
Depois de alguma leitura e muitas séries de TV, o sentimento de inutilidade instalou-se-me pesadamente no espírito e no corpo. Quanto menos fazia, menos me apetecia fazer. Comer, surfar o sofá e ver a família no tablet… farniente começava a não fazer qualquer sentido.
A casa de brincar da neta deu o mote e a partir daí demos largas à imaginação; fizemos 50 postais, uns a raiar o kitsch, outros mais compostos, qualquer coisa de BD, caricatura burtoniana, loucura canastrona, sei lá, quase um por dia, exceptuando aos fins-de-semana.
Foi muito engraçado. Muita gente riu e chorou a rir. Amigos, amigos de amigos, conhecidos e estranhos enviavam mensagens com sugestões no género de “discos pedidos”, muitos quadros eram exequíveis e realizados, outros nem por isso, mas a sua louca idealização foi motivo de muitas gargalhadas.
Eis-nos então chegados ao vigésimo sexto dia do mês de Maio de 2020, 71.° dia de confinamento. Pela primeira vez desde que foi declarado o estado de calamidade iríamos ter a neta, a fã número um das nossas produções, a passar o fim-de-semana connosco e a ter uma participação especial – a actriz convidada – nos projectos.
Chegou. Estava excitadíssima e apesar de confidenciar que gostava mais de papéis femininos, acedeu a representar o meu guerreiro gaulês favorito.
Sabes avó, tenho receio de não fazer bem esse personagem. Eu nem sei quem é o Asterix! Anda lá então aprender um bocadinho, que um bom actor tem de conhecer bem quem vai representar.
Sentámo-nos com o último livro no colo. Então… o Asterix é um valente guerreiro de uma aldeia situada numa terra chamada Gália (que agora se chama França, já ouviste falar de França. Já!). Ele e os outros habitantes protegem a aldeia e não deixam que os palermas malvados dos romanos os conquistem. O Asterix é um homem pequenino… Um homem pequenino? Sim, mais pequeno do que a maioria dos homens. Assim como o Mateus? Maior do que Mateus. O teu colega Mateus é um menino. Percebi-lhe alguma confusão. Por muito pequeno que um homem possa ser, é sempre enorme na perspectiva de uma criança de cinco anos. Então… o Asterix é um baixinho muito valente e forte e tem um grande amigo, que é o Obelix, o gordo comilão. Como o mano? Mais ou menos, ele é comilão, mas este é grande, forte e barrigudo. Consegue comer um javali inteiro com duas dentadas. Riu com gosto enquanto folheava o livro e fazia perguntas sobre os personagens conforme iam aparecendo. E depois há o Panoramix, o druída, que é uma espécie de mágico e faz caldeirões com poção mágica para dar força aos aldeões e os tornar invencíveis. Quando souberes ler, havemos de ler todas as aventuras de Asterix, queres? Está bem! Resumindo, o Asterix é o gaulês mais importante de todos e és tu quem vai representá-lo. Achas que consegues? Acho! Então vamos lá.
Depois de um almoço ligeiro, começámos a preparar o set e a caracterização, alinhavou-se o guião, Acção! Depois fomos editar a foto com a bonecada que se impunha, enquanto a curiosidade esvoaçava à solta como um pé de vento doido e as perguntas choviam loucas como um aguaceiro tropical. Avó, fico tão estranha com o bigode e a peruca!
Olhava sorridente para a foto. Se calhar devia ter tomada poção mágica, avó. Estás óptima, neta! Olha, ajuda o avô a tirar a barba! Avô, quase que pareces o Pai Natal, mas sem presentes! Gostaste, neta? Gostei! Mas, sabes, avó, estou aqui a pensar que era muito engraçado fazermos o Peter Pan e eu ser a Sininho. Também acho; fazemos da próxima vez, está bem? A próxima vez pode ser amanhã? Amanhã? Mas a avó não preparou esse filme, neta, nem sei se temos adereços. Vá lá, eu ajudo, vai ser tão divertido!
Como dizer que não?

Sou colega de uma prima sua, Maria Dulce e segui os seus filmes todos no face.
Creatividade genial e os com a netinha são os melhores, parabéns
Cila
Obrigada , Cila.
Espero que se tenha divertido rtanto a ver os projectos, como nós nos divertimos a realizá-los.
Bom Agosto.
Está tão magrinha coitadinha. Tem de papar a sopinha do cozido no caldeirão do Panoramix. Obélix está muito bem,que Binhais e Chaves lhe num faltem.
Bolota de Quarentena, Anónimo, da melhor que há para a engorda!
Cada bicho com seu prato. A um a boleta a outro as carnes .Boletas a sul, nabos e couve e batata e abóbora e aveia mais a castanhinha lá para o Bísaro do Montesinho , olhe em Dgimonde, Assim se apuram o salpicão,o butêlo, o presunto,os veros torresmos , ladeados de grelos e batatinha para compor o prato do outro bicho.
Altar doméstico é devido ao divino reco.
Tenho pena que a linguagem do meu neto de 4 anos, em termos de banda desenhada, seja a dos canais de TV. É o capitão América, é isto e aquilo que eu não consigo acompanhar, pois a minha linguagem é a dos livros. Mas não perdi a esperança de lhe ler a colecção do Asterix, como o está fazer à sua neta. Obrigado pela delícia do post.
Também não conheço muito destas coisas de agora dos canais para crianças. Felizmente esta minha neta é muito curiosa . Vi com ela este ultimo filme Tin Tin do Spielberg… dobrado , mas teve que ser, e fartámo-nos de conversar durante o filme todo. Ainda se lembra de tudo ! E melhor, sempre que passa pela estante onde tenhoos livros , diz que assim que souber ler, vai lê-los todos. Pode ser que sim, alentejanus, pode ser que sim.