Convidada: ALDA TELLES


Pedro Correia,

 

 Os heróis da retirada

 

Cualquier destino, por largo y complicado que sea, consta en realidad de un solo momento: el momento en el que el hombre sabe para siempre quien es.

Jorge Luis Borges

 

 “Não há porque não está na moda, porque na Europa não se tolera, também não há forças militares para isso – provavelmente não estariam para se maçar e meterem-se num sarilho muito grande,  mas eu temo que se cami… eu temeria que se caminhasse para uma situação dessas se houvesse forças para isso. Porque a sociedade portuguesa está muito muito descontente”

Medina Carreira, em declarações à Antena 1, no dia 27 de Maio de 2011.

 

Esta ideia de um golpe de estado em Portugal tem sido sibilada, com pudor, nos últimos meses. No sentido “mediático-democrático” do termo – passe o oxímoro – assim tem sido entendida a campanha ad hominem contra a figura de  José Sócrates, repetida ad nauseam por políticos – de esquerda e de direita, comentadores e jornalistas. De tanto repetida, a “necessária eliminação de Sócrates” parece estar prestes a atingir a sua legitimação.

O expoente máximo do processo em curso foram estas declarações de Medina Carreira que, curiosamente, ou talvez não, pouco eco ou nenhum recolheram nos meandros dos blogues e dos analistas políticos. Na realidade, Medina Carreira disse aquilo que tem estado subliminarmente plasmado na maioria dos discursos políticos: se não sair a bem, terá de sair a mal. A qualquer preço. E esta é a definição básica de golpe de estado.

O único aparente anacronismo no desejo mal contido de Medina é a invocação da necessidade de forças militares para esse golpe. Quanto ao resto, está certo. E remeteu-me imediatamente para o interessante “Anatomia de um instante”, de Javier Cercas (D.Quixote, 2010), sobre o golpe militar de 23 de Fevereiro de 1981 no Congresso dos Deputados em Espanha.

“Guinada no leme, golpe cirúrgico, mudança de rumo: era esta a temível terminologia que desde o Verão de 1980 impregnava as conversas dos corredores do Congresso, os jantares, os almoços e os debates políticos e os artigos de imprensa na pequena Madrid do poder. Essas expressões eram simples eufemismos ou, melhor dizendo, conceitos vazios, que cada qual preenchia consoante o seu interesse e que, além das ressonâncias golpistas que evocavam, tinham apenas um ponto comum: tanto para os franquistas como para os democratas, tanto para os extremistas de direita de Blas Piñar como para os socialistas de Felipe González e para muitos comunistas de Santiago Carrilho e muitos centristas do próprio Suárez, o único responsável daquela crise era Adolfo Suárez, e a primeira condição para acabar com a crise era tirá-lo do governo. (…) A partir do verão de 1980 políticos, empresários, dirigentes sindicais e eclesiásticos e jornalistas tinham exagerado até ao delírio a gravidade da situação, entretendo-se diariamente com soluções duvidosamente constitucionais que faziam vacilar o já de si vacilante governo, inventando atalhos extraparlamentares, ameaçando encravar a nova engrenagem institucional e criando uma embrulhada que constituía o carburante ideal do golpismo.”

Isto foi há precisamente 30 anos, numa Espanha ainda em processo de aprendizagem da democracia. Portugal, nessa altura, tinha curiosamente o seu processo consolidado e experienciava o seu curto VII Governo Constitucional, constituído pela coligação formada por PSD, CDS e PPM.

 

A tragédia grega é a nossa opera buffa

E enquanto a futilidade, a ambição de poder e a imaturidade grassam no país, focadas num arbusto, o nosso olhar entre o condescendente e o perplexo sobre a explosiva situação grega (“os gregos falharam” é a água que tentamos sacudir do capote) faz temer, pior que um golpe de estado, um harakiri.

Uma análise de Jorge Nascimento Rodrigues, jornalista e escritor com uma rara visão geo-estratégica de Portugal e do mundo, resume o que realmente se passa: “O que é que nos ensina a Grécia? Provisoriamente (como hipótese de trabalho) quatro  coisas: a) mesmo governos de maioria como é o do PASOK não seguram a situação; b) o modelo de plano de resgate está em falência acelerada (e por aqui ainda andam a discutir, naturalmente, o que o Poul e o BCE deixaram na versão A ou B já ecofinizada); c) a fadiga social (um eufemismo para falar do nível em que as sociedades aguentam processos de “austerização” quando não têm élan mobilizador para os suportar) acumula-se e um dia estoirará; d) como me dizia um amigo meu, se a estratégia da zona euro falhar, não “me admiraria de um dia destes ver estados falhados nas barbas da Europa”.

