‘Chic’ espertismo


Pedro Correia,

O chico-espertismo tuga não é menos condenável quando surge com rótulo cultural. Há quem prefira chamar plágio ao roubo, o que soa sempre mais chic.

Mas quando o roubo é caucionado pelo Estado, com a Direcção-Geral da Educação a exibi-lo em itinerância pelas principais cidades do País e com “condições especiais de acesso para escolas”, a coisa torna-se ainda mais grave.

Se há experiência pedagógica a que as criancinhas devem ser poupadas é à da exibição do furto de propriedade intelectual. Se a moda pega, o Ministério da Educação ainda vai pô-las a ouvir o Tony Carreira: ou há moralidade ou plagiam todos.

Encurtando razões, exprimo aqui a minha solidariedade com Deana Barroqueiro. Como canta o Fausto, “quem conquista sempre rouba / quem cobiça nunca dá”.

40 comentários em “‘Chic’ espertismo”

  1. Imagine o Pedro que eu estive arredada da vida noticiosa-cultural-mera_cusquice durante um mesito.

    Explique-me quem plagiou quem, sff – se se refere ao Fernão, a lei do plágio não tem retroactividade, por muito que a SPA apreciasse… e quanto ao resto, estou a nadar.

    1. Faltava o último parágrafo, Pedro… agora, e com o comentário do Luís Eme, já começo a vislumbrar o que se passou e passa. Tenho que recolher mais dados mas, segundo depreendo do que escreveu Luís no seu blog, não há muitas notícias sobre o assunto…
      E sobre Fernão Mendes Pinto, relembro que surgiram ao longo da história detractores deste nosso bardo, acusando-o de adaptar trechos da Odisseia e da Ilíada – daí o meu comentário inicial.

      Ocorre-me apenas uma pergunta, para rebater ou para me unir à sua indignação contra o Ministério: A autora aceitou as desculpas, mesmo que esfarrapadas, ou antes recusou e diligenciou usar mecanismos legais para ressarcimento e reposição da verdade? Se o Ministério não sabe a resposta ou se Deana recusou as desculpas e recorreu aos tribunais, percebo e partilho a indignação. De outra forma, não – independentemente dos meandros que ainda desconheço.

      1. Segundo o Público, “a escritora pondera processar o cineasta”.
        https://www.publico.pt/2018/03/30/culturaipsilon/noticia/peregrinacao-joao-botelho-acusado-de-adaptar-romance-sem-autorizacao-1808610

        Segundo o JN, o cineasta admite ter havido plágio, de algum modo natural “nesta arte de vampiro que é o cinema”.
        https://www.jn.pt/artes/interior/joao-botelho-admite-plagio-na-adaptacao-do-filme-a-peregrinacao-9225354.html

        Tony Carreira já terá manifestado solidariedade ao realizador.

        1. Obrigada pelas ligações.

          Quando desperdicei o meu tempo a ver o “Moulin Rouge” de Luhrmann, fiquei indignadíssima porque não havia qualquer referência, nem sequer nas finais letrinhas pequeninas, à obra “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas, filho. Este Dumas estava morto e enterrado há mais de cem anos e ainda assim doeu-me a falta de reconhecimento por parte do argumentista (por parte de quem o viu doeu menos, actualmente o livro só é um clássico para alguns curiosos) .
          Não imagino como se sentirá Deana Barroqueiro. E não imagino… porque explodiria no processo! Tem a minha solidariedade – a solidariedade anónima de quem agradece o esforço e a disciplina e reconhece o mérito ao usufruir de uma obra.

          Quanto ao ataque ao Ministério da Educação: a publicação na DGE data de 31 de Outubro de 2017, as reacções da autora são muito posteriores – as notícias que me facultou são de 30/31 de Março de 2018, e numa delas Deana frisa que só se apercebeu muito depois da estreia.
          Coloquei uma pergunta, de cuja resposta dependeria, como disse, o rebate da ou o apoio na indignação contra o Ministério. Coloquei apenas uma porque não esperava da sua parte uma tal desatenção à cronologia – chamemos-lhe assim, permita-me acreditar que não foi omissão intencional.
          Perante a linha temporal, e a menos que o Pedro exija que haja órgãos que conheçam, de facto, todas as obras publicadas no país, o ME via DGE não merece (por este motivo) censura pelo apoio dado ao filme, muito menos a acusação de conivência que o Pedro faz.

