O PSD quer regressar ao poder usando este tipo de argumentação? Mais vale ir tirando o cavalinho da chuva. A comparação feita pelo ex-ministro Poiares Maduro mistura alhos com bugalhos: a Grécia está sob resgate e tem um governo com ‘populistas’ não apenas da esquerda, mas que incluem um partido de direita nacionalista. Essa geringonça grega cumpre um programa de ajustamento negociado com as instituições europeias. Qual é a diferença entre um governo de centro-direita (aquele a que pertenceu o ex-ministro Poiares Maduro) e um governo ‘populista de esquerda-direita’, quando ambos cumprem com rigor um programa de ajustamento impopular imposto pela mesma troika? A diferença é nula.
A comparação do governo Costa com os casos da Polónia e Hungria pode parecer muito inteligente, mas também é enganadora. Na Europa Central não há geringonças, mas governos nacionalistas estáveis que tentam negociar uma nova relação com a Europa, após uma transição difícil que prejudicou as classes trabalhadoras, deixando ali um lastro de descontentamento que nenhuma análise pode ignorar.
O chamado ‘populismo húngaro’ venceu todas as eleições desde 2008 (europeias, regionais, etc.), incluindo duas legislativas, uma delas com maioria qualificada que permitiu ao partido no poder (Fidesz, conservador) alterar a Constituição. Os ‘populistas húngaros’ talvez mereçam essa designação por fazerem parte do partido popular europeu onde milita o PSD do ex-ministro Poiares Maduro. São populares? Sem dúvida. São populistas? Aceita-se. São comparáveis com a geringonça portuguesa? Quase consigo ouvir as gargalhadas que essa ideia provoca em Budapeste.
Em abono da verdade, há uma semelhança com o ex-governo do próprio Poiares Maduro: os ‘populistas húngaros’ também herdaram uma bancarrota socialista e um programa do FMI, só que mudaram o destinatário da factura, dos contribuintes, trabalhadores e pensionistas para os bancos e rendas excessivas. Foi ‘populista’? Sem dúvida. O resultado é que conseguiram pôr a economia a crescer quase 3% anualmente, reduziram o desemprego de 15% para os actuais 5%, conseguiram investimento externo em larga escala, aumento das exportações, redução de impostos, mantendo inflação baixa, alta qualidade do ensino público gratuito e a universalidade do sistema nacional de saúde. Já saíram do procedimento por défice excessivo e dão-se inclusivamente ao luxo de pagar mais devagarinho a sua dívida pública, para não atingirem tão depressa o nível de 60% do PIB que os obrigaria a entrar na zona euro. Houve ainda um brinde que contrasta com a estratégia da nossa paróquia: a banca era dominada a 90% por instituições estrangeiras, agora é 50% húngara. Nada mau para ‘populistas de direita’. Se Costa fizesse o mesmo…

Falta explicitar um pormenor que está subjacente ao final do seu post: a Hungria não está no Euro, o que facilita um bocadão (não é um bocadinho, é um bocadão) as coisas
sim, claro, não estava no euro, teve ajuda menor e recessão bem maior do que a nossa. Sim, isso é tudo verdade, tornando o comentário do ex-ministro mais absurdo. O governo de António Costa está na zona euro e o seu confronto com as regras europeias enfrenta obstáculos muito diferentes. Portugal não consegue resolver o seu desequilíbrio de costas públicas, armadilha que os ‘populistas’ da Europa Central conseguiram evitar, incluindo os da Eslováquia e da República Checa, que por qualquer razão misteriosa nunca são agregados ao duo polaco-húngaro. Se o populismo é a defesa dos contribuintes, pensionistas e trabalhadores, se o populismo é o ataque às elites que fracassaram clamorosamente (corrupção, erros políticos, arrogância, concordância imbecil com a incompetência burocrática de instituições europeias não eleitas), se o populismo é distribuir a factura dos erros pelos bancos, multinacionais e beneficiários das rendas excessivas, então venha o populismo. Os políticos que ainda não compreenderam o que lhes aconteceu podem lamentar esta maçada da rebelião populista, mas acho que deviam pensar melhor nas barbaridades que dizem…
Peço desculpa pelo português deficiente do comentário anterior, mas escrevo a quente e julgo que o ponto é claro: os governantes dos partidos tradicionais não podem justificar os seus erros com a desculpa fácil de que não quiseram ser populistas. No caso nacional, António Costa está a ser empurrado pelos seus aliados para um conflito com a UE, numa estratégia sem grande futuro. No entanto, é correcta a retórica da esquerda de avançar com políticas favoráveis aos mais pobres e desfavorecidos, é justa a sua crítica às elites que se marimbaram para o povo. Isto é populismo? Pouco importa o rótulo, se for sincero e eficaz. O PSD cometerá um erro trágico se quiser colar-se a um elitismo autista.
mudaram o destinatário da factura, dos contribuintes, trabalhadores e pensionistas para os bancos e rendas excessivas
Parece uma receita simples.
Porque é que não foi aplicada cá também?
Creio que a aplicação dessa receita só foi possível porque os bancos eram em grande parte estrangeiros e porque os países de origem desses bancos permitiram que lhes fossem imputadas essas perdas.
Houve coragem política para enfrentar os interesses especiais e para enfrentar as críticas generalizadas. Isso foi muito nítido na questão dos empréstimos em moeda estrangeira, que era um entrave ao consumo e onde o governo decidiu impor aos bancos uma taxa de câmbio artificial, impedindo que a população fosse esfolada viva. As previsões de que o sistema financeiro ia colapsar falharam. Foi uma medida populista? Sem dúvida. Deu muitos votos? Claro. Mas a política serve para defender os interesses do país e da população. Quem achar que isto pode ser desvalorizado como ‘populismo’, meta explicador. Em Portugal, o memorando da troika mencionava expressamente o ataque às rendas excessivas na energia, nas auto-estradas e na saúde. O falhanço foi total no primeiro caso, parcial no segundo, só no terceiro houve algum êxito.
PSD voltará ao Governo, não por causas “comentárias ou jornalisticas”.
Será por via do 4º naufrágio!
O resto não passa de mero passatempo!
Tiro o meu chapéu em comprimento ao Luís Naves por finalmente reconhecer como se devem resolver os problemas do povo e de Portugal.
Este seu texto, com uma excelente vertente critica aos desabafos de Poiares, realça um aspecto importante: a maioria dos discursos, debates e criticas têm natureza partidária e não política (Pólis). E torna-se óbvio que a fantasia, que também é parte da razão e devia antecipar o futuro, cada vez mais se centra em dados pouco históricos e tampouco na realidade histórica. Dados e realidade histórica são aspectos diferentes, que muito bem apontou e integrou.
Não admira, portanto, que pouco avancemos por incapacidade em integrar o passado, reabilitando o que compete, e por inaptidão em observar a realidade histórica, a ontologia que lhe é inerente.