Como se fossem obscenidades


Pedro Correia,

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Nova Ninhada de Gatinhos, óleo de John Falter (1954)

 

Sexta-feira foi Dia do Pai. Ou era, já não sei. Porque a cartilha politicamente correcta manda adoptar nova designação, que ouvi repetida várias vezes: agora é Dia dos Pais. Tal e qual, neste descafeinado e confuso plural pós-moderno. Como se fosse a mesma coisa.

Questiono-me se em Maio também será assinalado o Dia das Mães. Para combater aquela anacrónica noção de só haver uma mãe – tese que alguns de nós, impenitentes reaccionários, ainda perfilhamos.

Já falta pouco para saber.

 

As luminárias vanguardistas da Universidade de Manchester, no Reino Unido, resolveram entretanto este dilema adoptando uma cartilha de linguagem “inclusiva” que elimina palavras como mãe e pai. Manda a nova etiqueta que se diga guardiã ou guardião, como se a mãe fosse a baby sitter e o pai fosse pastor de cabras ou ovelhas.

Já chegam atrasadas. Pioneira nesta novilíngua foi uma escola novaiorquina – a Grace Church, em Manhattan – que se antecipou a decretar obsoleta, quiçá mesmo “fascista”, qualquer alusão a pai ou mãe.

Como se fossem obscenidades. 

 

As meninas e os meninos agora só têm autorização para dizer adultos ou família. Aliás meninas e meninos são vocábulos também banidos: agora diz-se amigos ou malta. É mais fixe, é cool. 

Em nome da “inclusão” que exclui. Na melhor lógica orwelliana: ignorância é força, paz é guerra, liberdade é escravidão.

72 comentários em “Como se fossem obscenidades”

  1. Quem controla o significado das palavras, controla a realidade e controla as pessoas que têm que usar as palavras.
    As “novas designações” até podem parecer ridículas ou absurdas, mas apenas por serem “novas”. As palavras sempre nos controlaram. O Sr. é Jornalista, logo conhece o “poder” das palavras.

  2. No momento em que a lei permite que duas lésbicas ou dois gays (para usar a própria terminologia LGTB+) casem e adoptem crianças, passa a haver a possibilidade de exigirem que a Sociedade que aprovou essa lei se lhes refira como de dois pais ou de duas mães se tratasse.
    E os transgéneros, exigirem uma denominação linguística que não os exclua.
    Em Democracia só a ditadura da «maioria» pode fazer leis… Mantê-las ou mudá-las.
    Agora foi a vez do “Regime Abrilista”. No futuro logo se verá.

      1. “Regime Abrilista” (1974-2021) é o nome do regime político que sucedeu ao anterior, designado por “Estado Novo” (1926-1974). O qual sucedeu ao anterior, designado por “1.ª República” (1910-1926), posterior ao regime designado por “Monarquia” (1143-1910).

        “Regime Abrilista” é o regime político que apelida todos os dias, a toda a hora, na maior parte dos principais órgãos de comunicação social, todos os outros regimes diferentes do seu (passo a citar): fascistas, anti-democráticos, extremistas, nacionalistas, populistas, e todos os vitupérios que lhe vêem ao arbítrio.

        “Regime Abrilista” é a oscilação binária, simetricamente inversa e isomórfica, entre PS e PSD que dura há 47 anos em Portugal. E cujos resultados económicos, sociais e políticos são os que as fontes credíveis do INE, Eurostat e outros indicadores oficiais indicam.

        No momento em que algum lápis-azul ou censura quiserem proibir a liberdade de proferir a designação “Regime Abrilista”, de certeza que não serei a opor-me. Apenas têem de cometer o acto.

        1. “Regime Abrilista”
          É esse regime Abrilista que o SAP tanto desvaloriza e diminui que lhe deu a liberdade para dizer os dislates que diz.

          Rui Santos

          1. O Rui Santos não está a perceber.
            Em vez de argumentar, puxa do lápis-azul e tenta pressionar e limitar a liberdade dos outros.
            Não foi o “Regime Abrilista” que me deu a liberdade de escolher o que dizer.
            Essa sua afirmação é, portanto, uma perfeita mentira. Facilmente comprovável, e testemunhável por milhões de portugueses que não têem essa sua opinião.
            Mas essa sua mentira, revela muito da sua cegueira relativamente à servidão ideológica que que escolheu professar.
            Essa sua escolha não tem o direito de impedir a dos outros.
            Logo, este seu comentário é um verdadeiro “dislate”.