          O Ministério deverá suspender o apoio, se e só se Deana avançar para acusações formais – sem tal, tudo não passará de um arrufo entre criativos. E o ME deverá demarcar-se e exigir restituição de quaisquer montantes avançados ou chegar a um acordo com todas as partes caso Deana ganhe a batalha. Se não o fizer, então sim merecerá o desdém e a acusação de promotor de plagiadores. Mas só assim e só então.
          Já o Pedro tem oportunidade de corrigir o seu lapso desde este momento, agora que reparou nas datas.

          1. Não há “ataque” nenhum ao Ministério da Educação: há a enunciação de um facto.
            Que funciona como alerta: estes filmes que não são concebidos para o circuito comercial mas para que o Estado os pague duas vezes – primeiro na fase de concretização, depois na fase de exibição – devem estar isentos de polémicas como a que agora veio a público.
            A partir de agora a Direcção-Geral tem o estrito dever de suspender a exibição do filme na sua “itinerância” pelo País em geral e pelas escolas em particular.

          2. Para gerar polémica não é preciso muito, basta alguém dizer qualquer coisa a um jornalista. E assim se queimam em praça pública este aquele e aqueloutro.
            Há mecanismos para mediar e solucionar acusações, e não são jornais nem redes sociais.
            Não retiro a razão a Deana – apenas demonstro que seria fácil impedir todo e qualquer apoio por parte do Estado a um qualquer projecto.

            Como afirmei, neste momento e sem acusação nos canais próprios, nada vejo que justifique a suspensão – ética passa por usar os mecanismos existentes para defender razões ou património, e o poder executivo deve estar atento às denúncias mas não pode nem deve andar a reboque destas. Ou então acabemos com o aparelho judicial, por inútil.

            Mas tem razão quando diz que houve enunciação de um facto; a omissão que o Pedro fez dos outros é que motivou o tom do meu comentário.
            “Mas quando o roubo é caucionado pelo Estado” ainda se poderia entender como exigência de seriedade ao apoiado, já o parágrafo seguinte estende a responsabilidade ao próprio Ministério. Sem benefício de dúvida e desde o primeiro momento.
            Parece-me que redefiniu “alerta” pelo exemplo do SIRESP… como está não funciona, Pedro.

  2. Estava quase para não comentar, Pedro, por ter escrito sobre o assunto no meu “Largo” (mesmo agora…).

    É uma vergonha, tudo. A apropriação, a desculpa do realizador e ausência de notícias nos ditos “jornais sérios”.

  3. Falta saber se alguém se dignou falar com Fernão Mendes Pinto! E não me venham que o nosso homem está morto. Pois, como todo o médico legista sabe, os mortos falam e nunca mentem!

  4. Este Ministro da Educação e seus acólitos … educam mesmo!

    — Uma escola secundária de Monte Abraão organizou uma estadia (nestas férias da Páscoa) de um fim -de-semana didáctico a Coimbra…
    Só que, os alunos percorreram 400 Kms (ida/volta) para ficarem confinados a uma uma quinta: – como tantas que existem aqui na zona de Sintra… Os “dedicadíssimos professores não se lembraram de mostrar um pouco da cidade aos seus alunos…
    Bilhete: 110E.

  5. Não se trata de plágio. Trata-se de uma adaptação ao cinema de uma obra literária. Isso não é plágio.
    É claro que João Botelho deveria ter declarado no filme (e na publicidade a ele) tratar-se de uma adaptação dessa obra, e não de outra. Mas, não estou certo de que seja um delito sancionado pela lei adaptar um romance a filme sem dar crédito a esse romance.

  6. O plágio não é roubo, na medida em que “propriedade intelectual” não é verdadeira propriedade.
    A propriedade é material, refere-se a coisas tangíveis e é perene (se eu sou proprietário de algo, sou-o por toda a eternidade até decidir vendê-la). A “propriedade intelectual” é uma concessão do Estado, não se refere a nada tangível e termina ao fim de alguns anos.

      1. A propriedade intelectual não se refere ao meio físico utilizado para a reprodução do conteúdo proprietário. Refere-se ao próprio conteúdo.

        1. E=MC2

          Da cabeça de Einstein e durante algum tempo sem conteúdo. Mas é dele, disso ninguém duvida. E o mesmos e se aplica a diversas formas matemáticas, que não tendo conteúdo têm autor.

