Em França, o plano de reformas do ministro da Economia está debaixo de fogo. Como seria de esperar, entre os mais críticos contam-se inúmeros socialistas. Martine Aubry, presidente da Câmara de Lille, escreveu um artigo no Le Monde atacando a ideia de permitir a abertura do comércio durante 12 domingos por ano, em vez dos actuais 5. Pergunta ela: Queremos fazer do consumo – ainda mais do que hoje – o alfa e ómega da nossa sociedade? A esquerda não tem mais a propor como organização da vida do que o passeio dominical ao centro comercial e a acumulação de bens de grande consumo? (Tradução minha.)
É sempre enternecedor ver gente defendendo a imposição de comportamentos saudáveis, protegendo as massas da irresistível pulsão para a mediocridade que, sem regras definidas por espíritos mais elevados, as tende a dominar. Aubry talvez devesse perguntar aos 10% de desempregados franceses se preferem continuar nessa condição ou obter uma hipótese extra de arranjar emprego, ainda que correndo o risco de ele abranger alguns domingos por ano, mas, para paladinos do mundo como ele devia ser, esta é uma questão que nem se coloca. Para estas pessoas, o desemprego não se combate criando empregos imperfeitos. (Que eu não conheça outro género só pode constituir uma falha na minha experiência de vida.) E se é verdade que um aumento de 7 domingos por ano não diminuiria significativamente a taxa de desemprego, suponho que permitir o trabalho em 22, 32, 42 ou – gasp – 52 seria ainda mais inaceitável.
Seja como for, a presunção nem é o aspecto mais curioso de tudo isto (já se sabe: os socialistas adoram tomar decisões pelos outros). O mais curioso é haver gente (quase invariavelmente de esquerda, quase invariavelmente com capacidade de consumo muito acima da média) que contesta esta terrível sociedade consumista mas também exige o estímulo da economia através de políticas de incentivo ao consumo. Decididamente, a lógica é uma batata. Subsidiada pela PAC.

JAA:
Um «post» um bocadinho deprimente relativamente ao que nos habituou.
E com contradições nos seus próprios termos.
Repare bem se a lógica com que critica não é a mesma com que pode ser criticado pelo que afirma.
M. S.:
Vejamos então:
1. Não defendo políticas de estímulo ao consumo que passem pelos governos ou bancos centrais – excepto se se tratasse de uma redução de impostos (que também aumentaria a possibilidade de poupança) mas esta obrigaria a cortes na despesa pública;
2. Sou favorável a sistemas fortes de regulação das entidades financeiras, que exijam garantias de capital, provisionamentos adequados e avaliações exigentes do risco do crédito concedido (tudo coisas que diminuem a capacidade global de consumo);
3. Nada tenho contra a possibilidade do comércio estar aberto ao domingo, ao sábado ou entre as duas e vinte e oito e a três e doze da manhã do dia 29 de Fevereiro;
4. Acho que a forma como cada indivíduo gasta o dinheiro que obtém só me diz respeito se, mais tarde, o Estado exigir que eu ajude a compensar-lhe os erros de avaliação (mas já ficava satisfeito se o Estado não me obrigasse a pagar de forma tão pesada os seus próprios erros de avaliação);
5. Até posso considerar que a sociedade actual é demasiado consumista (sendo que cada um de nós tem categorias de consumo que vê como benignas) mas, ao contrário de Aubry, não pretendo que a minha opinião seja fixada em lei.
Se quiser ver aqui contradições, esteja à vontade.
E permita-me um conselho: não vale a pena criar expectativas demasiado elevadas a meu respeito. 🙂
JAA:
Não costumo criar espectativas nem demasiado nem pouco elevadas em relação a ninguém, muito menos quando não conheço pessoalmente o visado.
Limitei-me a avaliar um texto por comparação com os anteriores que costumo ler com muito agrado.
Tão só isto!
Veja o seguinte:
1 – «É sempre enternecedor ver gente defendendo a imposição de comportamentos saudáveis, protegendo as massas da irresistível pulsão para a mediocridade que, sem regras definidas por espíritos mais elevados, as tende a dominar.»
