Comer (10)


Pedro Correia,

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Às vezes os pratos que cozinhamos nascem assim: de um imprevisto que sabemos captar a tempo. Aconteceu-me com este. Estava seguir uma série israelita na Netflix chamada Atropelamento e Fuga (“Hit and Run” no idioma do império), quando vi duas personagens, já roídas pela fome, recorrerem à tradicional comida de rua, ali tão em voga. Comiam o quê? Algo chamado chakchuka. Popularíssimo não apenas naquele país, mas em toda aquela região do mundo, talvez com outros nomes e diferenças pontuais de ingredientes.

Fiz uma pesquisa rápida e tratei de passar aos actos. Não sei se convosco sucede o mesmo: gosto de descobrir a chamada cozinha “exótica” (só é exótica para quem a não conhece, podendo a nossa também ser classificada assim por aqueles que nunca a provaram). Tenho feito boas descobertas graças a esta curiosidade inata, aguçada pelo apetite. Foi o caso.

 

Será comida de rua, banal naquele contexto, mas é deliciosa. Com ingredientes muito simples: dois ovos, pimento, tomate, cebola, alho, umas fatias de pão. Condimentos: salsa, cominhos, pimenta, açúcar.

Começo por fritar a cebola em duas colheres de azeite, frigideira em chama alta. Junto meio pimento vermelho cortado em tiras, pico um alho e envolvo-o na cebola. Três minutos bastam antes de adicionar quatro tomates em pedaços, mantendo o lume alto até borbulhar. Avançam então os temperos: salsa, pimenta (malagueta, sem sementes, pode ser boa alternativa), uma colher de café de cominhos e uma colher de sobremesa de açúcar (ou mel) para cortar a acidez do tomate.

Tapo a frigideira, fica cerca de um quarto de hora em lume brando.

Entretanto vou cortando fatias de pão – calhou-me ser pão de gengibre, já encetado – e um pedaço de queijo feta. Cobrem a base do prato, aguardando companhia. Chegará após escalfar os ovos na frigideira abrindo ali duas pequenas covas para o efeito. Concluída esta etapa, fica pronto a servir.

Antes de verter o petisco, ainda o polvilho com manjericão e azeitonas.

 

Poder-se-á chamar a isto comida mediterrânica? Creio que sim. Israel fica à beira do Mediterrâneo.

Faz falta carne? De modo algum. 

E eis como uma banal série televisiva, com tiros e perseguições de automóvel, pode servir-nos de inspiração para um prato fácil, barato e muito saboroso. “Comida exótica”, dirão os tais do império. Exótico, para mim, é comer bacon ao mata-bicho, hamburgers ao almoço e hot dogs ao jantar. Não me apanham nessa.

18 comentários em “Comer (10)”

  1. Este prato, não é israelita. Não é Judeu.
    É de origem tunisiano.
    O Pedro não viu este prato de “rua” a ser vendido, comido em áreas israelitas, mas sim na Judeia, área “palestiniana”, Cisjordânia..

    1. Agradeço o seu reparo. Mas a série é israelita. Foi lá que “descobri” este prato.
      Pelos vistos, popularíssimo em Israel e países adjacentes. E, como assinalo, «em toda aquela região do mundo», banhada pela larga bacia mediterrânica – e mesmo para além disso. Vi um prato muito semelhante, também de comida de rua, em Istambul. Com outro nome.
      Como também observo, a chamada “dieta mediterrânica” avulta logo pelos ingredientes. Infinitamente mais saudável do que a “comida do império” que a publicidade, o cinema comercial e os videoclipes comerciais querem impingir-nos a toda a hora, da mais tenra idade até à velhice.

  2. É comida mediterrânica, pois claro! Tem o nosso azeite e o nosso tomate, e só de ler já fiquei com água na boca. Costumo fazer uma versão ligeiramente mais simples, mas tenho de experimentar esta, que deve ser ainda mais saborosa – se bem que sem queijo, pois (infelizmente) não sou apreciadora. Bela sugestão!

    1. É isso, Ana. O queijo é inteiramente facultativo, como se percebe. Os ingredientes e os condimentos podem ser adaptados e aproveitados consoante o que estiver mais à mão no momento de cozinhar. Mas resulta sempre, seja Inverno ou Verão, seja noite ou dia. Tem a base que configura o essencial da nossa cultura gastronómica, sem importações absurdas e nada saudáveis.

  3. É bastante rápido e a base de muitos pratos é esse refogado com cebola alho, pimento, tomate (exemplo, massinha ou arroz de peixe. Também a uso, ainda que em maior quantidade, para cobrir bacalhau ou outro peixe que vá a assar no forno ). A mim parece-me uma espécie de receita alentejana com sopas de pão e ovos escalfados:), há quem lhe chame sopa de tomate. E a sopa de peixe não difere assim tanto.

  4. Upa, upa que delicia.
    Costumo fazer como se tratasse de ovos escalfados, com:
    Ovos.
    Tomates grandes e maduros, picados em pedaços
    Cebola grande picada.
    Pimentão vermelho meio grande picado
    dentes de Alho amassados.
    Salsa picada
    Sal, Cominho e Pimenta.
    Preparado com explicou, abrindo os ovos a meio e deixar escalfar.
    Julgo que é uma receita do Mediterrâneo incluindo os judeus espalhados de Marrocos à Palestina. O tomate também é um produto da terra e como tal pode ser incluído num Shakshuka kosher.
    Nessa série, não sei se tem reparado no sotaque da pronúncia de palavras, sem ser em hebraico, com muitas semelhanças da nossa.

  5. Olá. Vi a mesma(excelente) série e reparei no preparado ! Ficou-me na vista, ouvido, e paladar a haver…
    Experimento em breve, por enquanto estou entretido a fazer biscoitos areados, abraço amigo.

  6. No outro dia estava a ver um programa do Bear Grylls e ele apanhou uma iguana e comeu-a, nem perdi tempo, fui logo para a rua e em falta de iguanas, apanhei uma sardanisca, mas coitada, era tão magrinha que deveria estar com mais fome do que eu, soltei-a e fui ao Mac.

  7. Ah… grande coisa esta comida barata. Eu faço esta receita sempre que rapo o frigorifico…
    Como se descobrisse a pólvora…- deve ter arrematado tudo com uma garrafinha da “Cartuxa” !
    Esta gente que escreve sempre com manias…-tudo uns tesos!

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