Em Setembro…
O que diria Raul Brandão, se voltasse a este mundo, e visse os queridos lisboetas incomodados com tantos turistas?
São euros, senhores, são “euro milhões”…
Foi este escritor tão realista como lírico que me ajudou há alguns anos a descobrir o significado da expressão “vai-te embora ó mês de Agosto”.
Era uma expressão lá muito de casa, dita pelo meu pai, quando havia alguma contrariedade ou alguém o aborrecia.
Estamos situados na Figueira da Foz, cidade-mãe da que foi considerada, até fins dos anos 70 do século passado, Rainha das Praias de Portugal, praia da Claridade.
Raul Brandão mostrou-me o caminho. Escreveu que considerava os figueirenses pouco hospitaleiros e arrogantes para com os veraneantes, por lhes ocuparem os espaços de casa, pois ao alugar iam viver para anexos, a ocupação de ruas, cafés e esplanadas e tudo o mais que alimenta uma estância balnear e os levava a expressarem-se dessa maneira.
Junho, Julho e Agosto eram plenos, Setembro trazia os banhistas de alforge, que pela sua simplicidade não traziam mal ao seu “mundinho”. (Conhecer a Figueira do século passado é uma riqueza no maravilhoso livro de Jorge de Sena “Sinais de Fogo”).
O ADN dos habitantes de uma região é para a vida… Não deixa de ser estranho que os figueirenses, ainda hoje, continuem a pensar da mesma forma, mas em escala menor, na proporção dos banhistas que recebem, que são muito menos, oriundos de Coimbra e Beira Interior, nostálgicos de um passado que também foi meu, mas não pratico e resumido ao mês de Agosto.
Outrora, alugar casas três meses seguidos era a verdadeira “almofada de conforto” numa cidade de turismo e pesca.
As boas vias de comunicação permitem que as pessoas façam praia e voltem a casa. Mais baratinho…
Bom, este é um “delito de opinião”… que faz de mim uma filha esconjurada pelos detractores da cidade.
Eu continuo a dizer “vai-te embora ó mês de Agosto”, mas porque gosto muito de Setembro.


os queridos lisboetas incomodados com tantos turistas
Nunca vi qualquer manifestação de tal alegado incómodo. A autora do post já viu?
De Raul Brandão relembro o livro Memórias, que tão bem retrata a míseria moral do reino, assim como a miséria abjecta dos pobres da Foz, no livro Pobres…..nada de novo, debaixo do sol.
Conheço bem a Figueira, terra natal da minha mãe. E sou totalmente contra esta nova moda da turismofobia (melhor dizendo: turistofobia). Obrigado pela visita, Ana. E parabéns pela qualidade e longevidade do seu blogue.
esta nova moda da turismofobia (melhor dizendo: turistofobia)
Que eu saiba, não existe tal fobia em Portugal. Nunca vi turistas a ser maltratados. Nunca ouvi alguém sugerir que se deva restringir o turismo.
O que há, é algumas queixas sobre algumas práticas relacionadas com o turismo, nomeadamente tuctucs e alojamento local. Mas essas queixas não se traduzem em qualquer rejeição dos turistas nem do turismo.
Junho, Julho e Agosto são sufocantes. Percebo os figueirenses porque já sentimos o mesmo olhar de desagrado em Alvor e Lagos desde sempre, pela ocupação dos banhistas e barulho que traziam, mas principalmente pelo encarecimento de todos os bens essenciais. Uns ganhos de verão que alguns espremiam ao exagero. Agora não há “meses de Verão”. O turismo é uma constante ao longo do ano, apesar da incidência mais forte nos primeiros 3 meses de Verão. O turismo invade-nos e enriquece-nos, é um facto. Nós é que não estamos estruturalmente preparados para receber sem abusos nem exageros toda esta gente, nem os nossos pontos turísticos estão aptos a enfrentar a erosão.
Sem a querer plagiar, acho que vou adoptar ” vai -te embora ó mês de Agosto “. Sempre fui uma September’s person e adoro Becaud.
Gostei muito deste seu texto.
Gosto de ver o meu país e a minha cidade cheia de turistas.
O único senão é a concentração destes, os de fora e os de dentro, nesta mês de Agosto.
Contrariamente ao que pensava há nos anos da juventude, Agosto era o meu mês de eleição: praia, sol, diversão.
Passada a idade da euforia, elegi Setembro o melhor mês de férias. Lamentavelmente era o mês de regresso ao trabalho.
Mas já não é mais.
Gostei do post.
Viva, Pedro Correia.
Só agora tive oportunidade de chegar à escrita , para também mais uma vez agradecer o convite de participação nesta aventura, que traz sempre leituras várias…, e uma forma de voltar à actividade que andava tão adormecida.
Um prazer saber que sua mãe é figueirense. Há sempre uma conterrânea no meu caminho. 🙂 Minha mãe ainda lá vive com 89 anos, rejuvenescida no iodo próprio da cidade.
Queria dizer a Luís Lavoura, que não me referi a “fobia” nenhuma por parte dos lisboetas, tão simplesmente incomodidade…
Não vivo alheada de leituras, e outros espaços de livre expressão , por isso sei do que falo. Não vi manifestações de rua, era o que mais faltava. Ouvi e li desabafos.
Vivo com um pé em Lisboa e outro na Linha . Fui professora 10 anos numa escola do Castelo de S. Jorge, participei na reabilitação, sei o que é “turismo de massas”. Sei dos seus benefícios e do desassossego que provoca a quem gosta de menos de”bruás”.
Penso que o Luís terá entendido que o início do texto foi um mote , com humor, pelo menos para mim, para introduzir uma forma de pensar e sentir real, na cidade onde vivi desde que nasci, 23 anos e onde continuo a ir.
Os lisboetas não dizem “vai-te embora ó mês de agosto”, mas com certeza, vai-te embora ó mês de julho. Muitos adoram ficar com a cidade só para eles. É público.
Cordiais saudações ao Pedro e Luís
Olá!!!!
Escreve-lhe um figueirense nado, criado e a residir na terra.
A expressão “vai-te embora mês de Agosto” era usada sempre que havia necessidade de algo e era difícil ou impossível encontrar, fosse estacionamento, produto de supermercado, lugar para sentar/ficar, etc., o que há anos não era assim tão difícil, na zona onde vivo (Bairro Novo).
Olá, João Moreira.
Vai de encontro ao que escrevi.
Eu ,também nascida e vivida na Figueira, da maternidade dos Quatro Caminhos, para entre Largo do Carvão e Praça 8 de Maio.
Santa noite.
Saudações figueirenses.
Olá, bom-dia!
A “Casa da Mãe” onde também nasci!!!
João Moreira