou. Por isso mesmo estas pedras são fundamentais: para que a realidade do Holocausto se nos torne mais perceptível.
Helena, não perca o seu tempo em explicações ao Luís Lavoura. Verdadeiramente ridícula – e mesmo patética – é esta necessidade que ele tem de pôr-se em bicos de pés através de opiniões chocantes e descabidas. É uma caso patológico, dar-lhe importância só faz com que ele se saliente ainda mais.
O seu comentário é revoltante.
Ridículo é este comentário, e estou a ser simpática. Não há paciência.
O motivo principal pelo qual se lembram estas pessoas é educar broncos como tu.
Parabéns pelo texto.
Também há dessas pedras em Stade, onde vivo, foram postas há um ano ou dois. Claro que não são tantas como em Berlim. Mas, de vez em quando, nos meus passeios com a Lucy, lá tropeço numa (a tradução literal de Stolperstein é “pedra de tropeçar”). E leio o nome e a data. E emociono-me.
Excelente texto, Helena! A última vez que estive em Berlim tropecei nas pedras inadvertidamente. O efeito é surpreendente, de facto. É memo uma pedra no caminho, no nosso comum enquanto Humanidade e no individual num sentido absolutamente restrito e íntimo. Não se esquece.
Gostei muito, Helena. Muito mesmo. Um beijinho.
Muito obrigada pelos comentários que aqui deixaram. Fiquei muito feliz com a ressonância – é bom saber que tantas pessoas não arrumam isto como “essas coisas só lá dos alemães”. É da História de nós todos, e compete a cada um de nós não esquecer o que aconteceu e sobretudo não se esquivar a tirar lições fundamentais desta terrível página da História.
Obrigada pelo grande texto e pela história tão tocante, Helena.
As paredes dos diversos pavilhões de Auschwitz estão cobertas de retratos de antigos prisioneiros, com as datas de admissão no campo e a da morte. Às vezes apenas alguns dias, outras vezes semanas, outras meses as separam. Acreditas que cheguei a alegrar-me quanto mais estreita era a distância entre as duas?
O meu desejo é que essas pedras no caminho se disseminem por toda a Alemanha, Holanda, Polónia…
Nunca esquecer. Nunca.
Magnífico texto, bela Helena. Magnífico! E a vizinha das legendas tem razão: importa não esquecer. Importa não apagar a memória. Brava!
Um belo e tocante texto, Helena. Não conhecia este costume, e impressionou-me a forma inteligente que alguém encontrou de fazer com que os transeuntes se curvem perante a memória de uma vítima do holocausto e sejam levados assim a prestar-lhe homenagem, mesmo que seja involuntária.
Convidada por mim ou pelo Pedro, o importante é que tenha vindo visitar-nos. Volte sempre!
Um texto muito bonito.
Preocupa-me muito saber que tudo pode voltar a acontecer. Aliás acontece, em menor escala é certo, mas repete-se de quando em vez! Mesmo agora que temos estes meios de comunicação incríveis.
O que podemos fazer, é realmente não deixar esquecer e repetir, repetir, lembrar, deixar pedras…
Tenho estado aqui a ver se encontro alguma coisa inteligente e nova para dizer mas não sai nada.
O teu texto é muito bom. Pronto.
Paulo, eu também estou a tentar dizer alguma coisa inteligente para além de “obrigada”, mas não sai nada.
Obrigada a todos. Pronto.
😉
Excelente texto. Estive em Berlim apenas durante dois dias, no Verão de 2009. E deparei-me com uma dificuldade: para quem leva ideias pré-concebidas, muito mais baseadas em ficção do que na realidade (a nossa percepção – talvez até a nossa memória – é, hoje em dia, constituída em grande parte por imagens retiradas de livros e filmes), Berlim parece demasiado nova, dinâmica e aprazível para satisfazer as expectativas (em parte mórbidas mas em grande medida desejo de vivenciar e compreender). Foi por isso que, na altura, escrevinhei isto: http://escafandro.blogs.sapo.pt/53960.h tml. Textos como este recentram a questão no essencial. Mostram que, por trás dos edifícios de vidro e até dos memoriais, há humanos que não esquecem.