A posição completamente contrária também induz certo tipo de comportamentos, ou não?
As decisões dos poderes públicos, sejam de que tipo for, que acabam por ter reflexos na organização da sociedade, ou são inócuas?
Parece que sim mas apenas para uma parte delas, as pertencentes a um determinado tipo de matriz ideológica.
As outras seriam dirigistas.
2 – «Aubry talvez devesse perguntar aos 10% de desempregados franceses se preferem continuar nessa condição ou obter uma hipótese extra de arranjar emprego,»
Por absurdo (absurdo dos absurdos, apenas válido para exemplificação argumentativa) poderíamos dizer que construir fábricas para produzir veneno ou armas letais a eito promoveria o emprego directo e o indirecto (cangalheiros, coveiros, etc.)
3 – «os socialistas adoram tomar decisões pelos outros». Volto ao 1.º ponto: a «não intervenção» não é uma forma diferente de intervenção?
E não produz efeitos?
Penso que, no caso, não deveriam ser alvo critica as declarações genérica de Aubry, antes a «regulamentação» concreta que ela nos propõe.
1 – Todas as decisões têm consequências e, no limite, tanto as regras como a falta delas podem constituir (ou, no segundo caso, potenciar a) violação de liberdades individuais. Mas prefiro um Estado que se concentre no essencial (garantir ao máximo essas liberdades) a um que ache necessário definir onde as pessoas devem ir ao domingo.
2 – Caramba, convenhamos que só mesmo por muito absurdo. Apesar de haver quem pareça defender a necessidade de uma guerra ou revolução ou similar, porque tal permitiria depois aplicar políticas de investimento público.
(O facto de eu considerar que a economia mundial não tem margem para garantir o nível de crescimento necessário para manter os níveis de rendimento e o Estado Social tal como eles estão na Europa não significa que me vá opor a medidas sem efeitos negativos visíveis que – muito, pouco ou quase nada – melhoram as hipóteses.)
3 – Não exactamente. Ninguém está obrigado a ir passear no centro comercial ao domingo. Em França, porém, está proibido de o fazer porque os políticos entendem que as pessoas devem ir passear noutros sítios. Se os centros comerciais fossem lugares tóxicos, eu entendia. Mas aí também não se podia lá ir durante a semana.
E depois há a contradição. Os socialistas querem ou não querem um aumento do consumo?
Os socialistas querem ou não querem um aumento do consumo?
Querem, mas uma liberalização dos horários do comércio não induz aumento do consumo. Se as pessoas não tiverem dinheiro para gastar, podem ir passear para o centro comercial mas nada compram.
É o que se passa em Portugal. O comércio está aberto a toda a hora, mas as compras nem por isso são maiores. Até temos montes de lojas de bangladeshis e chineses abertas ao domingo e à noite, mas nem por isso se compra mais.
Luís:
Isso é possível, com certeza. Não havendo dinheiro – ou crédito-, não há consumo. Mas releia as duas frases que traduzi: é Martine Aubry – socialista – quem faz a ligação e se horroriza com a hipótese da sociedade baseada no consumo. Se partisse daí para criticar as posições do próprio partido, eu entendê-la-ia. Mas, aparentemente, quer algo e o seu contrário.
JAA:
Apetece-me dar um salto no escuro.
Tenho um filho a estudar na Holanda há bastante tempo, país miserável, com as contas públicas sem controlo, uma vida social deplorável, etc., etc., enfim, todas as misérias da sociedade de tipo socialista, melhor, social-democrata (não falo dos estados socialistas estalinistas, falo de socialismo em regime capitalista, como se pratica nas sociedades democráticas ocidentais), da qual (Holanda) conheço algumas particularidades práticas.
Do escuro à demagogia vai um saltinho, eu gosto de dar saltos no escuro:
1 – Na Holanda quase não há autoestradas, usa-se pouco o carro particular, apostou-se fortemente na bicicleta (em meio urbano) e no transporte público ferroviário.