          2. Carapuça enfiou o Rui Santos, ao acreditar nessa patranha.
            Para além de juízo, deve aprender a ter ideias próprias, em vez de perseguir e censurar as dos outros.
            Argumente sobre o tema do Post, não persiga as pessoas.
            Porque isso revela uma mentalidade anti-democrática e intolerante.
            Tem que estudar mais, e reflectir com mais discernimento.
            Comece por ler a epígrafe aqui do Delito de Opinião, escrita na página de rosto, no canto superior direito.

          3. Tem razão!
            Tenho que estudar mais para compreender tontos escondidos sob um pseudónimo SAP.
            Deixe-se de armar em vítima, eu apenas fiz uma pequena constatação… e o SAP partiu logo para ofensas desajeitas.
            Tenha juízo! Vá-se tratar!

            Rui Santos

          4. Não é SAP, é «SAP2ii».
            Não é um “pseudónimo”, é um acrónimo.
            Julgava que não pertencia a nenhum “Regime”, e eram só os outros.
            E caiu-lhe a realidade em cima.
            Não se zangue por pertencer ao “Regime Abrilista”.
            Se acredita nele, até se deve orgulhar, em vez de se ofender.
            Os dos outros “Regimes” aconteceu-lhes o mesmo. Ninguém escapa.
            Argumente e discuta ideias.

          5. “Argumente e discuta ideias”
            Como é que é possível argumentar ou discutir ideias com um SAP que nem sequer tem uma boa ideia de si próprio. Seria desperdiçar o meu intelecto!
            Tenha juízo !

            Rui Santos

  3. Pai pode haver vários, Mãe há só uma.

    Americanizacoes, acrónimos, emojis, eliminação de vocábulos. Não sairemos melhor

  4. Com tanto problema no mundo andam a dificultar o que é fácil e a extorquir-lhe a significação originária e essencial.

    1. Chamam “guerra cultural” a estas tretas. Sem perceberem sequer que quem vai à guerra dá e leva.
      Novas intolerâncias destas pseudo-vanguardas que acabam por despertar intolerâncias muito mais antigas. Como se vê em toda a parte.

  5. Ainda no século passado, quando da minha ida ao Rio de Janeiro num Março chuvoso, como cantava Elis Regina, tive uma discussão amigável com um professor universitário carioca acerca do Dia dos Pais, que é como se diz no Brasil. À minha explicação sobre se comemorar a 19 de Março ( lá comemora-se se não estou em erro no segundo domingo de Agosto) o único pai que Jesus teve neste dia de S. José, contrapôs o douto senhor que não se deve comemorar apenas um pai, mas sim todos os pais do mundo, relegando a raíz cristã da efeméride para segundo plano. Como cada pessoa deve celebrar o seu próprio pai, perguntei-lhe quando pais teve. Ficou escandalizado. Terá quiçá pensado que eu estava a ofender a mãe? Susceptível o senhor… enfim.
    Acredito piamente que este é mais um meretrício das nossas tradições , qual AO90.

    1. Em doses galopantes. Aparentemente sem ninguém estranhar.
      Aliás a escrita “brasileira” – que adopta em grau crescente a sintaxe corrente nos EUA – vigora aqui como se fosse padrão.
      Não tarda muito e haverá quem mencione a “variante europeia” do português. Como se a equiparasse a um vírus.

    2. Cara Maria Dulce,
      O argumento do dia de São José parece um bom argumento mas se formos ao detalhe, se calhar, não é.
      Em latim acrescentava-se sempre PP, à frente de São José; “putativus pater” daí os Josés espanhóis “serem” tratados como Peões.
      Ora São José era um pai putativo, o verdadeiro pai era Deus (para os crentes).
      Jesus tinha país.
      Quanto ao tema do postal, concordo com a análise do Pedro.

      1. Entendo a sua explicação, mas não concordo com esta pluralidade. E isto não significa que seja homofóbica ou coisa que o valha, apenas penso que O pai é quem cria e ama. A biologia é muitas vezes pormenor.

      2. Errata: Jesus tinha pais (o pai putativo e o pai verdadeiro).
        Nesse sentido, dia dos pais parece fazer sentido assissiado ao dia de São José.
        No Brasil comemora-se o dia da mãe no dia da padroeira de Portugal, Nossa Senhora da Conceição o que não deixa de ser um delicioso anacronismo. Já na república portuguesa adoptou-se uma rotatividade ridícula é o primeiro domingo de Maio, o dia da mãe, portanto, pode ir de 1 a 7 de Maio, depende dos caprichos do calendário.

