Cinco breves notas de viagem (4)


Sérgio de Almeida Correia,

A sua origem remonta ao século V a.C. Hoje, ali, quase só se fala russo. Os ícones fazem parte da paisagem urbana. Os que por ali andam vestem camisolas de alças desportivas com cores berrantes, usam calções do Spartak de Moscovo, bonés da Pepsi, e calçam ténis e chinelos. Há matrioskas diferentes das que se podem comprar em Moscovo ou noutra qualquer cidade russa. E mulheres. Muitas. Umas louras, altas, vistosas. De chinelos. Outras enormes, feias, mal cheirosas, falando alto e empurrando.  De chinelos. Vendem-se ímanes, doces, imagens religiosas postais. Os preços estão em dólares e em euros.

A razão para esta parafernália é simples. Estou na região de Myra-Demre, onde viveu, foi ordenado bispo e morreu um senhor chamado Nicolau. Depois S. Nicolau, na actualidade, mais prosaicamente, um tal de Pai Natal que entra pelas chaminés, oferece presentes às crianças e transformou o último mês do ano, todos os anos, numa ode ao consumismo puro e duro.

Daí a razão para tantos russos. E de tanta gente na igreja de S. Nicolau. Mas ao contrário do que se possa pensar esta gente não veio até aqui para rezar, mergulhar na história ou tomar um banho de cultura. Eles não vieram para admirar o Teatro e as suas máscaras gravadas na pedra, nem para se impressionarem com os tumbas rupestres que escavacaram a montanha e ali continuam século após século, dominando a paisagem, ou sequer para apreciarem as escadarias do teatro grego, ao lado da colina. Esta gente veio para tirar fotografias. Em todas as poses possíveis e imaginárias, subindo para cima de pedras protegidas por todas as nações civilizadas como se fossem uns meros estrados ali colocados para eles e elas se plantarem nas posições mais inacreditáveis, quais adónis, quais ninfas, enquanto os guias lhes berram e eles, boçais, riem-se. E continuam. Aqui não me voltarão a apanhar. Ainda menos em 6 de Dezembro, dia da peregrinação anual a S. Nicolau. Só de pensar no que isto será nesse dia tenho pesadelos.

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