Que absurdo socialismo, aquilo é puro dirigismo social. Que falta de liberdade para cada um sair poluindo o meio ambiente, enchendo as cidades de lata e tornando a vida um inferno, e desequilibrando a balança de pagamentos pela importação de crude.
Mas no comboio nenhum estudante holandês, rico ou pobre, paga bilhete. Mais, fora das horas de ponta um estudante pode fazer-se acompanhar de quem quiser e ninguém paga bilhete, o passe dele é picado as vezes equivalentes ao número de amigos que levar consigo. O meu filho viajou assim vezes sem conta até ter obtido o passe, que demorou bastante. E aos fins-de-semana, uma viagem para qualquer ponto do país tem um desconto enormíssimo se a pessoa tiver um passe. Paga uma espécie de complemento de viagem. Pura engenharia social, determinar como cada um deve viajar.
Há comboios durante toda a noite e não se espera horas a fio por transporte.
Que falta de liberdade individual, ser o estado socialista a determinar como cada um deve viajar, para ser mais ecológico, mais saudável, para que cada um viva mais e tenha melhor qualidade de vida?
2 – Na Holanda o comércio fecha quase todo cedíssimo, especialmente aos fins-de-semana, em que é difícil fazer compras a partir das 18h00. E quase não há centros comerciais, em especial um em cada freguesia como entre nós, que temos o maior número de metros quadrados per capita: temos 267,8. A França tem 267,4; o Reino Unido 264,0; a Espanha 234,8 e a Alemanha 173,7 m2.
Não acha isto uma intromissão inaceitável do direito de cada um passar os fins-de-semana a visitar a Sport Zone, a Intimissimi ou a Zara num grande centro comercial?
3 – Na Holanda quase não há farmácias. Os produtos de venda livre compram-se nas lojas de conveniência. Os medicamentos só na farmácia em que cada um está inscrito e com receita médica a partir de um sistema se saúde que é, simultaneamente, público e privado (é obrigatório ter um seguro de saúde privado), as 2 partes que compõem o todo.
Qua falta de liberdade.
Como vê, quando me dá para a demagogia sou assim.
Mas olhe que isto não é inventado… existe mesmo num estado socialista puro: a Holanda.
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P. S. Há pouco na TVI deu uma reportagem sobre emigrantes portugueses no Reino Unido: o sistema se segurança social é puramente socialista, não é que, quem não tiver um dado rendimento do trabalho tem um complemento do estado para viver decentemente?
Fogo, já se não pode viver miseravelmente? Socialismo (britânico) execrável!
” Na Holanda quase não há autoestradas, usa-se pouco o carro particular, apostou-se fortemente na bicicleta (em meio urbano) e no transporte público ferroviário.”
Podem apostar no que quiserem e usar o meio de transporte que lhes aprouver, mas dizer que na Holanda quase não há autoestradas é totalmente falso: tem mais de 2500 kms de rede. Ainda me lembro, aliás, de no tempo da febre do asfalto referirem esse país como o que mais autoestradas tinha, em comparação com a nossa pobre rede (em meados dos anos noventa). Ainda para mais, tem metade da área de Portugal e é quase totalmente plano. Não queriam comparar com Portugal, onde viagens para Trás-os-Montes eram antigamente um autêntico suplício.
João Pedro:
De facto tem razão, não fui rigoroso na forma como me expressei.
De facto, o que pretendi realçar foi a racionalidade da rede de transportes, em que a mais forte aposta é na ferrovia.
Aqui vão os números:
Public roads – 139.295Km
National roads – 5.191 Km
Provincial roads – 7.778 Km
Others roads (municipais e outras) – 125.230 Km
Autoestradas – 2.758 Km
Autoestradas com portagem – 20 km (é mesmo assim, dados de 2014 da ASECAP-European Association with Tolled Motorways).
Ferrovia – 6.830 Km
Ciclovias – 35.000 Km
Mas a Holanda tem cerca de 17 milhões de habitantes e nós 10 milhões.