Golpe de estado, golpes de estado, perfilam-se de facto na Europa. Por via da falência de um sistema financeiro global e de um insustentável  modelo de (des)governo europeu  que sobre ela se abateu. Portugal, país sui generis na sua visão trágico-cartoonizada do mundo e da sua própria condição, foca-se, como a Espanha democrática titubeante de 1981, num alvo fragilizado e meramente instrumental. Eventualmente, num musiliano “homem sem qualidades”.

No fim, ficará um instante, como aquele gesto de coragem absoluta de Suárez, a única pessoa que não obedeceu às ordens dos golpistas naquele 23 de Fevereiro e não se refugiou debaixo de um assento parlamentar (esperando talvez a morte). Um gesto eventualmente absurdo, ou “um gesto de redenção individual e talvez colectiva” como o caracterizou Cercas. Esse instante acontecerá às 20 horas do próximo dia 5 de Junho. O primeiro dia de mais um resto das nossas vidas.

 

Alda Telles

16 comentários em “Convidada: ALDA TELLES”

  1. A lealdade é algo que nunca deixa de me comover.
    A comparação de Sócrates com Suarez, essa, é por demais abusiva.
    Por todas as razões e mais uma (a sua formação de base, o desempenho de cargos ainda no regime franquista, o seu posicionamento político enquanto fundador do partido Centro Democrático y Social espanhol, etc) Suarez só poderá honestamente ser comparado com Sá Carneiro.

  2. Quer a senhora explicar o que é “austeridade” quando a Grécia, Portugal só para falar de alguns têm défice. Ou seja gastam mais do que aquilo que produzem?

  3. Minha senhora, que tem a ver o posterior com o tecido que o recobre?
    Adolfo Suárez comparado ao desenhador camarário zézito?!…

  4. Muito bom.

    Deixo a Citação para os Anti-Sócrates reflectirem: “If you hate a person, you hate something in him that is part of yourself. What isn’t part of ourselves doesn’t disturb us” Hesse

    Não sei se entendem o “Ulrich”, no fundo, a única coisa que ficou inequívoca Y que esmaga de forma colossal qualquer ser que use o raciocínio para as Boas Acções Y em prole do Bem-Comun (atenção, não falo das que se mobilizam ferozmente em Torno do assambarcamento dos Bens Comuns), foi o candidato José Sócrates. 23 de Março de 2011 é o exacto nome que ficará para a História como o único Português que esteve à altura da História do País. Isto, mais do que um acto que se cola a Sócrates de forma limpa, isenta Y natural; é fardo de Humilhação, abjecção Y vergonha que pesa de Forma Notória Y que a História ecoará sobre esses protagonista, que em coutada enlouquecida acicatam, noite Y dia, televisões, rádios, páginas de Jornais, Revistas Y singelos Blogs. Esquecendo que assistimos – nós, os 10 milhões de anónimos Y de famosidade nos anais da história arredados – que se PORTUGAL TEM HOMEM com eles bem no sítio, Valente, destemido Y audaz, esse Homem foi Y é José Sócrates. Esse, o Candidato José Sócrates será – às 20 horas de 5 de Junho – reconhecido pelos seus contemporâneos ou ostracizado. A Máquina do Desespero dos homens de valores menores Y medíocres deste País não hesitou em Proclamar os seus intentos, tão contrário aos direito Humanos – mínimos Y elementares – ferindo-os sem pejo. Imaginamos a acção de que serão capazes analisado só as suas palavras. Relembro: Aristides de Sousa Mendes Definhou numa escalada de Miséria à Mercê de Portugueses! Nenhum lhe deu a Mão. Hoje, os Portugueses enchem a Boca de Aristides de Sousa Mendes, mas ao mesmo tempo DEMONSTRAM aos seus concidadãos que o que ´mesmo certo é serem Brindados com o mesmíssimo encolher de Ombros; o que lhes interessa são somente os Bens-Comuns, agora a Saldo, com o Patrocínio de um FMI.

    “WHERE IS MY VOTE?” – ESPERO QUE NÃO ME ROUBEM O MEU VOTO NO PS! NO PS DO CANDIDATO JOSÉ SÓCRATES! Um Português que incomoda muitos Portugueses de valores menores.

    1. Lamento ter ficado a saber que cerca de 70% do povo português tem valores menores.
      “Rais parta” a democracia, que insiste em determinar as coisas pela quantidade e não pela qualidade.

