Coisa em forma de assim


Pedro Correia,

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António Guterres, rezam as agências, «saúda o acordo de paz» ainda por formalizar entre Teerão e Washington. Talvez o memorando de entendimento venha a ser assinado na próxima sexta-feira. Se não chover.

Estou a ficar velho. Ainda sou do tempo em que os secretários-gerais da ONU reuniam as partes, promoviam o diálogo e fechavam acordos de paz. Guterres limita-se à inútil saudação protocolar, como se fosse polícia sinaleiro.

Não teremos saudades desta coisa em forma de assim em que se transformou a ONU durante a década decorrida com ele à frente.

34 comentários em “Coisa em forma de assim”

  1. “…como se fosse polícia sinaleiro…”!? Por favor não implique os referidos. A criatura envegonha-nos a todos.
    Nada que o cheiro a água benta não fizesse prever

  2. Guterres não pode chegar ao pé do Trump e dar-lhe um calduço. As coisas não funcionam assim. Temos de ter paciência e aproveitar o sol, a sardinha e a imperial.

    1. Quem lhe deu um calduço foi o ditador Putin ao sentá-lo no extremo oposto daquela mesa de 12 metros, pondo-o mais titubeante que nunca.
      Parecia uma célebre cena de “Citizen Kane”, com Guterres no papel da esposa de Charles Foster Kane ao fim de uns anos de matrimónio entediante.

  3. Uma anémona gelatinosa, das que nem sequer picam, só provocam uma comichão irritante.
    Abraço amigo, boa semana

  4. “Estou a ficar velho. Ainda sou do tempo em que os secretários-gerais da ONU reuniam as partes, promoviam o diálogo e fechavam acordos de paz.”
    A isto chama-se ter saudades de um sítio onde nunca se esteve.
    Qual foi o conflito em que entrasse um dos cinco membros do Conselho de Segurança com direito a veto, ou Israel (que é o mesmo que os EUA) que foi resolvido na ONU?

      1. As Coreias ainda estão em guerra. Os EUA e a China queriam acabar a guerra, não foi a ONU que decidiu isso
        Koweit foi resolvido com a derrota do Iraque pelos EUA, depois disso Bush pai não estava interessado em continuar a guerra no Iraque porque era duvidoso que a vencesse. Um caso flagrante em que o filho é mais burro que o pai, este continuou a guerra com o Iraque, borrifou-se na ONU e perdeu a guerra.

  5. É um amouchar perante toda a bandalheira:
    A Rússia invade.
    O Irão assume ter agentes armados a controlar largas áreas do Líbano.
    O Trump faz o que lhe dá na gana…

    1. Vá-se lá entender a coisa:
      A ONU deveria representar e fazer cumprir a sua carta, o direito internacional e os direitos humanos. Hoje Ela está maioritariamente composta por ditaduras. Quem a financia são as Democracias! Nas Democracias reina o activismo ou ódio contra a Ordem e a Soberania, o desejo pelo insucesso ou derrota da Democracia! As ditaduras chamam a si a moral da liberdade e dos direitos humanos!

      António Guterres como secretário geral da ONU apenas prova que as instituições tendem a sucumbir quando tomadas por liderança fraca e ou pantanosa.

  6. Guterres-GPT

    Para poupar nos croquetes, nas ajudas de custo e nas emissões de carbono das cimeiras do clima onde os líderes mundiais vão todos de jato privado, a ONU decidiu finalmente substituir o engenheiro Guterres por um chatbot. E a verdade é que não se notou diferença absolutamente nenhuma. Aliás, a produtividade da inutilidade disparou.

    Se antes tínhamos um secretário-geral que operava como um polícia sinaleiro a quem tinham roubado o apito, agora temos o ChatONU (ou Guterres-GPT, se preferirem), um modelo de linguagem treinado exclusivamente com mil milhões de comunicados de imprensa vazios e resoluções vetadas no Conselho de Segurança.

    Eis como o algoritmo reage aos acontecimentos da nossa desgraçada atualidade:

    Acordo entre Teerão e Washington? O bot nem sequer precisa de olhar para a meteorologia para ver se chove na sexta-feira. Dispara logo a macro automática antes mesmo de os diplomatas se sentarem à mesa:

    [INICIAR PROTOCOLO DE SAUDAÇÃO INÚTIL]
    “Saúdo vivamente o acordo entre [INSERIR PAÍS A] e [INSERIR PAÍS B]. A diplomacia venceu. Por favor, não se esqueçam de assinar os PDFs com certificado digital. Em caso de violação do tratado, tentem desligar e voltar a ligar os reatores nucleares.”