E Portugal tem 2.942,6 Km de Autoestradas, mas mesmo assim temos uma rede desequilibrada, autoestradas claramente a mais nuns sítios e a menos noutros.
Eu percebi que haveria aí algum tipo de distracção. De qualquer forma, e não negando que há autoestradas absolutamente supérfluas em Portugal, com trânsito reduzidíssimo e que são mais elos de ligação entre outras autoestradas mais movimentadas, parece-me que fazem mais sentido cá do que nos Países Baixos, dadas as diferenças de relevo.
Isto daria pano para mangas mas vou tentar não me dispersar.
Em todos os países se admitem limitações. Pode ser uma visão cínica da minha parte mas quanto maior o nível de satisfação geral com o nível de vida, maior o número de limitações que se admitem sem questionamento – ou até se tomam por vantagens inerentes ao sistema, ainda que nada de positivo lhe acrescentem. No limite, se os sistemas comunistas tivessem conseguido manter toda a população com um bom nível de rendimento, poucas pessoas se teriam importado com o detalhe da falta de liberdade.
Como os países nórdicos, a Holanda tem regras fortes, assentes num nível de bem-estar que nasceu de contas públicas tradicionalmente equilibradas (ainda bem que mencionou o facto), de investimento público com alguma racionalidade e de um sector privado fortíssimo, capaz de concorrer a nível mundial, o qual permitiu a instituição do “socialismo” e vai permitindo a sua manutenção (em 2011, a Holanda exportava mais do que a França).
Porém, se as pressões demográficas e os problemas de estagnação económica, mais a situação das contas públicas – que, não sendo má (quem dera a Portugal), se degradou um pouco desde 2008 -, vierem a colocar pressão sobre os holandeses, talvez se comecem a discutir assuntos que até agora ninguém viu necessidade de discutir, como o horário da abertura do comércio ou outros mais importantes. França, atolada há pelo menos uma década em inércia e más decisões, chegou a esse ponto.
No que respeita aos sistemas de saúde – ou de educação – não me choca a imposição de regras (ainda que possa concordar mais com umas do que com outras – p.e., aceito a necessidade de estar coberto por um sistema de saúde, não vejo como obrigatório que tenha de ser exclusivamente público) porque elas definem um modelo geral de sociedade em que não se excluem elementos à partida. Não me parece que trabalhar ou não ao domingo tenha o mesmo grau de importância – ou, se tem, talvez então se devesse proibir a realização de outras actividades ao domingo (jogos de futebol, por exemplo) e eventualmente estender o fecho do comércio a outros dias.
Grande texto. Concordo totalmente. Acabei de escrever, num comentário em post sobre tema semelhante, que a hipocrisia destas elites é espantosa.
Obrigado, Luís.
Parece-me que se anda a implementar a lógica da batata. Vivemos um problema financeiro que se transformou numa questão económica, e pretende-se resolver a economia pela lógica das finanças.
Ora, a economia é feita pelas pessoas e para as pessoas; e o sistema financeiro ao pretender intermediar esta relação em nada mais se transforma que num elo especulador.
O trabalho per si é um instrumento que propicia o financiamento da actividade económica.
Enquanto tivermos uma sociedade que é incapaz de fazer descobrir em cada pessoa a capacidade de liderar o seu destino numa lógica comum, continuaremos a ver papagaios a repetir o mesmo refrão que conduziu à implosão de todo este sistema.
Os ditos refundadores e/ou reformadores e/ou reestruturadores de um não sei quê, não se dando conta que para existir novas colheitas são necessárias sementes novas, esquecem que são eles mesmo as podres batatas de um sistema que os pariu.
Por isto mesmo será inglória a atitude dos povos que pretendem ver a solução de uma vida plena em falsos messias.
De certa forma a situação actual faz-me viajar na história e localiza-me num acontecimento que marca o imaginário de uma grande parte das nações. Este acontecimento histórico tem a sua livraria nos registos bíblicos sobre o êxodo, a passagem de um povo da escravidão do Egipto para a terra onde corria leite e mel (a terra de Canãa).