  7. Vai desculpar-me, Senhor Pedro Correia, mas não vejo muita razão nessa sua excessiva rigidez ética, pela passagem do filme. É evidente que plagiar, seja lá o que for, se não fosse crime seria, no mínimo, anti-ético e condenável.
    Mas se o filme tem uma componente didáctica, se João Botelho já se penitenciou, afinal, que interesse tem para as crianças se a investigação foi feita por este ou aquele? Já sei, a verdade acima de tudo, mas… alguém ficou lesado? A historiadora que fez o alerta ficou prejudicada?
    O livro de Fernão Mendes Pinto, foi escrito só para ela?

    De condenar é o plágio de Tony Carreira que, a troco de 20 mil euros, calou as vozes discordantes…

    1. maria antonieta, a coisa passou para a área da educação.
      vou ligar aqui uns vocábulos a este:
      educação-formar(também)-princípios-valores.
      desfaçatez e falta de vergonha no rosto é que não ligam ali muito bem.

      1. Cristina M.
        Nesses seus pruridos educacionais não fazem parte a ética de escrever os nomes das pessoas com letra maiúscula? Que eu saiba uma pessoa é diferente de um objecto.
        Passe bem!

    2. A partir do momento em que a escritora decide que não vai exigir o que lhe é de direito, não vejo qual seja o caso nem razão para continuar essa campanha de destruição de imagem de João Botelho.
      Penso que é deitar o bebé fora juntamente com a água do banho (odeio essa frase, desculpem lá, mas agora teve de ser).
      O cinema e a cultura precisam de João Botelho. Ele cometeu um erro. Mas até a escritora entende que não deve processá-lo. E se parássemos de queimar pessoas na praça pública? Não era porreiro?
      Botelho e Barraqueiro são adultos. Que sentem numa mesa e resolvam. Trata-se de uma questão meramente jurídica. Mas a infantilidade atávica do tuga acha que deve dramatizar tudo e mais alguma coisa.

      1. Não quero é que o Ministério da Educação continue a exibir aos meninos das escolas este filme como se fosse modelar.
        A menos que a intenção seja a de que tudo é possível – o plágio, o furto – em nome da “fruição artística” paga por todos nós.
        Se for esse o desígnio “pedagógico, subsidiem também os discos do Tony Carreira.

        1. É incrível, o sr. não quer que assistam ao filme de João Botelho… não está nada preocupado com as crianças, parece-me. Nem com as dezenas de pessoas que trabalharam no filme. Todos eles palgiaram? Não merecem existir? É a não-inscrição… Impressionante como no fim vai tudo parar n’O Medo de Existir…

          Não deseje tal maldade a Barraqueiro e a Botelho. Pelo menos agora toda a gente sabe que o filme adapta algo da obra de Barraqueiro. Justo agora é para vetar o filme? Quem vai vetar, a Censura? A PIDE?

          Deixem Botelho em paz… meter Tony Carreira nessa história é tão populista. Tony Carreira não admitiu, não pagou e não está a ser investigado pela justiça? Já foi condenado? A quê, ao degredo?

          Larguem da mão e quem produz alguma cultura ou entretenimento neste país.

      2. A escritora não o processa, porque alega:

        –” Tenho quase setenta anos,com o estado da justiça portuguesa…..”

        SÓ queria um pedido de desculpas do realizador…

        Jornal Macau

        1. A escritora não faz valer o seu direito? Fez mal. Devia ao menos ter sentado à mesa cara a cara com ele. Devia ter pensado em todos os demais autores. Se resolveu não exigir o que é de lei, então andar pela internet a tentar destruir a vida de João Botelho é muito feio uma pessoa madura agir como uma criança.

          Prefere andar a promover a si e ao seu livro. Pois, o retorno em tempo de antena é muito maior do que receber direitos ou ter o nome no início do filme. Faz sentido. Ele há espertos

          E a editora? O que fez? Que nulidade de editora é essaque não defende a autora?

  8. Plágio mais marcante vai nesta Páscoa para Costa como o homem que já ressuscitou pelo menos 3 vezes.

  9. João Botelho diz que “tentou contactar a editora e não conseguiu nem à primeira nem à segunda”. A produção de um filme é trabalhosa, diz ele, e não teve oportunidade para telefonar uma terceira vez. Quer dizer: durante meses, ninguém ligado à produção (nem sequer o estagiário que é responsável pela cafeteira) dispôs de uma manhã livre para ir às instalações da própria editora (que não é, convenhamos, uma microeditora unipessoal – tem um website, a morada disponível online e pertence ao grupo Leya) ou, vá lá, dez segundos livres para tentar um terceiro telefonema.

    Se eu fosse maldoso, ainda era capaz de pensar que todo o chorrilho de desculpas que ele debita não passa de um deslumbrante exercício de cara-de-pau.

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