
«As dificuldades são também um desafio. Não têm de ser sempre um obstáculo.»
Henry Kissinger, The Economist (Maio de 1923)
Viveu muito, leu muito, viajou muito, conheceu muito.
Ensinou muito – e continua a fazê-lo, com plena lucidez intelectual, neste dia em que celebra cem anos.
Henry Albert Kissinger, nascido a 27 de Maio de 1923 na Baviera, fugido com os pais do regime nazi, refugiado em Nova Iorque aos 15 anos. Em 1943, naturalizou-se cidadão americano. Serviu no exército dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Escapou à morte, mas o sistema totalitário tocou-o de perto: 13 dos seus parentes sucumbiram no Holocausto.
Admirado, invejado e detestado em partes iguais, pontificou nas administrações Nixon e Ford entre 1969 e 1977. Primeiro como conselheiro da Segurança Interna, depois como secretário de Estado – terceiro posto na hierarquia governamental. No auge do caso Watergate, chegou a ser ele a segurar no leme. Enquanto rasgava horizontes na política externa norte-americana: liderou o degelo diplomático com a República Popular da China ao avistar-se com Mao Tsé-tung, levou Washington a substituir os soviéticos como força dominante no Médio Oriente ao assumir-se como interlocutor entre israelitas e árabes, negociou a limitação de armas estratégicas com Moscovo em plena Guerra Fria.
Doutorou-se com uma tese sobre Metternich (1773-1859), príncipe da diplomacia no império austríaco, expoente máximo da doutrina realista contra os idealistas, responsáveis por tantos conflitos bélicos.
Nos anos 50 e 60 foi um dos mais famosos professores em Harvard, onde leccionou Ciência Política antes de rumar aos palcos mundiais como comandante norte-americano para os assuntos externos. Com várias sombras entre muitas luzes, incluindo o apoio activo às ditaduras de Pinochet no Chile e de Suharto na Indonésia (dando cobertura à invasão de Timor em 1975) e a sua falhada visão de um Portugal mergulhado no comunismo em 1975, útil como «vacina para a Europa». Ao contrário do que previa, os comunistas foram derrotados aqui. Enquanto ganhavam terreno em África e no Sueste Asiático: o Nobel da Paz que recebeu em 1973 pelos acordos de Paris anteriores à retirada norte-americana do Vietname ainda suscita polémica.
Facto inegável: foi um dos mais brilhantes intelectuais que trabalharam nos últimos 60 anos na Casa Branca. Após abandonar funções públicas, tornou-se consultor de monarcas, presidentes e primeiros-ministros. Já nonagenário, continuou a percorrer o mundo: só a pandemia, em 2020, o reteve na sua casa rural no Connecticut. Mas ainda frequenta regularmente o seu escritório, no 33.º andar de um edifício art déco em Manhattan. E continua a publicar livros. Tem dois muito recentes. Um sobre inteligência artificial (tema que o fascina e preocupa), outro sobre seis políticos que conheceu pessoalmente: Konrad Adenauer, Charles de Gaulle, Richard Nixon, Anwar Sadat, Lee Kuan Yew e Margaret Thatcher (Liderança, já com edição portuguesa da Dom Quixote).
Do antigo Presidente francês, cita com frequência uma frase emblemática sobre comando político: «Assumir riscos constantes numa perpétua luta interior.»
Em recente entrevista ao Sunday Times, pronunciou-se sobre a invasão russa da Ucrânia. Elogiando Zelenski: «Não há dúvida de que cumpriu uma missão histórica.» E criticando Vladimir Putin: «Chefia um país em declínio e perdeu o sentido das proporções nesta crise.»
Judeu, aos 9 anos o pequeno Heinz (só viria a chamar-se Henry na América) viu Hitler ascender ao poder no seu país natal, onde em menino adorava jogar futebol. Nem o exílio forçado nem o incêndio da Europa que testemunhou ao vivo diminuíram o proverbial optimismo que muitos lhe reconhecem. Mas vai advertindo contra os sinais de crescente desagregação da ordem mundial que imperou nas últimas três décadas: «A segunda Guerra Fria será ainda mais perigosa do que a primeira.»
Um aviso que deve ser levado a sério. Vem de quem sabe mais e viu muito mais do que qualquer de nós.

Muito bom retrato de um homem tao controverso como brilhante
Agradeço as suas palavras.
Censura ou por causa das criancinhas?
Dizia-se ‘sistema totalitário’ para não assustar as crianças com comunismo, agora diz-se ‘sistema totalitário’ para não dizer nazismo por causa de quê?
Ao que chegamos.
Anónimos, de cara oculta, desembarcam aqui a perorar sobre totalitarismo e censura. Como se vivêssemos num regime desses.
Merecem diálogo? Não.
Cada vez desprezo mais gente que emite opiniões sem assinar.
Mantenho o meu comentário.
Explique por especial favor, essa do “sistema totalitário” em vez de “regime nazi” que fez com que a família Kissinger fugisse para os EUA.
E também pode explicar o tratamento de Kissinger dado aos regimes totalitários militares na América Latina e o dado com bombas napalm ao do Vietname com cerca de 60.000 mortos e mais de 300.000 feridos.
É uma vergonha, como agora se diz, você um conhecido jornalista não fazer, categoricamente, referência ao regime nazi.
Ainda vai a tempo, e como costuma fazer, emendar para “..mas o nazismo tocou-o de perto..”.
Como quer que eu me identifique, só tenho um nome e um apelido.
José da Silva
Prefiro a versão anterior, anónima, do que a súbita e sonsa “assinatura” José da Silva.
‘Tá bem, rectifico os 60.000 mortos e os 300.000 feridos são soldados americanos.
Ainda não explicou como é que se identifica quem tem um nome e um apelido e que crédito tem o mesmo comentário identificado ou não.
Como é que se identifica ? Envia para o blogue algum documento de identificação?
Aqueles anónimos que são publicados sem reparos estão identificados?
Estou sem a menor paciência para “dialogar” com anónimos.
Sobretudo com anónimos que se travestem de “Josés da Silva” para fingir que mostram a cara.
Pior que um anónimo é um anónimo sonso. Deste género.
Pedro Correia fica em brasa quando é apanhado numa marosca feita com intenção, depois engasga-se e desata a tossir.
Mas porque raio não referiu regime nazi e atirou com sistema totalitário?
Ainda por cima o regime nazi não era totalitário, como o comunista. Empresas como a VW, BMW, Mercedes, Hugo Boss e outras eram empresas privadas fornecedoras do regime nazi que não pertenciam ao estado.
Não precisa de “dialogar” apenas publicar os comentários que não são injuriosos ou mal intencionados
“Regime nazi” está escrito na quinta linha do texto que aqui deixei ontem.
Como qualquer pessoa que tivesse realmente lido o texto perceberia.
Há pessoas que não têm mesmo nada para fazer. Ocupam os dias com coisas destas. A marrar com inutilidades, tentando dar prova de vida desta forma.
Horas e horas na Net, de manhã à noite.
Incapazes de partilhar nada de útil seja com quem for.
Como é óbvio, bastante óbvio até, quando se diz sistema totalitário em vez de regime nazi estamos a comparar os regimes comunistas ao regime nazi. O que é bastante correcto.
É claro que se formos intelectualmente desonestos (atributo muito particular das esquerdas e das extremas-direitas) não achamos piada à comparação. Mas, tant pis, comunismo e nazismo são frutos da mesma época.
Os comunistas detestam ser apontados como defensores de sistemas totalitários.
Tenho uma novidade para eles: são mesmo defensores de sistemas totalitários.
V. , então o centro e a direita honestamente como classificam que no regime nazi tenham proliferado empresas privadas, que primeiro ficaram com os negócios dos judeus e depois fornecedores do estado nazi durante a guerra.
A diferença entre o fascismo e o comunismo é precisamente essa. Mas é a única.
V., então, afinal, não “….é bastante correcto.”, a comparação.
Convém realmente ler-se muito e estudar muito, para não se ser formatado…
https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Trial_ of_Henry_Kissinger
Falo disso no texto. Sem palas nos olhos nem ódios ideológicos, que minam a cultura e tornam inútil toda a sabedoria.
E outra coisa: convém sempre ler um pouco mais do que os verbetes da Wikipédia. Há muito mais mundo intelectual para além disso.