Curiosamente o líder, Moisés, desta travessia nunca chega a pisar tal terra. Porém há algo que continua a liderar a caminhada de um povo, sendo que este povo representa toda a humanidade.
E o que continua a liderar esta caminhada é a lei que habita a consciência de cada um e que só foi escrita em pedra porque a pedra era mais consistente na absorção de tais preceitos.
Mas também o Homem, tal como a pedra, pode ser coberto de poeira e remeter esta lei natural para os antípodas da arqueologia. A este acontecimento chamo-lhe o entorpecimento.
Logo, é necessário escavar a fonte da Sabedoria e das Virtudes reencontradas.
“Não tenho medo de falar de moral. A palavra “moral” desapareceu de nosso vocabulário, como se fosse uma palavra que causasse medo. A moral cívica começa pela moral mais elementar. O bem e o mal, o respeito pelo outro, são valores que devem ser ensinados enquanto tais, sem qualquer reserva.”. (Claude Allègre)
Vento:
Não sei se é por ainda estar a recuperar de uma gripe mas nem sei o que lhe diga…
José,
a ideia hoje era mesmo essa. Mas eu continuo a ter muito para dizer nas soluções que se vão preconizando um pouco por todo o lado. Como por exemplo, esta reflexão que partilhei como o nosso Luís Naves:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/a-m inha-vez-6943664#comentarios
http://expresso.sapo.pt/falemos-entao-de-e mprego=f889778
P.S. Quero dizer-lhe que entendi bem o sentido de seu post. E pretendi dizer algo assim: não existem soluções, mas caminhos. Tomando como exemplo a nossa realidade.
Em Portugal, há uns anos, também se defendeu abrir os hiper-mercados aos Domingos porque isso criaria mais postos de emprego. Isso foi uma doce ilusão. Qualquer pessoa que vá lá aos fins-de-semana depara-se com poucas caixas abertas acossadas por bichas enormes. Os empregados continuaram a ser os mesmos, apenas se agitaram os horários, os clientes sujeitam-se a um pior tratamento, porque perdem mais tempo à espera, mas os donos de facto conseguiram mais lucros, que obviamente não são devidamente distribuídos por aqueles que agora têm de fazer umas horitas ao Domingo.
Vocês ainda não perceberam: os patrões não querem dar empregos a ninguém; eles querem vender mais com menos empregados. Esta fantasia de que abrir o mercado leva a mais empregos fundamenta-se na mesma ilusão que levou à criação em 1994 do NAFTA. Bill Clinton então prometeu que 20 milhões de novos empregos seriam criados; não só não foram como se perdeu 1 milhão já existente:
http://crooksandliars.com/2013/12/nafta-2 0-1-million-lost-jobs-580-increase
Mas continuem a acreditar no poder dos Domingos e na salvação do mundo através de mais consumo e endividamento de famílias.
Não continuo nada. Pelo contrário. Estou farto de escrever que o consumo – público ou privado – não vai salvar coisa alguma, precisamente porque é mais dívida. Mas:
1. Isso não significa que me vá opor a medidas deste género (só vai quem quer);
2. Os socialistas clamam por crescimento através do consumo – como podem depois criticar o consumo?
Quanto ao número de trabalhadores dos hipermercados, não tenho dados para confirmar ou contestar a sua afirmação. Mas não é lógico que a medida tenha feito reduzir o número de trabalhadores. Quando muito, eles tendem a diminuir por causa de ganhos de produtividade (sistemas informáticos mais eficientes, caixas de pagamento self-service, etc.), como sucede noutros sectores.
“os clientes sujeitam-se a um pior tratamento”
Ainda que seja verdade (nos dias em que costumo ir ao hipermercado não me parece mas não vou lá ao domingo), os clientes têm liberdade para mudar de hipermercado. E até para voltar às mercearias de bairro.
