Como se as balas tivessem ideologia


Pedro Correia,

 

A CGTP convocou para o fim da tarde de hoje, em Lisboa, uma manifestação "solidária com os trabalhadores, sindicatos e povo hondurenhos". Por considerar que "os trabalhadores e o povo português não podem ficar indiferentes face às inaceitáveis violações dos direitos humanos e da soberania do povo das Honduras".

Certíssimo. Fico agora à espera de que a CGTP convoque uma manifestação "solidária com os trabalhadores, sindicatos e povo iranianos" e uma manifestação "solidária com os trabalhadores, sindicatos e povo chineses". Por considerar que "os trabalhadores e o povo português não podem ficar indiferentes face às inaceitáveis violações dos direitos humanos" dos povos do Irão e da China.

E fico à espera disso por considerar que a indignação selectiva, pelas Honduras, de nada vale se ao mesmo tempo se estender um véu cúmplice de silêncio sobre as atrocidades que têm vindo a ser cometidas no Xinjiang e no Irão. Pior: ficaria mesmo a suspeita, mais que legítima, de que a CGTP não está afinal preocupada com a violação dos direitos humanos, mas a servir, uma vez mais, de dócil instrumento da visão estratégica e dos interesses eleitorais do Partido Comunista, incapaz de chamar bala assassina a uma bala assassina desde que seja disparada pela polícia e pela tropa de um ‘país irmão’ ou em guerra ideológica com os Estados Unidos. Como se as balas também tivessem ideologia.

10 comentários em “Como se as balas tivessem ideologia”

  1. Boa malha. Há critérios e critérios e amigalhaços e amigalhaços. O PCP leva tempo a mudar, é tudo uma questão de paciência e de deixar passar o tempo. Entretanto, vamos rindo com o que dizem e fazem 😉

  2. Não lhes bastava a incapacidade para fingir que descolam um nadinha do PCP; agora até expõem a sua solidariedade (?) internacional com base ideológica e sem critério democrático. Perdem a razão na proporção em que perdem a vergonha.

  3. Pedro:

    Excelente “post”.
    A conclusão que se tira é que há uns “povos” mais democráticos que outros, este tipo selectivo da CGTP e do PC cheira-me a racismo se assim se poder chamar.
    Já acabaram (férias) e volto com as baterias carregadas.
    Um abraço Pedro.

  4. A CGTP nunca esteve preocupada com a violação dos direitos humanos, mas a servir de instrumento da visão estratégica e dos interesses eleitorais do Partido Comunista, que a meu ver está em declinio … vamos assistir com o passar dos anos a um comunismo cada vez democratico … mas é só pa inglês ver.

  5. Faço minhas as palavras de André Couto.
    E acrescento um agradecimento por não ter deixado passar “isto” em branco – para isso já basta muita comunicação social.

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