Como se tivéssemos nascido ontem


Pedro Correia,

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 (Imagem: blogue Bic Laranja)

 

Já nem falo do L dobrado de importação, ironicamente aceite sem pestanejar nesta terra onde o mais disparatado dos convénios autorizou o extermínio corrente das consoantes “mudas” para “aproximar a escrita da fonética”. Já nem falo da festa de importação, quando não faltam tradições festivas portuguesas crescentemente votadas ao esquecimento.

Falo de Lisboa, um dos nossos mais belos topónimos, desfigurada a todo o momento ao ser substituída pela tradução em inglês. Não por capricho estrangeiro, mas por decisão local – neste caso com a chancela oficial da Câmara Municipal de Lisboa, através da Junta de Freguesia de Arroios. Como se algum turista, por mais bronco que seja, ignore como se escreve e diz o nome da capital portuguesa, fundada há mais de dois mil anos, quando os habitantes do que viriam a ser os Estados Unidos da América ainda faziam fogo com dois pauzinhos.

Um nome de ancestrais ressonâncias helénicas que a cada passo pervertemos sem o menor traço de amor-próprio, nesta nossa forma tão pacóvia de abdicarmos de um idioma falado por mais de 250 milhões de pessoas no mundo enquanto entoamos loas à “lusofonia” por mera conveniência política de ocasião.

Falar e escrever “estrangeiro” é o desporto preferido dos basbaques cá do burgo. Que traduziam Portugal em francês no tempo do Eça e hoje o traduzem em inglês com sotaque americano.

Como se tivéssemos nascido ontem. Como se não tivéssemos uma língua e uma cultura dignas de nos orgulhar a todo o tempo.

0 comentários em “Como se tivéssemos nascido ontem”

  1. Esta Canção fala disso.
    https://www.youtube.com/watch?v=754C0vbcbEU

    …na de Rimbaud “en passant”
    na de Cervantes era dantes
    na de Camões para depois
    valha o William
    se não nunca
    falaríamos nunca mais
    jamais
    no “ranking” das culturas
    império “shoting-room”
    e em vez de quatro um
    e melhor seria um outro “boom”
    via “e-mail”
    e em vez de um “bug bedum

  2. Bom. Ao menos temos a consolação de aquela menina linda – Robin Tunney – na série “O Mentalista” se chamar Teresa Lisbon…

  3. Não é de agora: Marraquexe em árabe diz-se… Marrocos (com pronúncia exactamente igual à palavras portuguesa). Mas, por incrível que pareça, nós, que fomos os primeiros a enfrentar o Sultão de Marrocos (dos Saadianos, dessa cidade) acabámos a dar à cidade o nome dela com sotaque… francês! Enfim.

    1. Demos Mumbai aos ingleses como dote da princesa que lhes também deu o chá e por ingresia reaprendemo-la Bombaim. Com a Samatra ensinámo-los a dizê-la e eles escreverem-no à sua maneira; esquecemo-nos como se dizia e fomos ver como se chamava: era Sumatra…
      Cumpts.

      1. Não esqueçamos também as Malucas que por conveniência do jeito passaram a Molucas… porque foi mais fácil chamar malucos aos que em tempos difíceis se atreveram a ser sãos.

  4. Sem mais, caro Pedro Correia.
    Das mais antigas da Europa Ocidental. Precede o nascimento de Roma em, pelo menos, três séculos!! Foi Lissipo, Olissipo, Ulishabona, Al Ushbuna, Lishabona e é hoje, desde que Portugal tem consciência de Portugal e o Português da sua língua, Lisboa!!

    1. Custa-me ver entidades oficiais patrocinarem a adulteração do nome de Lisboa, Justiniano. E logo as entidades autárquicas, que tinham a estrita obrigação de preservar, valorizar e defender o bom e belo nome desta cidade. Como se ‘Lisbon’ fosse um subúrbio de Washington ou Nova Iorque.

