Contra as alterações climáticas


José Meireles Graça,

Quando a Gronelândia foi descoberta por um norueguês de nome impronunciável, nos alvores do séc. X ou por aí, a temperatura no sul da ilha era superior à actual. No resto do planeta era o mesmo: temperaturas iguais ou maiores do que as que hoje temos, se bem que a coisa não fosse durar muito (mais dois ou três séculos), como consequência dos esforços das autoridades de então contra aquele aquecimento global.

Érico o Vermelho (assim crismado por causa da cor do cabelo, não porque tivesse inclinações comunistas) aí estabeleceu o primeiro assentamento europeu, perto do fim do mesmo século e, muito tempo volvido, os colonos deram à sola, que estava um frio que não se podia e as couves tinham uma grande dificuldade em medrar.

Sobre o nome da terra há várias teses, a que mais aprecio sendo que “Terra Verde” decorria do facto de ser intensamente verde, fenómeno que bem pode voltar a ocorrer se a tendência actual de aquecimento se vier a robustecer.

Medir a temperatura parece, mas não é, uma coisa simples, as medições sistemáticas são relativamente recentes, séc. XIX, e ela, infelizmente, não evolui em toda a parte da mesma maneira. De modo que para obviar a estes inconvenientes se cunhou a expressão “alterações climáticas”, que tem a grande vantagem de cobrir qualquer fenómeno que pareça anómalo (cheias, tufões, canículas) e inclusive contrariar aquele bordão melancólico de todos os velhos, segundo os quais já não se faziam tempestades como antigamente.

Pois bem: Lamento informar que o meu quintal está um lamaçal cheio de poças, que a chuva não dá mostras de abrandar, que os vidros se apresentam pudicamente embaciados e que, como se tudo isto não fosse suficiente, está um frio de rachar.

E estes factos, e estas considerações, servem para me confessar um fervoroso adepto do aquecimento global, rejeitando portanto a deriva demagógica das alterações climáticas.

Dir-se-á que a perspectiva de morrermos todos assados, afogados ou de sede, não é exactamente aliciante.

Porém, lembro que o ar condicionado combate com eficácia o calor; que mal posso esperar para comprar uma casa à beira-mar logo que os respectivos preços comecem a baixar por causa da subida do nível das águas; e que as moléculas de água não vão diminuir, donde confio na técnica, e na engenharia civil, para a ir buscar onde a há, depurando-a se for preciso.

Estas são as horas em que normalmente vou dar o meu extenso passeio a pé. Tenho um impermeável que faz jus ao nome, mas por isso mesmo me despeja sobre os pés verdadeiras cataratas, não me vendo a caminhar de galochas.

Daí que consigne neste recanto as minhas queixas e a minha fé.

19 comentários em “Contra as alterações climáticas”

  1. “Érico o Vermelho (assim crismado por causa da cor do cabelo, não porque tivesse inclinações comunistas) …”, esta é mesmo para não assustar as criancinhas.
    Mas nunca fiando, convém repetir ‘meninos e meninas não se assustem, no ano de 980 vermelho não queria dizer comunista nem jogador do Benfica’

  2. Certíssimo. A Gronelândia foi descoberta durante o Período Quente Medieval que durou cerca de 400 anos, de 900 a 1300. Foi a ocorrência desse período quente que tornou a Gronelândia habitável para os seres humanos. A Pequena Idade do Gelo, o período frio que se seguiu, acabou com aquela civilização.
    O extraordinário podcast The Fall of Civilizations explica como esta e outras civilizações terminaram (muitas devido a este tipo de flutuações climáticas). É uma das melhores séries documentais que tive a oportunidade de ver (sobretudo nos tempos que correm). Fica a sugestão.
    fallofcivilizationspodcast.com

    1. Se não tivesse havido extinções de populações, agora éramos muito mais de 8 mil milhões. Já imaginou? Eu não quero imaginar a miséria que seria porque isto não chega para todos. É certo que os gajos do PS safam-se sempre juntamente com os seus descendentes e seria injusto para eles serem apanhados assim na curva logo na altura em que os tribunais (que por sinal também são do PS) não os conseguem apanhar, mas está na hora de haver outra coisa assim de grande calibre que limpe metade da cambadinha que anda por aí pela superfície.

