Contra a lei de Talião


Pedro Correia,

Depois da Ucrânia, a Moldávia. Depois da Moldávia, os estados bálticos: o direito internacional pode ser hoje violado a todo o momento, na Crimeia ou noutro quadrante, porque já houve muitas violações no passado. Fantástica tese, que vou vendo repetida até por gente que me habituou a argumentar com inteligência noutras ocasiões.

Subjaz a este raciocínio que não devemos colher qualquer ensinamento dos erros — e até dos crimes — anteriormente cometidos. Esta visão do mundo que justifica as arbitrariedades presentes pela ocorrência de arbitrariedades passadas condena a Humanidade a uma eterna pena de Talião: olho por olho, dente por dente. E absolve de antemão futuros agressores, alegando que também eles terão sido vítimas. Ou, se não foram eles, terão sido os pais. Ou os avós.

Nada é para mim tão inaceitável como esta equivalência moral que alguns pretendem estabelecer entre quem agride e quem é agredido. Com estas premissas será sempre possível justificar as maiores atrocidades — em qualquer época, em qualquer lugar.

A civilização começa no preciso momento em que recusamos com firmeza a lei de Talião e nos demarcamos sem ambiguidades de todos quantos a praticam, seja sob que pretexto for.

Foto Reuters

8 comentários em “Contra a lei de Talião”

  1. O Pedro está a delirar, qual Dom Quixote? Onde está a lei de Talião? Onde está o “olho por olho”?
    A sra Gibrauskaité, digna presidente da Lituânia, também está a delirar. Alguém a ameaçou? Porque imagina ela que a Rússia lhe quererá fazer mal?
    Já agora, não foi a Lituânia quem, precisamente, através do seu ministro dos Negócios Estrangeiros, há algum (pouco) tempo ameaçou cortar o acesso terrestre da Rússia ao seu enclave de Kaliningrad?
    Quanto à Moldávia, há já muitíssimos anos que a Transdnístria é um país de facto independente. Tal como a Abkházia e a Ossétia do Sul, e tal como muitos outros países por esse mundo fora (exemplos: a Somalilândia e a Puntlândia). A Rússia não precisa de interferir para mais nada…

  2. o direito internacional pode ser hoje violado a todo o momento […] porque já houve muitas violações no passado

    Acho que ninguém expendeu tal argumento.

    O que algumas pessoas, eu por exemplo, disseram, é que alguns países que no passado recente violaram grosseiramente o direito internacional – especialmente numa guerra bárbara contra a Sérvia – não têm agora o direito de se queixarem de que outros também o violam.

    1. Ora aí está o que eu dizia. Para se justificar e “compreender” a agressão actual invocam-se casos precedentes.
      Como dizia Gandhi, “olho por olho e o mundo acabará cego”.

  3. É simplesmente saudades da Rússia Comunista, um dos regime mais assassinos ao cimo da terra.

    O facto de a Rússia hoje ser mais Fascista hoje que Comunista não conta para pessoas emocionalmente ligadas a ela para toda a vida.
    A fonte do pecado é o Capitalismo localizado na América.

    1. Não sei definir o regime de Putin, nem isso me interessa. Sei que a Rússia está muito longe de ser democrática. Para mim a clivagem que conta é entre democracia e ditadura, tenha a ditadura a cor política que tiver. E não podemos considerar democrático um país onde opositores políticos e jornalistas incómodos aparecem subitamente mortos, como sucede na Rússia.
      Putin é hoje agressor na Crimeira. Como, num passado recente, foi agressor na Chechénia. Procurar justificá-lo porque antes dele houve muitos outros agressores, noutras circunstâncias, é ser conivente com um político que viola o direito internacional para procurar desviar as atenções de graves problemas internos, mostrando musculatura com um vizinho em inferioridade demográfica e militar. No fundo, estamos perante o darwinismo transposto para as relações entre estados: só os mais fortes pontificam.
      Curiosamente, alguns dos que por cá dizem detestar a lei da selva transposta para o domínio das relações internacionais são os primeiros a aplaudir a política de canhoneira do novo czar. Dois pesos, duas medidas. Já estamos habituados…

      1. Sim mas é isso que acontece quando é a Rússia. O Lebensraum russo é reconhecido por boa parte das pessoas de esquerda como legítimo.

        Quando é a Russia as discussões transformam-se, passam a ser sobre os direitos legítimos dos “interesses” russos.
        Esta é uma das raras ocasiões em que a palavra “interesses” deixa de ter conotação negativa na boca da esquerda.

  4. Entretanto em outras notícias:

    “A French-built helicopter carrier Vladivostok has set sail from the French Atlantic port of Saint-Nazaire on its first sea trial. The warship is part of a 1.2-billion-euro deal ($1.6-billion) that marked the biggest-ever sale of NATO weaponry to Moscow.”

    http://defense-update.com/20140306_vladivostok_mistral.html

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