    Novos bombardeamentos no Médio Oriente ou na Ucrânia? O algoritmo deteta as palavras “míssil” e “civis” e cospe imediatamente o seu prompt defensivo padronizado:

    “Como um modelo de linguagem da ONU, não tenho capacidade militar, mandato ou espinha dorsal para travar massacres. Mas estou profundamente consternado. Infelizmente, a minha base de dados de ‘Capacetes Azuis’ está corrompida. Quer que lhe gere um poema triste sobre a paz em formato haiku?”

    Crise Climática Severa? O bot simplesmente sugere aos refugiados climáticos que apaguem o histórico de navegação e limpem os cookies para ver se o nível do mar desce.

    A verdadeira revolução na sede em Nova Iorque é a otimização do tempo. O Guterres humano demorava, no mínimo, dois dias úteis a treinar aquele sobrolho pesado e a assumir um ar grave de quem tem o peso do mundo nos ombros, para depois vir para a televisão não fazer absolutamente nada. O Guterres-GPT consegue não fazer absolutamente nada em 0,4 milissegundos. É a inação à velocidade da fibra ótica.

    Acabou-se a figura do intermediário trágico, daquele estadista clássico que fechava acordos de paz a altas horas da madrugada à base de uísque e ameaças veladas. O ChatONU é a versão final da burocracia internacional: não sente, não sofre, não resolve. E se o planeta explodir numa Terceira Guerra Mundial, a resposta automática já está programada:

    “Erro 404: Humanidade não encontrada. A sua sessão de Direitos Humanos expirou. Por favor, tente fazer refresh à civilização mais tarde.”

  7. Muito injusto o que acabou de escrever. Entendo que não se aperceba disso, mas, utilizando uma expressão da minha avó, quando eu falava de coisas que desconhecia, “calado és um poeta”, ou, menos profundo e de outras origens, “aquele que sabe, não fala; aquele que fala, não sabe”. No resto, excelente blog.

    1. “Calado és um poeta” foi precisamente a expressão que me veio à mente em Janeiro deste ano, quando Guterres endereçou calorosas felicitações, pelo “47.° aniversário da revolução islâmica”, à feroz teocracia de Teerão que acabara de massacrar cerca de 30 mil manifestantes da oposição, quase todos jovens.
      Um gesto moralmente repulsivo.

    1. Esse mexia os quadris e saía do Palácio de Vidro para ver os problemas “in loco”. Tramou-se por não se limitar a balbuciar abstractas declarações a favor da “paz”, como se fosse subdelegado do Papa ou péssimo sucedâneo de Miss Universo.

  8. João Vale de Almeida, ex-Diretor-Geral das Relações Externas da UE, ex-Chefe de Gabinete de Durão Barroso, ex-embaixador da UE junto dos EUA, Nações Unidas, e Reino Unido, e actualmente Presidente da ODI Europe, e membro do Conselho Estratégico do European Policy Center e do Conselho de Curadores da Fundação Oceano Azul (insuspeito, pois, de qualquer ligação político-ideológica com António Guterres) em entrevista ao DN (4/12/2025):
    “As pessoas muitas vezes dizem: Ah, o secretário-geral, por que é que ele não faz mais?
    O secretário-geral tem o poder que o Conselho de Segurança lhe dá, e que a Assembleia-Geral lhe dá, mas sobretudo o Conselho de Segurança. Então não podemos pedir ao secretário-geral que faça omeletes sem ovos.
    E, de facto, o Conselho de Segurança não está a dar esse mandato, claro, e esse apoio e essa solidez de que o secretário-geral precisa.
    Portanto, eu ainda acredito nas Nações Unidas, elas têm de ser reformadas e António Guterres tem feito muito para as reformar, mas ele tem de contar com os Estados-membros.
    As Nações Unidas serão o que os Estados-membros das Nações Unidas quiserem que elas sejam. Agora, se temos os P5, que não se entendem; se temos os P5, que violam a Carta; se temos os P5, que retiram o financiamento, como está a fazer agora o Sr. Trump, como é que se quer que a ONU funcione?”

      1. Com todo o respeito, obviamente, que se percebe que o Pedro Correia, desde há longa data, não morre de amores pelo político António Guterres.
        Curioso é que ainda hoje (17/06), vi uma entrevista ao canal NOW, do mesmo João Vale de Almeida, que entre outros temas (guerras da Ucrânia e Irão, relações EU/EUA e China, Nato, política norte-americana, mandato de Trump, futuro do Partido Democrata, etc., etc.), abordou a crise do multilateralismo e da ONU.
        Reafirmando que a ONU atravessa uma crise considerável, estando à beira da irrelevância caso não passe por reformas profundas (nomeadamente do Conselho de Segurança) para se adaptar à geopolítica actual, em nenhum momento associou essa crise ao papel do SG, António Guterrres.