      1. 70 por cento? onde é que o caro foi apurar tal número? atirou a laracha para o ar… Passemos a factos, meu caro. Legislativas de 2009 – PS José Sócrates – Votos: 2 077 238 – Percentagem de votos: 36,56%. PSD Manuela Ferreira Leite – Votos: 1 653 665 – Percentagem de votos: 29,11%. Isto não são 70%. Isto é você, e mais dois ou três daqueles que ladram muito nas televisões e babam-se muito com a ganância do poder. No dia 6 falamos.

        1. Tem razão, meu caro. Fui pouco rigoroso. Disse “cerca” quando deveria ter dito o número exacto.
          Referia-me, obviamente, à percentagem dos eleitores que, de acordo com as sondagens, previsivelmente votarão num partido diferente do PS. Como as previsões relativamente ao PS apontam para CERCA de 30% (mais coisa, menos coisa), referia-me aos restantes eleitores que votarão noutros partidos (mas se gostar mais do número 69, p. ex., tb pode ser…).

          Mas para ser rigoroso, assim mesmo muito rigoroso, temos de contabilizar TODOS os que não votam no PS, mesmo que não votem em nenhum outro partido, isto é, contabilizar a abstenção.
          Nesse caso, a percentagem dos “Portugueses de valores menores” (os tais que não irão votar no PS) será então MUITÍSSIMO superior a 70%.
          Por isso, o meu pouco rigor resultou numa injustificada benevolência a favor do PS…

          Mas se quiser esquecer os últimos 2 anos catastróficos da governação socialista, como parece querer, então façamos as contas de 2009, mas com rigor:
          Eleitores: 9.519.921;
          Votos no PS: 2.077.238.
          Percentagem do PS no universo dos eleitores: 21,82%.
          Ou seja, os não votantes no PS em 2009 foram exactamente 78,18% dos eleitores inscritos (os tais “Portugueses de valores menores”).

          Não tenho livre a minha agenda para podermos falar no dia 6.
          No entanto, já lhe deixei os elementos suficientes para no dia 6 poder por si próprio avaliar qual será actualmente a real percentagem dos portugueses adultos (eleitores inscritos) que efectivamente apoiam o PS de José Sócrates.
          Boa sorte!

          P.S.: Se pensa que sou do PSD ou que sou simpatizante de qualquer outro partido, engana-se profundamente.

  5. Confesso que me vi compelido a ler o texto mais de uma vez para tentar entender a mensagem que pretende passar e não cheguei a nenhuma conclusão segura. E isto não é uma crítica a um texto que está indubitavelmente bem escrito, mas sim a confissão da minha incapacidade de cabalmente o entender.
    A curiosidade sobre o sentido e alcance dessa mensagem é a primeira razão que me leva a escrever este comentário.

    O texto aflora alguns temas que mereceriam aprofundada reflexão: o sentimento popular em relação ao Sócrates, aliás enraizado em algumas classes profissionais (que o texto apenas aborda do ponto de vista dos “políticos, comentadores e jornalistas” – e não é a essas classes profissionais a que me refiro!), e o surgimento de uma consciencialização generalizada por toda a Europa de que o projecto da UE precisa de uma urgente mudança de rumo.
    mas não é este o momento nem o lugar para essa reflexão.

    No mais, confesso que achei muita piada ao uso conjugado de várias figuras de estilo (ou de linguagem): o eufemismo no afloramento da personagem Sócrates; a hipérbole sobre as críticas que lhe têm sido feitas; a parábola da alusão à tentativa de golpe de Estado em Espanha; e o moral da história que parece redundar numa fábula.

    Analisando mais atentamente algumas dessas pérolas, saliento a expressão não personalizada de que “a futilidade, a ambição de poder e a imaturidade grassam no país, focadas num arbusto”.
    Pois bem, logo pensei nos coitados dos “boys” do PS que estão prestes a perder os tachos e que o arbusto (ou será moita?) deverá ser o local atrás do qual o “animal feroz” se esconde para defender todos esses tachos. Bem, pelo menos é uma interpretação plausível, tendo em conta que o texto a consente e a realidade o demonstra.