Consumo, no caso português, significa consumir o que é necessário. E o que é necessário na nossa sociedade é algo tão simples quanto isto; comprar alimentos, ter electrodomésticos (ninguém hoje pode viver sem fogão, sem frigorífico, sem esquentador ou outra forma de aquecer a água do banho, sem máquina de lavar roupa, sem talheres e pratos, sem um computador para poder ler e ver notícias e comunicar de forma mais barata com o mundo e a família. Mas também de tintas e outros materiais para poder conservar as paredes dos edifícios etc. Isto para não falar nas pessoas que necessitam absolutamente de aquecimento e no mínimo de uma ventoinha para refrescar – idosos, crianças e pessoas enfermas), poder pagar os transportes, a energia, os medicamentos, a casa que compraram ou a renda da casa, os livros escolares (e, por que não, um bom livro ao menos duas vezes por ano), poder vestir e calçar-se confortavelmente e, para os que necessitam absolutamente disso, um automóvel. Os que não necessitam andem de transportes, de bicicleta, de scooter ou a pé. Mas também, para quem trabalha a terra, um tractor, sementes, aspersores e tudo o mais- Mas também o restante etc.
O José certamente reparará que eu, sem o ser, procurei ser exaustivo. Mas somente para lhe demonstrar que o poder para adquirir bens básicos faz mover uma quantidade de industrias e serviços. Mas o contrário foi feito pelos pantomineiros que têm governado este país, a europa e até mesmo uma boa parte do mundo.
Como o Costa foi ministro do Guterres, aguarda-se que daqui a um aninho se regresse à antiga e peregrina medida de as lojas com mais de não-sei-quantos metros quadrados terem de encerrar aos Domingos, da parte da tarde.
Exacto. Vai acontecer ao mesmo tempo que a renacionalização da TAP e a reabertura de todos os tribunais fechados por este governo.
(1) Permitir a abertura do comércio ao domingo em nada enriquece uma sociedade, uma vez que o comércio não cria riqueza. Quando muito, distribui melhor o emprego existente por entre as pessoas. Alguns desempregados adquirem um emprego muito mal pago, em troco de outras pessoas passarem a ter menos emprego, porque o total de vendas do comércio não se altera.
(2) Portugal tem uma política de horários do comércio que é das mais liberais da Europa. Porém, é também um dos países menos ricos da Europa. O facto de haver grande liberdade comercial não parece ajudar muito Portugal a enriquecer.
Se o horário aumenta e o número máximo de horas de trabalho não se altera (em França permanece em 35), ou o emprego aumenta (ainda que seja mal pago) ou as empresas têm de fazer opções em termos de horários de abertura / rentabilidade. Eventualmente, as que abrirem terão custos superiores mas também um aumento de receitas, à custa das restantes (isto partindo do pressuposto que não se verifica mesmo qualquer aumento de consumo).
O horário dos espaços comerciais deve ser das poucas áreas onde Portugal é razoavelmente liberal. Quanto a não enriquecer, há tantas razões antes de esse factor se tornar relevante…
E, acima de tudo, interessa-me:
– A presunção de querer impor regras de comportamento aos outros;
– A contradição entre querer incentivar o consumo e – como lhe referi acima, está claríssimo no texto de Aubry – execrá-lo.
Talvez a chave do aparente paradoxo esteja na diferença entre consumo e consumismo. Talvez a esquerda condene o consumismo, e a pulsão destrutiva do capitalismo que tudo consome em nome do lucro (aqui falo dos recursos naturais, da vida familiar, etc).
Mas talvez a mesma esquerda considere que a austeridade impede que uma familia mediana chegue aos padrões de qualidade de vida que o conjunto da sociedade estabelece para considerar a mesma “decente”. Em que uma pessoa se possa valorizar, potenciar, educar, alimentar, comunicar, viver em comunidade, participar, etctc.
Fazer todas estas coisas implica “consumir” e todos fazemos menos essas coisas porque há uma obsessão, por um lado, em garantir os lucros de especuladores financeiros, e por outro lado em manter sossegados alguns maníaco-depressivos que vêm em todo o lado o fantasma da inflação.
