(foto da Lusa)
Ano após ano, a lista repete-se com uma assustadora previsibilidade e um traço comum que é a desvalorização da noção de serviço à comunidade, à causa pública, numa repetição parola e cada vez mais pungente daquilo que devia ser o reconhecimento de uma cidadania de excepção. Ao invés, continua-se a valorizar a banalidade, a misturar o azeite mais puro com o detergente barato, a colocar no mesmo patamar a carreira construída a pulso, com trabalho e empenho, com a carreira construída à sombra da sorte, do favor político e empresarial, da porta que se abriu em nome do apelido ou da origem da casta. Como se a atribuição de medalhas a eito no Dia de Portugal devesse ser eternamente uma celebração barata e ordinária com ofertas de brindes, recepções e espectáculos anódinos para o povo ignorante se entreter antes de se entregar aos tendões de Cristiano Ronaldo. Como se o momento mais importante para a exaltação de uma cidadania de excepção, talhada no rigor, na seriedade intelectual, na força do carácter, pudesse ser tão recorrentemente desvirtuado perante a complacência e vacuidade dos frequentadores de salões, o silêncio dos partidos políticos e seus dirigentes e a acomodação dos espíritos livres.
Que me perdoe Eduardo Lourenço, mas quando um dia a República num acto de inteligência fizer a contabilidade das condecorações que os seus Presidentes atribuíram numa democracia adulta e consolidada, não será bonito de ver os nomes alinhados. E mais triste será ver os nomes de quem as atribuiu.
No dia em que o Dia de Portugal for celebrado por Portugal e pelos portugueses não haverá este espectáculo boçal e boçalizante das condecorações. E o Presidente da República será mais um no meio dos seus. E nesse dia, então, o cidadão número um será capaz de perceber por que razão um dia se fez Portugal e Portugal nunca se cumpriu. Só nesse dia a República atingirá a idade adulta. Portugal cumprir-se-á. E poderá, finalmente, sair da letargia em que vive há décadas controlada na sombra por meia dúzia de estupores. E levantará a cabeça para honrar os seus verdadeiros heróis, recordar a sua obra, recolher a sua lição e projectar um futuro que faça jus à dimensão do sonho camoniano.
A única e verdadeira medalha que enquanto portugueses estaremos em condições de poder receber, celebrar e honrar.


Muito boa tarde.
Aceite o meu aplauso pelas suas palavras acerca desta cada vez mais (minha opinião, naturalmente) bafienta e indecorosa “cena” medalhística. Cena a que se junta, por exemplo, a cada vez mais caricata chegada do presidente da república (minúsculas ) rodeado de viaturas militares num aparato ridículo, à cerimónia na manhã de 10 Junho. Enfim, é como estamos, como continuamos. Cumprimentos. António Cabral (marrevoltado.blogspot.com)
Muito bem, e aplaudo.
Porém, meu caro, quantos foram os que recusaram a medalha? r.aspx?content_id=1743171
Conhecem-se poucos, por exemplo Defensor Moura:
http://www.dn.pt/inicio/portugal/interio
… e só isso é sinal de cumplicidade anuída entre medalhador e medalhado.
Uma medalha pode ser também uma nódoa, como a tradição nos ensina.
No formato actual é uma escolha personalizada no PR, pelas consultas pessoais que decide fazer.
A legitimidade de invocar o nome de Portugal vem da legitimidade que o PR tem neste regime. Portugal não é mais que isso, mais do que se constata ser.
O “Portugal que está por cumprir”, da verdade acima do ilusionismo de Luís de Matos (honorável medalhado pelo Infante D. Henrique), esse Portugal tem muito poucos adeptos visíveis, e por isso a visibilidade das medalhas liga-se às nódoas que tem e não à limpeza que poderia ter.
Sei também que alguns candidatos a medalhados, órfãos de reconhecimento, pedintes de atenção, quase que se transmutam com tal medalhinha. Mais do que as medalhinhas de Fátima pode fazer milagres de conversão.
É uma celebraçãozita menor da República, importada da monarquia, e como qualquer moeda de troca, pelo seu fabrico desacreditado tende a perder valor, mesmo nos antiquários.