    Outra dessas pérolas é a qualificação do Sócrates como «alvo fragilizado e meramente instrumental. Eventualmente, num musiliano “homem sem qualidades”.»
    Na verdade, nunca me ocorreu ver o Sócrates como frágil. Por isso, fui relembrar a definição desse termo e obtive o seguinte resultado: “Quebradiço; Efémero; Fraco; Sujeito a delinquir; Que necessita de cuidados para se conservar.” (Dicionário Priberam). E logo percebi o sentido e alcance dessa adjectivação, bem como a sua justeza.
    Mas é um erro considerar tratar-se de um alvo “meramente instrumental”. Concedo que os políticos seus adversários o considerem instrumentalmente como um alvo para poderem aceder ao poder. Mas a animosidade popular ao sujeito nada tem de instrumental, mas sim do mais genuíno e interiorizado que se possa imaginar, fundada que é na infelicidade que tem causado.
    No que concerne ao “musiliano”, é um autêntico exagero. O homem tem, evidentemente, qualidades. Embora essas qualidades radiquem essencialmente numa questão de subjectividade (isto é, de relatividade entre a realidade ontológica e o devir). De resto, do ponto de vista da sua conduta pessoal, há imensos exemplos da sua eficácia e do seu êxito. Basta atentar na sua capacidade de obter diplomas, de escapar ao estatuto de arguido, de silenciar os seus ministros, de obter a quase unanimidade do seu partido, de dizer o que não é como se fosse, de transformar em ser aquilo que não é, etc.. Enfim, os seus êxitos pessoais não têm conta. E, no entanto, é frágil. Pois, tal como um animal feroz, tb ele é efémero.

    Por fim (que isto já vai mais longo que o previsto!), achei verdadeiramente revolucionária a simbologia da comparação entre o golpe de Estado espanhol e o próximo resultado eleitoral em Portugal. Fez-me acreditar que a democracia é uma verdadeira ditadura do povo e que o voto tem mais força que uma G-3!
    Só fiquei foi com dúvidas se é suficiente que a caça a um “animal feroz” se faça apenas através das urnas…

  6. Gostei de contar com a sua colaboração ainda antes do termo desta rubrica, Alda. Os textos polémicos são sempre bem-vindos. Ou não se chamasse esta blogue precisamente DELITO DE OPINIÃO.
    Obrigado. Um beijinho.

  7. Eu estou estupefacto, Alda. Se é certo que o ódio contra Sócrates grassa em labaredas difíceis de conter, abarcando uma enorme maioria transversal à nossa sociedade, foi ele o incendiário contumaz, foi ele a altivez ufana, foi ele o desprezivo actor do logro quotidiano, do ludíbrio massificado, da manipulação grosseira, absurda e fracturante, pejando o nosso caminho com todos os espinhos e com todas as mentiras imagináveis e inimagináveis.

    Os que, como tu, neste artigo, vêm contar historinhas da carochina para, com um desvio de 180º lhe respaldarem as responsabilidades e lhe santificarem o trajecto, minimizando o peso de tão grosseiras malfeitorias contra o nosso estado geral, funcionam como meros coadjuvantes do referido pirómano político.

    Por mim, o escândalo torpe que o socratismo constitui, a vergonha funda que encerra, a imoralidade desleal de que está prenhe, terão de ser removidos pela raiz e um País a sério, bem informado e bem lúcido, sem quaisquer medos, fá-lo-ia remetendo esse partido daninho a uns expressivos 10 ou 11%.

    Outros interlocutores eleitos, quaisquer sejam, hão-de respeitar-nos e escutar-nos a sério, hão-de ser absolutamente mais transparentes e leais para connosco. E é esse, dia cinco, o grande começo de conversa para o que de terrível e socialmente convulsivo possa vir. Afinal, a tarefa de compor os cacos do Estado Português nunca poderia caber ao desastrado elefante político que se nos insinuou, tirânica e absolutistamente, nos últimos seis anos perdidos.

    1. Boa tarde
      ..” Outros interlocutores eleitos, quaisquer sejam, hão-de respeitar-nos e escutar-nos a sério, hão-de ser absolutamente mais transparentes e leais para connosco.” É exactamente o conceito que encerra esta frase, que me fez afastar dos “amanhãs que cantam..”.

  8. Li este post e fui ler o livro.

    São (os dois) os melhores comentários a toda esta desgraçada tragédia – a vista e a anunciada -. E o post com a vantagem de ter percebido e feito perceber genialmente como as farsas se montam sobre a repetição das tragédias. E como é indigente a redução da leitura do que Alda Telles diz a um panegírio à árvore Sócrates, sem atentar na floresta Portugal e todos nós

  9. Desunham-se no pró e pós socratismo, nas comparações e subversões, nos idealismos seródios, nos pragmatismos exacerbados.Leio-vos a todos como sendo disléxicos, órfãos do querer por demais, anfíbios em deserto soturno.A profusão de ideias e pontos de vista é um telhado sem casa, um tecto de colmo em praia turbulenta.Aquietem-se e façam o vosso Dia, ensoleirem a vossa Vida, Resolvam-se com as pequenas e banais fúteis coisas.Amem-se também nas Palavras.Proibam-se no confronto estéril destas ideias asexuadamente políticas.

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