  6. – Oh,pá! estou tão contente, o meu filho disse hoje a primeira palavra.
    – Ai sim? e qual foi? guardiã ou guardião?
    – Cócó.

    1. Ah, bom. Cocó é fixe.
      Por momentos receei que o “amigo” ou “amiga” dissesse “mamã” ou (pior) “papá”.
      A “malta” lá teria de a/o remeter ao campo de reeducação mais próximo.

      1. A continuar assim a matar palavras, qualquer dia em vez de falarmos uma língua viva falamos uma língua morta.

          1. Com tanta “amariquice “se calhar é melhor fazermos um desenho para “eles” verem quem é o pai da humanidade. Sempre se poupavam mais de mil palavras.

          2. Progenitor, não. Animal mamífero que passa a receber abono de família.

          3. ‘Progenitor é, em primeiro lugar, «aquele que gera anteriormente ao pai; ascendente; avô»; mas trata-se ainda de «procriador; pai» e «iniciador; promotor; criador; fundador». No plural (progenitores), significa «avós; antepassados; pais». A palavra vem «do lat[im] progenitōre-, “avô; antepassado”». Por sua vez, genitor (do lat[im] genitōre-, “criador”) é «o que gera; pai» [in Dicionário da Língua Portuguesa 2008, da Porto Editora].’

            in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/sobre-as-palavras-progenitor-e-genitor/27617 [consultado em 22-03-2021]

            Talvez seja melhor não mexer e deixar estar como está. Digo eu.

  7. Ainda há pouco tempo estava a comentar este assunto com as crianças.
    Não sou progenitora ou guardiã. Sou mãe.
    Os seres humanos têm mãe e pai. Mesmo que não saibam quem são. Mesmo que estes não mereçam o epíteto.
    Mãe e pai são das poucas verdade absolutas que temos na vida.

    1. Não há marido: há “parceiro”.
      Não há namorada: há “compincha”.
      Não há menino nem menina: há “malta” ou “pandilha”.
      Não há pais: há “progenitores”.

      Bem-vindos ao abominável mundo novo. Idioma oficial: novilíngua.

  8. O desespero atual de “igualizar” o que é diferente, diferença essa que pode ser assumida sem preconceitos.
    A frase “Por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera”, cada vez está mais errada, segundo as novas “inclusões”.

    Marco Antunes

        1. Tem a ver com a presunção, nesse ideário do século XVIII, de que a Igualdade se alcança pelo Igualitarismo.
          Um erro que conduz hoje à dificuldade em aceitar a Diferença.
          Que neste caso, do Post “Como se fossem obscenidades”, tem a ver com as diferenças de género, de concepção do que é uma “família”, e das designações e atitudes perante elas.
          Sem discutirmos essas concepções que estão a montante, jamais avançaremos naquilo que sofremos a jusante.

    1. A principal obsessão desta gente é moldar a sociedade à medida da sua ideologia. Utilizando métodos totalitários, se for preciso. Queimando livros, escondendo quadros, proibindo filmes e séries. Promovendo crimes de lesa-cultura em nome da “liberdade”.

      1. Partir estátuas, rebentar monumentos, usar um turbante, e as mulheres uma burca, é só o que falta para nos tornarmos uns verdadeiros Aiartolas portugueses.

  9. Parece uma luta contra moinhos de vento. Quantas pessoas conhece que deixaram de dizer pai e mãe? E em que escola concreta viu um documento deste género ser implementado realmente, com as pessoas a seguirem as recomendações?
    É dar muita importância a malucos.

        1. Os Neo-Marxistas estenderam a sociedade de classes sociais para uma sociedade de classes raciais e classes sexuais com grupos pré culpados e pré-virtuosos que precisam de salvação dos primeiros obtendo e assim poder e reconhecimento para eles próprios num mecanismo de promoção/manipulação social.
          Os terraplanistas não me parece que tenham criados anjos e demónios…

  10. Não há pachorra para estes “iluminados”! Parabéns pelo novo look do Blog. É sempre bom de vez em quando inovar.

  11. O melhor tratamento que se deve dar a gente que usa de má-fé e que pretende desconstruir a sociedade, cultura e História do Ocidente – já nem o escondem, são já frontalmente agressivos e insultando tudo e todos no caminho -, é dar desprezo e tratar essa gente como merece: como Não passam de reles burgueses acéfalos, cheios de boa vida e, que a todo custo, pretendem protagonismo, sonham tornar-se num comissário partidário qualquer desde que possa perseguir livremente os outros. Nem Orwell, se atreveu a imaginar um Mundo tão disruptivo!