      1. A falta de consciencia estética (que é ética) abunda no poder local. O mau exemplo vem, mais das vezes, do governo!!

    2. Caro Justiniano,
      num texto de João de Barros que fui começando a transcrever no meu estaminé, ele diz o seguinte:

      Lisboa – sita na Lusitania junto do Tejo, chamava-se Olissippo, como dizem Plinio & todos, e outros lhe chamaram Ulixia, porque dizem que Ulixes [Ulisses] a edificou, e agora corruptamente lhe chamamos Lisboa, e assim lhe chamavam os mouros até que lha tomámos. Mas parece ser falso dizerem que se chamava Ulixea de Ulixes, porque se assim fora, disseram Ulixipo ou Ulixea e não Olissippo, mas a verdade é que se chamou Olisippo com O e um L e um I latino e um S e dois PP e chamou-se assim como diz Valla por ser abastada de cavalos, porque “olos” em grego quer dizer toda, e “hippos” cavalos, porque há tantas éguas e cavalos junto do Tejo na Ribeira de que nasceu fama entre os escritores antigos que concebiam as éguas do vento junto deste Rio, donde ainda até agora chamam a certas éguas Zébias quasi concebidas do vento Zéfiro, e por esta cópia de cavalos lhe foi posto este nome, que quer dizer “toda de cavalos”. Nós, corrompendo o nome lho mudámos em Lixboa por nossa linguagem, por ser terra tão boa, e nos apartamos do nome antigo Grego, e creio eu que os mouros lho começaram a mudar, porque já quando lha tomamos se chamava assim. Mas outros nomes gregos temos de entre nós (?) assim como tio, miolo, trepesa, artisa, tostão, cara.

      Achei notável esta explicação que Barros atribui a um Valla – não investiguei ainda quem é, porque leva o nome de Lisboa à célebre lenda das éguas que pariam com o vento.

      Cumprimentos.

      1. Caríssimo Da Maia, viva!!
        A origem do nome é controversa, como bem sabe o meu caro. Como decorre de Plínio, via Andre de Resende, Lisboa era tartessa e não lusitana, apesar de ser margem direita do tejo. Os tartessos e turdetanos sempre tiveram mais afinidades com os fenícios e hebreus, ao contrário dos lusitanos. Mais, a facilidade com que se uniram a Roma contra os lusitanos também o demonstraria. Lisboa era lázio romana. Há quem atribua origem tartessa ao nome e há quem aponte, através do mito de Odisseu, origem grega. Não sei!! Os romanos eram singulares a fazer esquecer os nomes dos sítios por onde andavam, que renomeavam. A cultura e a escrita que trouxeram eram avassaladoras e acabaram por ser o determinante histórico. Ainda hoje, o pouco que sabemos da era pré romana o devemos a naturalistas romanos e gregos e a mercadores fenícios. (as Zébias não será por causa do Zezere!? Plínio contou o mito de que as éguias emprenhavam pelo vento nas ilhas do rio tejo formadas pela força do zezere. Não sei!!)
        Quanto à teoria de João de Barros e do Rei Visigodo…não sei. Sei que João de Barros tinha alguma predilecção por visigodos!!! Eu sou apenas um pobre curioso !!
        Um grande bem haja para si, caro Da Maia

        1. Obrigado pela informativa resposta, caro Justiniano.

          Sobre o passado restará sempre incerteza, pelo que a melhor postura é sempre a de não negligenciar informação que tenha sentido. Haverá muitas coisas que serão coincidências, e pode parecer inútil querer vê-las como incidências com nexo… no entanto, nem tudo foram coincidências, e também nem tudo foram coisas planeadas.

          Muito apreciei o seu comentário sobre a ligação turdetana-tartessa, que não tinha dado conta poder chegar a Lisboa, já que a mesopotâmia de Entre-Tejo-e-Douro, era dada como terra dos Turdulos Antigos.
          Mas as minhas informações são muito escassas e agradeço toda a ajuda nesse âmbito.

          Quando escrevi ontem, percebi algo interessante. O nome grego do herói era Odisseus, e não Ulisses (curiosamente Barros escreve Ulixes), pelo que a designação latina de Ulisses é que se deveria remeter por razão do nome da cidade Olissipo, e não o contrário!

          Ou seja, até poderia ser que Barros tivesse razão e Olissipo resultasse de Olos+ipos (toda+cavalos), e que por outro lado, a presença do herói no Tejo levasse a que o nome latino dele fosse retirado como Ulisses, de Olissipo.