      1. “…em que os tribunais (que por sinal também são do PS) ….???
        Mas as Faculdades de Direito sempre foram um “cóio” de filhos de gente de bem.

        1. Isso era dantes. Não vê que agora até os juízes, que têm dever de recato, dão entrevistas, palpites, investem no Benfica, escrevem acordãos moralistas, mostram as casas por dentro. A vaidade já não mata?

          Os problemas da justiça começam precisamente na forma popularóide e grotesca como hoje sabemos quem os juízes são.

      2. “Eu não quero imaginar a miséria que seria porque isto não chega para todos”.
        Pode ser que sim, pode ser que não. Não podemos saber. Talvez algum dos descendentes dessas populações extintas tivesse descoberto um tipo de energia realmente limpa, ou algo que lhe valha. E a vida na Terra seria hoje muito melhor.

        1. A energia limpa, eterna e gratuita, sabemos qual é. A fusão a frio. Só que permanece uma possiblidade meramente teórica. É interessante como há partes do pensamento que resistem à materialização — e são precisamente as que salvariam o mundo e a humanidade da sua condição.

    2. Julga-se que aquela pequena idade do gelo na Europa no séc XVI-XVII se deveu ao fumo um extenso e duradouro incêndio nas florestas dos Apeninos, na América do Norte, ateado pelos colonos para arranjar zonas de pasto para os animais que iam criar.

      1. “…se deveu ao fumo um extenso e duradouro incêndio nas florestas dos Apeninos, na América do Norte, ateado pelos colonos…”
        Essa teoria ainda não tinha ouvido. Parece-me muito convenientemente woke.
        Entre as causas normalmente apontadas incluem-se variações da actividade solar, variações na órbita da Terra, erupções vulcânicas excepcionais, alterações nas correntes marítimas, e até a diminuição da população devido à peste negra. Até porque a tendência de arrefecimento começou bem antes do século XVI.

        1. Eu só conheço a tese de um vulcão no México ter provocado o arrefecimento no Hemisfério Norte.

          Mesmo que essa tese das terras de pasto fosse real, que a desflorestação tivesse sido por queimadas não faz sentido nenhum. Os americanos, que não são estúpidos como nós e não destroem riqueza sem sentido, certamente dariam uso às madeiras. As cidades enormes da costa Este precisaram de muitas madeiras.

  3. :))) Gosto tanto de galochas. Por que será que os homens não as querem para si?! Nunca vi nenhum a passear com elas senão por motivos de trabalho.
    Quer calor? Mas não se pode ter calor no inverno, o que acontece sempre ou quase sempre é haver frio e chuva no inverno, já dizia Aristóteles. Suponho que ainda sem aquecimento global e sem ser meteorologista.

  4. “…mal posso esperar para comprar uma casa à beira-mar …”.
    A outra hipótese, a considerar, é comprar já uma casa baratinha, mesmo a muitos kilómetros do mar, desde que com uma cota aí pela meia dúzia de metros. Na encosta a poente, ou na a Sul isto nos “Allgarves”.
    Segundo os peritos do clima, alunos da cientista Greta e quejandos, de aqui a dois ou três anitos tem o seu chalezinho à beira mar e a bom preço.
    Pode pedir garantia para esta hipótese mas desconfio que ninguém, nem mesmo a ONU, lha dará, apesar de tanta música.

  5. está um frio de rachar

    Talvez. Mas este outono (e fim de verão) tem sido anormalmente quente em grande parte da Europa Ocidental, incluindo na maior parte de Portugal. Este outubro foi dos mais quentes desde que há registos em Portugal.

    1. as estatísticas são como todas as previsões, incluindo as meteorológicas.
      não têm conto as probabilidades que li e ouvi nos últimos 70 anos: nos anos 70 ‘venderam’ nova glaciação, como quem vende hortaliça no Mercado do Bolhão
      ‘não me riso ter com posso’

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *