“Cerca de uma” repórter


Pedro Correia,

Acabo de escutar, num canal de televisão, uma repórter em directo no aeroporto de Lisboa: «Podemos dizer que foram cancelados cerca de 14 voos.»

Porque não cerca de 13 ou cerca de 15?

Apetece escrever, em versão alternativa e adequada à situação: «cerca de uma repórter…» Alguém incapaz de contar até 14.

Confirma-se: o “cerca de” tornou-se praga tão forte como o “alegado” na linguagem comum do jornalismo português.

25 comentários em ““Cerca de uma” repórter”

  1. Tem todo a razão, e não lhe estou a lamber as botas, mas essa do “cerca de 14” é mato como diria o meu Abílio.
    Há o “cerca de” mas com uma conta certa e há outra mais complicada como que o contrário do famoso ‘é só fazer as contas’. No cmanhoso apareceu, nas notícias alarmistas de faca e alguidar, uma pérola ‘Foi violada 937 vezes’. Coitada da violada, além de o ser tinha tudo registado com precisão.

  2. É mais a acerca de uma repórter. Por falar em jornalistas, ontem o Santana deu de frosques num directo por causa de uma fotografia.

      1. Posso dizer 9 aeronaves (ou cerca de 9 aeronaves…) mas “meios aéreos” é o conjunto dos meios aéreos numa determinada situação. Não posso dizer que há um número de conjuntos para descrever o interior de um conjunto.

  3. Boa tarde Pedro Correia
    Acaba de me dar mais uma boa razão para continuar a quase não olhar para o televisor.
    Bom fim de semana, saúde.
    PRONTOOOOSSS!
    António Cabral

    1. Podemos olhar, mas por vezes não é inútil desligar o som, caro António Cabral.
      Sobretudo naqueles intermináveis directos que duram longos minutos sem nada haver para informar. Nada mesmo.
      Diz-se na gíria que isto é «encher chouriços».
      Se fosse actividade industrial, tínhamos muito chouriço para exportar.

  4. Há uma possível desculpa: a repórter estava a noticiar uma greve. Ora, nestes casos, como acontece também regularmente em manifestações, as partes em conflito (ou interessadas) são useiras e vezeiras em fornecer números não fiáveis, e em dificultar ao máximo a obtenção de informação rigorosa. Talvez a repórter tivesse usado o bordão como forma de se distanciar da informação que lhe passaram, ou que ela apenas conseguiu apurar numa contagem por alto.

    1. Era cancelamento de voos, irrelevante se foi provocado ou não por greve.
      Se eram 14 os voos cancelados, não eram “cerca de”.
      Se o número era outro, dizia-se qual era.
      Qualquer pessoa sabe contar até 14. Se é repórter, tem obrigação especial em matéria de rigor. E só entra em antena quando o número está confirmado.

      O problema é que o “cerca de” se tornou um bordão, uma bengala, que acompanha tudo e dá origem a estas frases ridículas.
      Como o “alegado”. Até já ouvi mencionar o “alegado suposto suspeito”. Parece anedota mas não é.

      1. Ouvi uma explicação sobre as palavras utilizadas pela Polícia/GNR e até Bombeiros na descrição do um acidente. (sem ser o estava ‘completamente’ cadáver).
        Tem de ser assim para poder vir servir de prova em Tribunal, é a explicação.

        1. Na cobertura de uma manifestação sindical, já ouvi uma repórter televisiva mencionar «cerca de onze manifestantes».
          Compreende-se a imprecisão. Afinal, para a contagem, só tinha dez dedos.

          1. E o Estádio estar completamente cheio?
            Já não falando do Vata que chutava om o pé que tinha mais à mão.

          2. “Completamente cheio” está ao nível do “desfecho final” ou da “breve pausa” – expressões sem sentido que escutamos a toda a hora.
            Com a nossa tendência de complicar em vez de simplificar a comunicação. Enchê-la de redundâncias, frase após frase.

  5. Comandante do forte para a sentinela:
    São muitos os índios?
    1002, meu comandante!
    1002?
    Sim. Veem 2 à frente e CERCA de 1000 atrás deles!

    Leão do Fundão

  6. Que esperar de uma classe profissional (repórteres e pivots de TV) que chamam “populares” às pessoas? No fundo, nas suas cabecinhas de merda, o “popular” é um eufemismo para “campónio” e “labrego” — qualquer desgraçado que viva no campo e que não apareça vestido à maneira do work/buy/consume/die das cidades que os obriga a escravidão nas corporações.

    Aliás, o que os jornalistas fazem normalmente é repetir o jargão profissional das “forças” que estão no “teatro” que eles estão a captar. A linguagem televisiva, o seu léxico, é uma combinação de termos de medicina, palavreado jurídico, bombeirês, genierrês, economês e empreendedorês — todo o linguajar médio que tornam a nossa sociedade a coisa mais deprimente e infeliz que existe, onde só a espuma da bosta que é estar vivo no meio disto vem ao de cima. Exprime aquilo —aquele ser medíocre— que nos obrigam a ser porque para sobreviver, para termos uns empregos onde somos escravos de toda esta imbecilidade, temos de ser corresponder à aspiração pós-burguesa e festivaleira de telemóvel na mão. Puta que os pariu a todos.

    Portanto, não digam “populares”. É mau. É feio. É um insulto inqualificável.

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