Como a globalização nos impede de sonhar


realmagic,

Há uns tempos fui a um hipermercado fazer umas compras rápidas e, ao percorrer apressadamente os corredores, destacou-se um expositor inserido no espaço gourmet, onde esplendorosas e reluzentes se exibiam umas dezenas de latas de chá da Mariage Frères. Fiquei surpresa e contente por encontrar disponível um produto que julgava só haver na própria Mariage Frères, ou Museu do Chá, em Paris. Pensei logo que poderia comprar mais latas, com diferentes variedades de chá para juntar à que adquiri na viagem que fiz à capital francesa. Porém, com o turbilhão de pensamentos outro sentimento se apoderou de mim, um que me fez até ficar triste, pois apercebi-me da falta de magia que há em toda a globalização. A ideia de irmos a um lugar distante, adquirir artigos que só existem nesse mesmo lugar, por fazerem parte da história, da cultura, das características da região, está completamente posta de lado. A descaracterização é crescente e fatal. É certo que traz para os que não viajam uma possibilidade única de tocar os pedacinhos que compõem o mundo, mas retira por completo a unicidade a quem viaja, a quem sente o cheiro de outras terras que não a sua. E o pior é que nos rouba os sonhos, porque materializa aquilo que antes só os livros e os filmes nos davam a conhecer.

19 comentários em “Como a globalização nos impede de sonhar”

  1. Continua a haver muitas coisas que só podem ser apreciadas nos diferentes locais. E embora as lojas fiquem mais parecidas, a variedade disponível em cada local é muito maior. Há tanto tempo que os produtos andam em bolandas de um lado para o outro! Mesmo esse museu do chá é um produto da globalização, pelo seu raciocínio dever-se-ia ter que ir a uma região específica da China para adquirir esse produto!

    1. A globalização tem grandes vantagens e a difusão cultural é uma delas. Este meu desabafo reflecte a ambiguidade que eu própria sinto em relação a este tema.

  2. Compreendendo o post, eu diria que é muito mais agradável dispôr dos produtos do que sonhar com eles.
    Em recente viagem a Espanha comprei um pimentón espanhol muito bom. Preferiria poder comprá-lo cá em vez de ter que sonhar com uma próxima viagem a Espanha – que não sei se se realizará – para poder voltar a tê-lo.
    É claro que esta disponibilidade internacional dos produtos é sobremaneira prejudicial para as pessoas que gostam de causar inveja aos outros com as viagens que realizam e os produtos que no decorrer delas adquirem. E é sabido que a inveja é um sentimento de extrema importância nas relações sociais dos portugueses.

    1. Sonhar faz bem à mente, desanuvia. De qualquer modo, entendo que o que nos faz falta é ter à mão o que realmente precisamos, não artigos que nos recordem viagens, mas os que melhoram os nossos dias.
      Quanto à inveja, não me parece que seja um sentimento muito português, acho que é mais o dizer mal uns dos outros, só porque é mais fácil do que valorizar o que temos de bom, mas claro, são tudo meras opiniões.

      1. “..acho que é mais o dizer mal uns dos outros, só porque é mais fácil do que valorizar o que temos de bom…”

        Ergo…incluí dizer mal da globalização só porque é mais fácil…do que valorizar…etc etc etc…

  3. Eu em Espanha comprei, por tuta e meia, uma espécie de sertã larga com buraquinhos no fundo que é ótima para assar castanhas. Já procurei cá e não encontrei nada igualmente prático. Parece que a globalização ainda não chegou aí.

      1. Sim, assadores em barro (e mais modernos em alumínio) encontram-se em qualquer lado. Mas ocupam imenso espaço numa cozinha, pois são volumosos. A sertã que eu tenho é muito mais maneirinha, pois é plana (é uma sertã, lá está).

  4. bem certeiro. Senti omesmo quando voltei a uma cidade alemã onde comprava artigos quenem imaginava quehouvesse e agora uns anitos(15)voltei entusiamado e encontrei a rua cheia combeneton, Zara.. que tenho a cinco minutos a pé da minha casa. deu-me uma tristeza tão grande que estava desejoso de voltar para o meu maravilhoso sol e praia.esse sim por mais que se pintem nunca vão ter igual ao que eu tenho aqui, povoado por estes casmurros de quem eupasso a vida a dizer mal mas que não troco por outros (só os governantes é que não me importava que fossem alemaes).

    1. Muito bem, é isso mesmo, concordo a 100%. Que nos inundem com a globalização, que nos insultem por sermos pequeninos, mas que não nos roubem o sol e a alegria de viver que são a marca do nosso povo, aquele que por esse mundo fora fez grande e fez história.

    1. Todos os comentários são bem vindos, mas fica a rectificação que não escrevo em discurso mas sim em crónica, que tem o tom adequado ao que quero provocar, nomeadamente, controvérsia. Missão cumprida! 😉

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