Eu sou todo a favor de contrariar o fetiche do crescimento. Mas isso implica uma distribuição massiva de recursos e riqueza. Algo muito parecido com algo que provavelmente abomina, chamado comunismo.
Aceito que há uma diferença entre “consumo” e “consumismo”, embora me pareça que não está relacionada com os níveis de rendimento. Ou seja: uma pessoa pobre pode ser tão consumista quanto uma rica, embora tenha de sê-lo com objectos menos caros.
Quanto aos “especuladores financeiros” (tão incentivados pelas políticas dos bancos centrais, com Fed e Banco do Japão à cabeça), aos “maníaco-depressivos” e, em especial, à necessidade de comunismo, concordemos em discordar.
Qual é a diferença entre consumo e consumismo? Eu não sei. Consumir seja o que fôr é sempre, em maior ou menor grau, consumista.
Isso é como a diferença entre vender (ou comprar) uma casa e especular no imobiliário. Não sei qual seja. Quem compra ou vende uma casa tem, quase sempre, uma atitude especulativa.
Ou tentar arranjar uma casa para viver dentro das suas possibilidades.
Certeiro.
E quanto à filha do Delors : exemplo consumado ( e consumista…) do “coeur à gauche, portefeuille à droite”…
As ex de monsieur Hollande militam ferozmente contra o consumismo. Em tempo foram amplamente noticiadas as modestas toilettes (incluindo os sapatinhos) que são do agrado da actual ministra da ecologia – tudo obviamente adquirido em dias úteis – assim como os modestos hotéis em que ressacou a sucessora (que também levou um valente ralhete dessa tal de Lille).
Concordo com a visão que retrata da mentalidade napoleonica francesa e vejo grandes convulsões antes que as pessoas se habituem a que cada um é que têm que optar se quer ou não comer carne ou peixe, ir ao super ou à praia.
Acham que o declínio francês é consequência do desregramento e condições de vida dos trabalhadores alemães- claro que é duma irresponsabilidade atroz vir com essas tretas.
Cá vamos ter o dãosebastião Costa a mostrar como se governa em “verdadeira” democracia progressiva. Mas que cada um assuma as responsabilidades das escolhas(ou abstenção) que faz .
Produção/Consumo equilibrados exigem um espaço político/económico fechado.
Falar só de “Consumo” sem o associar a “Produção” -ambos criadores de emprego e desenvolvimento económico- é redutor. Empregos, em ambos os sectores, complementam-se e dependem mutuamente um do outro. As oportunidade de emprego (poder de compra), em ambos os sectores, estão ligadas. Uma dependência mútua. Uma pescadinha de rabo na boca.
Entretanto a globalização, esta WTO, como se constata publicamente agora, foi mal feita. Muitos e variados Produtores e Consumidores ficaram em diferente espaço politico/económico (China de um lado, vs Europa e EUA).
Resultou mal, e continuará a resultar, muito mal. (1)
As elites chinesas, as proponentes, sabiam que enriqueceriam devido aos seus relativamente reduzidos custos de Produção. As elites europeias e americanas também previram os excelentes rendimentos que realmente tiveram.
Assim foi. Resultou em prejuizo da ordem social no ocidente: o desemprego (jóvem ou não) é um dos mais alarmantes sinais disso. Correcção deste constatado erro?.
Por (des)ventura só uma reformulação que supére a presente WTO corrigirá o dano. O interesse (a fuga para a frente) no acordo de previlégio comercial Euro/EUA, que menorize a WTO, é sintomático. Um remendo, no entanto.
Brincar aos horários de funcionamento é poeira socialista (para não dizer imbecilidade) atirada aos olhos dos eleitores.
Curiosamente isto na França, um dos Países, um dos espaços económicos na Europa (quando possuía política e moeda própria) que tinha, teve, no passado, um razóavel equilíbrio social pela auto-suficiência na Produção/Consumo.
(1)- Os previlégios dados aos comerciantes chineses em Portugal, criaram desequilíbrios sociais. Beneficiaram alguém? .