1. O País ouviu esta noite o primeiro-ministro, em entrevista à SIC, dizer pelo menos seis vezes que tudo fará para evitar uma crise política. E dizer pelo menos quatro vezes que tudo fará para evitar uma intervenção externa na economia portuguesa. José Sócrates confirmou, nesta entrevista, que vive em contínuo estado de negação. A intervenção externa é inevitável e a crise política já existe, aos olhos de todos: foi ele próprio quem a provocou ao anunciar um novo pacote de “medidas de austeridade” dois meses após ter garantido aos portugueses que não o faria. Agiu sem ter informado previamente o Presidente da República e a Assembleia da República, como é seu dever constitucional. E neste novo pedido de sacrifícios aos portugueses incluiu várias medidas que o PSD já recusara nas discussões que conduziram à viabilização do Orçamento de Estado, como a subida do IVA para certos bens alimentares e novos limites às deduções fiscais em sede de IRS. Mário Soares acertou em cheio no seu artigo de hoje no DN: este primeiro-ministro que vive de costas voltadas para o País cometeu nos últimos dias “erros graves”, “esquecimentos imperdoáveis” e “actos inúteis que irão custar-lhe caro”.
2. “A crise começou em 2008 por culpa dos mercados e não dos estados”, disse o primeiro-ministro. O mesmo que depois daquela data aumentou os salários dos funcionários públicos em 2,9%, baixou o IVA e anunciou o cheque-bebé, irresponsavelmente, só para vencer as legislativas de 2009 e voltar tudo do avesso no ano seguinte.
3. Como sempre, nem uma palavra de desculpa aos portugueses. Como sempre, nem o reconhecimento de uma falha. Em permanente estado de negação, Sócrates parece nem se dar conta da flagrante contradição em que cai. “Nós estamos muito confiantes com a nossa execução orçamental”, acentuou. Se está tão confiante por que motivo então acena ao País com a possibilidade de uma intervenção das instituições financeiras europeias ou do FMI em Portugal?
4. Dizem que a coragem é a maior virtude política dele. Não demos por isso esta noite. Porque não terá aproveitado a entrevista para anunciar a apresentação imediata de uma moção de confiança ao Parlamento?
5. “O País tem que se comprometer com as instituições internacionais e os mercados financeiros. Ou nós ganhamos a confiança das instituições europeias e dos mercados ou a alternativa é a intervenção externa.” Com tais declarações, proferidas na entrevista, o chefe do Governo acabou por fazer um balanço fidedigno do seu mandato. Seis anos e três dias depois de ele ter tomado posse, o País está nesta encruzilhada: pode escolher apenas entre o mau e o péssimo. Chegámos aqui pela mão de Sócrates.


O ponto 2 daria a pergunta do Milhão que a Ana Lourenço de aflita (é uma querida ela) não se lembrou de fazer!
Eu achei que a Ana Lourenço conduziu bem a entrevista. Fez as perguntas mais importantes. Pediu, por exemplo, uma reacção a Sócrates sobre o artigo de Mário Soares (pergunta que ele rapidamente chutou para canto, visivelmente incomodado com a opinião do patriarca do PS) e questionou-o duas vezes sobre a apresentação de uma moção de confiança (nada feito: o pretenso arauto da ‘clarificação política’ nem quer ouvir falar disso).
O ponto 2 é uma das maiores mistificações que se tem feito em torno dos “mercados”. Mas isso é impossível de explicar a quem tem preconceitos ideológicos contra o mercado e não admite que foi a legislação e pressão política que gerou a crise, lembremo-nos, do SUB-PRIME (“uma casa para cada americano” e as consequências que esse delírio teve).
O documentário ‘A Verdade da Crise’, de Charles Ferguson, galardoado com o Óscar, explica bem este fenómeno. Tenho pena que os exibidores portugueses tenham retirado este filme de cartaz logo após ter ganho a estatueta em Hollywood, ao contrário do que a lógica de mercado recomendaria.