Cheira a pólvora


Paulo Sousa,

Além de outras coisas, faço parte da gerência de um negócio familiar que se encaixa no que se costuma designar comércio local.

Teoricamente, o comércio é a intermediação de mercadorias realizada para suprir necessidades. Mas para além disso permite uma relação com o público que, sempre foi e sempre será, uma permanente escola sobre a natureza humana. Estes dias têm acrescentado novos capítulos ao extenso compêndio de um negócio que tem as portas abertas desde 1973.

Desde sábado, dia 14 de março, que alterámos o normal funcionamento. Os clientes são atendidos na rua através do gradeamento, o estacionamento no nosso parque não é permitido e toda a nossa equipa atende de máscara e luvas. De forma a salvaguardar a integridade dos nossos clientes, muitos dos quais pertencem ao chamado grupo de risco, assumimos os custos das entregas ao domicílio. Certamente que esta semana voltarei a ultrapassar a fasquia das 60 horas.

Do lado de dentro do balcão todos partilhamos a responsabilidade para com o público. Estamos conscientes de que vivemos dias realmente especiais e que alguns dos artigos que transaccionamos não podem faltar a quem os procura. Refiro-me especificamente ao gás engarrafado e a rações para animais, domésticos e de companhia.

Como o gás nas cidades é canalizado e os animais das marquises comem do supermercado, este tipo de artigos nunca são incluídos nos serviços mínimos referidos pelos media o que, considerando o seu limitado ângulo de observação da realidade, não surpreende.

A campanha “militar” contra o vírus ainda está a começar. A guerra vai ser longa, e a estatística avisa-nos que alguns de nós não celebrarão o dia da vitória. Por isso, tal como numa maratona, a solução resume-se a colocar um pé à frente do outro. E não parar.

Amanhã continuamos.

PS: Só hoje, à hora de almoço, é que consegui colocar a bandeira em cima do letreiro.

2 comentários em “Cheira a pólvora”

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