          Valla: o rei visigodo Vália… excelente, meu caro! Não me tinha passado pela cabeça essa possibilidade.
          A transcrição nem sempre é fácil, porque só conheço o manuscrito disponível na BNP:

          http://purl.pt/26460/3/#/32-33

          e a caligrafia de Barros nem sempre é muito clara. Por exemplo, no caso do nome “Zébias” apenas o inferi porque escrevia Zéfiro da mesma maneira inicial.

          Outro mistério é este Livro de Antiguidades de Barros não merecer nenhuma atenção por parte da intelectualidade nacional… e desconheço se existe até alguma transcrição publicada – na internet fartei-me de procurar e não encontrei.

          Ficam os curiosos como nós a trabalhar de graça, já que os outros vivem no estado de graça…

          Abraço, e de novo obrigado!

        2. … entretanto reparei agora que o Valla de que Barros fala será certamente estoutro humanista italiano:

          https://en.wikipedia.org/wiki/Lorenzo_Valla

          … porque esta malta escrevia como se não houvesse amanhã, esquecendo que os escritores na moda à época, poderiam ficar fora de moda uns séculos mais tarde… ou neste caso, tratando-se apenas da versão manuscrita que Barros enviou para o prelo, faltaria o cuidado da necessária revisão posterior.

          De qualquer forma, obrigado de novo.

          1. Viva, caro Da Maia! Eu é que agradeço os seus interessantíssimos comentários.
            Note, caríssimo, que não tenho a certeza de nada! Acompanho-o no Valla!! Seria demasiado forçado, mas não menos interessante ou intrigante, imaginar um rei visigodo a versar e espalhar fontes sobre a etimologia das grandes cidades da península que pretendia tomar. É sabido que estudavam, direito romano, mas não creio que fossem tão longe!!
            Um grande abraço e um bem haja

          2. Caro Justiniano,
            é verdade que houve alguma curiosidade sobre os antecedentes godos na época de Barros, e algum desse conhecimento recuperado, foi de novo perdido… vá se lá saber porquê!

            O período da “queda de Roma” e invasão bárbara consentida, é muito explicado pelo modelo de sociedade depois seguido, com sede papal em… Roma.

            Os godos rapidamente perceberam que não percebiam nada do mundo que invadiam, mas a quem controlava os reis, interessava muito essa ignorância.
            A certa altura nem a língua que tinham preservaram, e sem escrita sua, usaram a do poder que não deixou de mandar…

            É sempre um prazer trocar impressões consigo.
            Obrigado!

  5. O cartaz é do ano passado, mas o deste ano é igual.
    Agradeço-lhe a atenção ao caso e a divulgação aqui. Pouca gente nota esta aculturação, sabe. Todos se anulam por ela, mas seguem contentinhos, contentinhos. Uma desgraceira!
    Obrigado.

    1. Somos poucos mas continuamos atentos. Uma vez mais, parabéns pelo seu blogue. Aí faz-se verdadeiro serviço público. E – sem ironia – já merecia a medalha de mérito municipal.

  6. Os comentários sempre pertinentes e divertidos acabaram por me lembrar doutra muito “portuguesa”. O desporto chamado “Rugby” que eu conheci pela transcrição que da palavra faziam então os jornais como “Raguebi”; não é que hoje se ouve por aí dizer “Reiguebi”?…

    1. Râguebi é a palavra certa, aportuguesada. Como andebol, futebol, basquetebol, ténis. A pronúncia, enfim… hoje em dia não falta gente a entrar numa rádio ou numa televisão sem a menor preparação técnica também a esse nível.

  7. No meu prédio, os miúdos foram espertos; vieram-me bater à porta duas vezes, em dias seguidos: uma pelo Halloween; outra pelo Pão por Deus.

    Há uns anos, quando a moda começou por cá, lembro-me de uma jornalista, numa festa nocturna, perguntar a um jovem porque celebrava o Halloween quando não era uma tradição portuguesa; a resposta foi rápida e reveladora; “É só mais uma desculpa para beber copos,” explicou ele sem qualquer pudor.

    É marketing, é consumismo; cria-se uma hábito que não existia, incita-se o consumir, sempre em busca de novos estímulos, a praticá-lo; depois há toda uma panóplia de indústrias que ganham dinheiro com isso: os que vendem máscaras e chapéus, e os que organizam festas “temáticas” no Bairro Alto e na Avenida da Liberdade.

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