  12. Está certo. Assim as crianças que têm dois país e ficaram confusas por não terem pai e mãe, ficam a perceber que um dos pais é a mãe. A dúvida com que ficam é a de saber de que traseiro nasceram. Um dia também há-de haver resposta vanguardista para o mistério. Ainda por cima pai é macho. Os autores/autoras do manual de “linguagem inclusiva” distraíram-se. Deviam propor a proibição do termo.
    Eliminavam-se os dias da mãe e do pai e instituía-se o dia da população maior de idade e livre de género que dá cama, comida e roupa lavada à população de idade menor também ela livre de género. Assunto resolvido. Goebbels ainda aprendia alguma coisa se vivesse esta contemporaneidade vanguardista, assexuada e degenerada..

  13. Enquanto teimarem em não aceitar discutir a actual mudança no conceito e na re-engenharia do Corpo … E não se penitenciarem por terem criticado Descartes, insistindo num Monismo ingénuo (como “O erro de Descartes”, “emoção e razão”, e outros dislates semelhantes) … Esta discussão será um jogo de sombras, mal-entendidos e de falácias sem fim.

  14. Lindíssima imagem, bem ao estilo da classe média alta norte americana dos anos 60.
    Mas diga-me, o que faz aquele senhor a fumar cachimbo junto das crianças e da ninhada?
    Se a gaja do PAN, que agora quer ser a chefa, topa isso, ela que anda a berrar que se deve dar dias de nojo pela morte de animais que dormem com as pessoas na cama, à excepção das pulgas, piolhos e percevejos, o que demonstra que o PA é xenófobo e racista… meu caro Pedro, você vai sofrer.

  15. Com o politicamente correcto andamos nisto: não se pode dizer o “vírus chinês”; mas pode-se dizer a “variante inglesa”, ou a “variante brasileira”, sem se perceber quem comanda isto, porque tem que haver alguém a comandar. Serão os jornalistas, ou serão os estagiários de jornalistas? Eu acho que a coisa passa pelos jornalistas.

    1. Quase já não há jornalistas. Somos uma espécie em vias de extinção.
      Qualquer dia enviam-nos para um “parque temático” lá nos confins do Alentejo, tipo reserva de índios.

  16. Dentro de algumas décadas será mais fácil para o estado retirar as crianças a guardiãs e guardiões (que detêm a custódia), do que ter de retirar filhos a mães ou pais.
    A nova linguagem também servirá para isso.

  17. Faz muito bem em protestar…
    Ainda nao tenho opiniao, mas tenho sobre o domestico Marcelo, e como se verá, neste momento o Pedro ainda está ao nivel do Marcelo.
    Marcelo disse : a europa andou mal na suspensao da vacina
    Traduzo : eu, Marcelo é que sou o ronaldo de tudo, a europa sao um bando de imbecis.
    (um Reino no norte da Europa ja mandou chamar o embaixador, para certificar-se se o comandante de forças militares de um pais chanado portugal, consegue atingir o reino, pois á frente de um pelotao de golfinhos ) .
    E o jornalista ainda vincou : Marcelo deixou o aviso.

    Imagino que as universidades citadas no post, tambem estejam receosas…
    ah, boa semana senhor Pedro

  18. 1. “A Escola Camilo Castelo Branco pediu a intervenção da “Comissão de Proteção de Crianças e Jovens”. E o Ministério Público de Famalicão instaurou um processo contra os Pais”.
    2. Artur Mesquita Guimarães pediu para os dois filhos não serem obrigados a assistir à disciplina (obrigatória) de “Cidadania e Desenvolvimento”, no que se refere aos temas “sexualidade e igualdade de género”. Por entender que “veicula certas concepções do mundo e da vida que dão lugar à objeção de consciência”. E que devia, por isso, ser uma disciplina de «opção» como a “Religião e Moral”.
    3. O pai, moveu dois processos no Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga contra o Ministério da Educação no início do ano lectivo 2018-2019.
    4. Centenas de pessoas assinaram uma petição, entregue ao Presidente da República (Marcelo Rebele de Sousa), a apoiar o pai destas duas crianças. Entre elas, Passos Coelho e Cavaco Silva.
    5. Entretanto os filhos acumulam faltas injustificadas.
    6. Recentemente, em 2021, o Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga veio dar razão (parcial) aos Pais.
    7. Mas o Ministério da Educação prossegue a perseguição, legal, certamente apoiada na atual Constituição.

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