De que adianta querer controlar o mundo se tão pouco conseguimos controlar os nossos próprios impulsos?
Controlar é uma condição inerente a qualquer ser humano. Somos, em doses variáveis, controladores, manipuladores e obsessivos, mas gostamos de tingir estas características menos positivas com uma lata cheia de obstinação, a que invariavelmente apelidamos de personalidade forte.
Desde pequeninos que nos ensinam que temos de ocupar o nosso lugar no mundo, como se este fosse demasiado pequeno para o tamanho dos nossos desejos e ambições. Os valores fundamentais como a partilha, a solidariedade e a compreensão são sinais de fraqueza que só mais tarde, em idade adulta, nos entram pela porta adentro mascarados de homens de boa-vontade que lutam pelo seu semelhante. É mais uma moda que uma crença.
O controlo é apenas uma consequência da vivência mesquinha a que somos instigados desde a infância. Controlar o que se come para ter um corpo esbelto, controlar o que se veste para ter uma aparência decente, controlar o que se diz para ser considerado uma pessoa culta, controlar o que se faz para ser tido como uma pessoa educada. Pouco se tem dito sobre controlar a desonestidade, a falta de civismo, a mesquinhez, e até a avareza, porque o que se controla está à superfície e não na profundidade dos nossos sentimentos.
Tenho pensado algumas vezes que gostava de controlar o tempo para poder assimilar com maior clareza as consequências dos meus actos, mas o impulso é incontrolável e só o trabalho diário, perseverante e consistente consegue alinhar dentro de cada um de nós o que racionalmente sabemos que nos faz bem. Controlar tudo e todos os que nos rodeiam é um trabalho inglório, que nos desgasta e deprime, porque só quando conseguimos entender o que estamos a sentir somos capazes de aceitar e libertar as amarras que nos oprimem e limitam a nossa felicidade plena.

O Pedro Correia sempre teve bom gosto, e tu demonstras com a tua escrita. Bem haja aos dois
Pela minha parte só posso agradecer o elogio, Jorge.
A “partilha, a solidariedade e a compreensão” obrigatórias – apesar da contradição entre compreensão e as outras- são valores que “controladores, manipuladores e obsessivos” querem obrigar os outros.
Sim, pode haver compreensão com quem não partilha nem é solidário.
A mesma compreensão que há com os bichos.
E impor humanidade aos bichos parece contraditório. De acordo.
Portanto quem não concorda consigo é um animal.
Já se sabia que todos os socialismos quando vamos ao fundo da questão é assim que julgam. Mais uma demonstração.
A conclusão é sua.
Não conhecia nenhuma corrente partidária ou social que esteja contra
“partilha, a solidariedade e a compreensão”
parece-me uma novidade nas relações humanas.
Cara Joana,
Controlar o que nos rodeia é parte do que nos faz humanos. Controlar é colocar o racional acima do irracional, o (neo-)córtex primeiro que o cerebelo. A questão aqui é controlar o quê e para quê.
O instinto natural do ser humano (todos os seres, aliás) é egoísta. Rosseau estava errado com o “bom selvagem” e William Golding correcto com o “Senhor das Moscas”. Quem tem filhos pequenos e os vê crescer rapidamente se apercebe que o desenvolvimento da personalidade e a educação faz-se, em grande parte, a contrariar desejos, a minimizar egocentrismos.
No entanto, socialmente, a nossa sociedade infantilizou-se. Trocou-se o fazer o que é correcto pelo fazer o que nos (aparentemente) faz feliz. Quando os “Founding Fathers” dos Estados Unidos da América escreveram a declaração de independência face ao Reino Unido e incluíram esta famosa frase –
“We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.”
– foram efectivamente longe de mais (se não em espírito, pelo menos na letra) e essa ideia, que fez caminho pelo liberalismo de John Stuart Mill, acabou por ter alguns efeitos perniciosos ao centrar tudo, excessivamente, no individuo.
Esquecemos que estamos aqui para fazer o que é correcto, o que é adequado, para viver uma vida boa (εὐδαιμονία) e não para ser animalescamente felizes. Porque a felicidade animal é comparativa e passageira (somos felizes em comparação com a infelicidade e, ao contrário do que diz, não existe nem pode existir “felicidade plena”), enquanto um vida bem vivida, preenchida, com alegrias e mágoas, é absoluta e ficará marcada nos que cá deixamos quando partimos.
Noto só que a “felicidade plena” pode ser entendida como a compreensão “plena” de como a felicidade individual depende e limita a dos outros.
Apreciei muito o seu comentário. Por exprimir ideias e fazê-lo com clareza invejável. É isto que faz falta na vida nacional: discutir ideias com base em argumentos e com elevação.
Concordo.
Também faz falta conhecimento de grego aos comentadores e da situação grega nas decisões.
Não sei Grego. Nem Russo, nem Mandarim.A penas domino sofrivelmente três línguas para além da materna. Aliás, o Grego praticamente desapareceu do Ensino Secundário. E não percebo como é que não saber Grego diminui a minha capacidade de opinar sobre um post e respectivo comentário.
Parece que há um campo de batalha aqui.
Tal como você estava a parabenizar o comentador (que sabe grego).
Muito bem-vinda aqui ao DELITO, Joana.
Bem-vinda, Joana! Bons Delitos por cá
Parebenizo-a pelo post, pelo que vai explícito e também pelo implícito. De certa forma a nossa educação pauta-se para que tenha uma expressão mediática, dita funcional e utilitária: na relação com a família, com os vizinhos, com os colegas, em resumo, com o grupo.
Esta corrente, em nome da norma e “boa relação”, levou a que o grupo subordinasse o indíviduo. Por isto mesmo ninguém se espante que a causa da frustração, do controlo, da manipulação, da obsessão e até mesmo da compulsão também possa residir na falta da expressão do indíviduo ou da individualidade.
Em grande medida a educação e/ou a herança educacional é falsamente competitiva, uma vez que se transforma em comparativa e normativa: comparativa nos trajes, comparativa nos ditos bens de consumo, comparativa no look, comparativa na acção (incluindo no meio empresarial) e comparativa até mesmo nos traços ditos de personalidade. No que respeita a este último pormenor, o dos traços de personalidade, quando a diferença existe, porque notada, ela perturba (com excepção para a diferença que depende), e perturba na medida em que o grupo compensa-se com o elogio, ainda que muitas vezes falso, e os traços de individualidade desfocam do comum para o diferente. Não raras vezes, ou sempre, como perturba, a tendência é exactamente voltar a “incluir” no que é diferente o traço de personalidade comum. Surge o insulto, a difamação, a distorção, em resumo, os atributos que o grupo por intuição reconhece como falso são imputados no que é diferente para que se transforme perante o grupo aquilo que o grupo já considera, isto é, uma ameaça. Geralmente esta atitude, que é assumida pelo grupo, tem sempre a raíz na perturbação daquele que se presume ou considera líder, que diz proteger o grupo por essa mesma acção.
Mas até mesmo na relação pessoal quando a afirmação é pretensamente, porque se sente, impedida pela diferença o traço comportamental é o mesmo que em grupo.
Todavia, a felicidade plena é um conceito abstrato, porque como o homem é gregário o indíviduo nunca prescinde do grupo, mas quase sempre é prescindido por este. De maneira que o egoísmo que é atribuído ao indíviduo é mancha que faz parte do grupo.
A melhor maneira de controlar o tempo é usar o tempo como meio para adiar a compensação.
Bem-vinda ao clube delituoso, Joana. Muitos e bons posts como este, sem nenhum controle (de quantidade, porque de qualidade nem é preciso dizer).
🙂