        1. Meu caro, não posso ter grande respeito por um político que abandonou funções em Portugal por vontade própria, não por escolha dos eleitores, alegando que o fazia para evitar que o País caísse num “pântano político”, declarações que um quarto de século depois muitos de nós (eu incluído) ainda não entendemos.
          Isto para quê? Para uns anos depois ter personificado, ele próprio, o maior pântano político da história da ONU.
          Diga Vale de Almeida o que disser.

          1. Caro Pedro Correia
            Quanto ao papel Guterres enquanto SG da ONU, estou esclarecido sobre a sua posição.
            Sobre o “pântano de Guterres”, permito-me “discordar em diálogo”, ou seja, de uma discordância saudável que pode levar a uma compreensão mais completa de diferentes pontos de vista.
            Em 2001, após sofrer uma pesadas derrota nas autárquicas, António Guterres percebeu – o PS tinha nessa legislatura um deputado a menos da maioria absoluta e em 2 anos consecutivos os Orçamentos do Estado (2001 e 2002) são aprovados pelo voto favorável de deputado independente (CDS-PP) e autarca de Ponte de Lima, Daniel Campelo, naquilo que ficou então conhecido como “os orçamentos do Queijo Limiano” – que o país se mostrava ingovernável, o que Guterres denominou de “pântano político”, e apresentou a demissão.
            A verdade é que António Guterres tinha razão, como o demonstrou o resultado das eleições em que Durão Barroso obtém a maioria absoluta liderando o governo de coligação PSD/ CDS-PP (2002-2005), que terminou com a saída prematura de DB para presidir à Comissão Europeia, a sua substituição por Santana Lopes e à destituição deste com a dissolução da AR e a convocação de eleições pelo Presidente Jorge Sampaio.
            O “pântano de Guterres”, pelos vistos, continuou após a sua demissão, com a saída airosa de Durão Barroso de um país em profunda crise (mas hipocritamente justificada pelo próprio como uma “homenagem a Portugal pelo “prestígio que lhe é reconhecido”, bem como pela “capacidade de gerar consenso no contexto europeu”) e pelo conturbado governo de Santana Lopes marcado por “trapalhadas governativas”, instabilidade interna e uma demissão precoce.
            Cordiais saudações

          2. Meu caro: respeito naturalmente a sua opinião, mas não creio que a derrota do PS em 2001 tenha sido tão pesada.
            Vamos a números.
            Nas eleições autárquicas de 2001 o PS recolheu 1.792.690 votos, com percentagem de 34,1%. Elegeu 113 presidentes de câmara e 1523 juntas de freguesia.
            Nas eleições autárquicas de 2025, as mais recentes, o PS recolheu 1.852.641 votos, com percentagem de 34,6%. Elegeu 128 presidentes de câmara e 1190 juntas de freguesia.
            Não vejo grande diferença entre um cenário e outro.

            É verdade que em 2001 o PS perdeu 14 câmaras, algumas muito importantes. Mas chamar-lhe “pesada derrota” após seis anos de desgaste governativo, é excessivo.
            Guterres saiu porque estava farto, cansado, não lhe apetecia governar. E ambicionava já então outros voos, para longe do País.
            Como o futuro demonstrou.

  9. Pois, o Guterres socialista nem pintado a ouro.
    Mas esperemos pelo próximo e veremos se faz diferente. Não fará, mas como não será do PS não vai dar para marrar.
    Não me lembro do anterior ter feito diferente.

    1. Um mês depois do massacre de pelo menos 30 mil manifestantes iranianos, na maioria jovens, assassinados pela infame teocracia de Teerão por reclamarem pão e direitos políticos, Guterres teve o topete de endereçar “calorosas felicitações” aos verdugos e torcionários a pretexto do 47° aniversário da chamada “revolução islâmica”.
      https://www.rtp.pt/noticias/mundo/onu-enviou-calorosas-felicitacoes-pelo-47o-aniversario-da-revolucao-islamica-do-irao_n1718637

      Gesto indigno. Cuspiu sobre as tumbas dos assassinados.
      Esta afronta aos mártires da liberdade nunca será esquecida. Irá acompanhá-lo para sempre.

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