Convidada: ANA CLARA


Pedro Correia,

 

O fracasso da classe política espelhado em Cavaco

 

É com muito gosto que aceito o convite lançado pelo Delito de Opinião para uma prosa, de tema livre, neste espaço que muito aprecio. O assunto, esse, já fez correr imensa tinta. Mas, mesmo uma semana depois, é inevitável não falar na «bomba» que selou o início do segundo mandato presidencial de Cavaco. Na tomada de posse, Cavaco fez questão de levar a arma bem limpa e disparar em todas as frentes. A mais atingida, sem surpresas, foi o Governo de José Sócrates. O diagnóstico do País da última década foi traçado. De forma dura, em tom amargo e tocando onde mais dói: no coração da Assembleia da República e perante a classe que mais contribuiu para o adiamento das reformas estruturais que o País precisa. Cavaco representou, e bem, o fracasso da classe política nacional. Porque toda ela é co-responsável pela realidade dos números que nos tem empobrecido.

É certo que a História mostra que os segundos mandatos em Belém são sempre mais interventivos. É a lei natural do sistema político português em matéria de mandatos presidenciais. A magistratura «cavaquista» dos próximos cinco anos não vai fugir à regra, como o próprio Cavaco vincou na noite das presidenciais. Ainda assim, o discurso do Presidente da República chega tarde. Podia ter sido feito há cinco anos? Podia. Mas também podia ter sido feito há 10 ou há 20 anos, pelos seus antecessores no cargo. Mas, ao invés, a classe política que o 25 de Abril produziu preferiu andar iludida, a fingir que reformava o(s) sistema (s), quando, onde mais soube ser competente, foi a «engordar» o Estado; a fingir que reduzia o défice, quando o «monstro disparava», sempre tapado por engenharias e cosméticas de qualidade.

O que Cavaco salientou não foi, na minha opinião, motivado por «vinganças» relacionadas com a campanha «suja» que o PS e dirigentes socialistas, como Augusto Santos Silva, fizeram em Janeiro. E muito menos por querer substituir-se ao Executivo na governação. Quem tem memória, sabe-o bem, basta lembrar as famosas presidências abertas de Soares, nos tempos em que o «cavaquismo» governava o País…

 

 

Mas, o que Aníbal fez – goste-se ou não – foi dar o grito que todos queremos dar. O grito de quem sabe que o País está depenado. E virou-se para os jovens. Esses precários, que constituem a famosa geração «à rasca». Os mesmos jovens sem sonhos que a classe política – incluindo Cavaco – ajudou a produzir nas últimas três décadas. É para eles que o Presidente da República, e bem, deposita a esperança do futuro.

Lamento apenas que a «cooperação estratégica» do primeiro mandato presidencial tenha sido substituída pela nova «magistratura actuante». No momento actual, é fundamental que instituições e líderes políticos cooperem de forma activa e com sentido de Estado, colocando de lado todo e qualquer interesse partidário.

Ainda assim, desenganem-se aqueles que pensam que o dono do trono de Belém tem o sonho de Sá Carneiro na manga. Nem quer «Um Governo, uma maioria, um Presidente» nem sequer usará a «bomba atómica». Pretende apenas puxar por uma sociedade depressiva e sem ânimo. É nisso que, enquanto cidadã, quero acreditar. E mesmo arriscando a ruptura nas relações com São Bento, Cavaco irá manter-se acima dos interesses partidários actuais. O PSD que recolha as armas porque só mesmo uma hecatombe externa levará Pedro Passos Coelho a subir ao poleiro.

 

P.S. – Como este texto foi escrito antes do Conselho Europeu da passada sexta-feira, pelos vistos a hecatombe externa veio de Bruxelas e com um PEC IV atrelado. Tempos difíceis e conturbados nos esperam.

 

Ana Clara

4 comentários em “Convidada: ANA CLARA”

  1. No momento em que escrevo estas linhas, ouço o ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, dizer num canal televisivo, em tom de Calimero: “Há sinais que não são encorajadores.”
    Admirável eufemismo. Nos tempos que correm, nenhum sinal na política portuguesa é “encorajador”.
    Obrigado por esta visita e por este texto, Ana Clara.

    1. Caro Pedro, como diz e muito bem, entristece ver os nossos responsáveis políticos com sinais de «desistência», que em nada ajudam a criar ânimo. Por mim, recuso-me a desacreditar nesta classe, sei-o bem, desacreditada na nossa sociedade civil. Cabe-nos a nós, portugueses, insistir na melhoria da qualidade da nossa democracia e dos nossos políticos. Obrigada eu, Pedro, pelo convite. E parabéns pelo Delito, um dos sítios já imprescindíveis da Blogosfera!

  2. Gostei imenso do texto, até por que o que mais desejo é que se puxe bem para cima esta sociedade deprimida e sem ânimo, que se a coloque que marchar para um bom futuro. Infelizmente temo que os meus desejos dificilmente se concretizem.

  3. Nenhum dos políticos que estiveram no poder nos últimos 25 anos está isento de culpa em relação ao estado actual da nação. No entanto, e como não vale a pena chorar sobre o leite derramado – passe a frase feita – temos pouco ou quase nada onde nos agarrarmos.
    A minha opinião sobre os cortes dos rendimentos das pessoas é que é um tremendo erro, a Irlanda e outros países já enveredaram pelo mesmo caminho e não resolveram nada, pelo contrário: com mais desemprego e menos produção é impossível chegar a algum lado com sustentabilidade. estes números e índices do défice são uma pura ilusão, o que se tira às pessoas é diluído nos juros da dívida.
    O Presidente está manietado pelas leis mas não pela voz, por isso acho bem que ele fale, o que já tenho dúvidas é que isso tenha algum resultado prático!

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