Cem palavras que odeio (26)


Pedro Correia,

“INVERDADE”

21 comentários em “Cem palavras que odeio (26)”

      1. Pois somos. Escrevi em tempos uma crónica sobre isso mesmo, e nada mudou até hoje. Se a encontrar ainda, trago-a aqui. Tem muito que ver com esta tua série das palavras “novas”, e tem mais de 20 anos!

  1. Parece-me que a palavra terá acolhimento num discurso subtil e inteligente, evitando as consequências eventualmente danosas que decorrem da afirmação de algo como sendo mentira.
    Por outro lado, nem todos os factos da vida podem ser vistos com a linearidade desejada, e existem porventura espaços indefinidos ou indeterminados (ou insuficientemente definidos) que tornam excessiva a utilização da palavra “mentira”.
    Tão só a minha opinião. 🙂

    1. Essa é uma hipótese possível, Sílvia. Outra hipótese, completamente diferente, é que esta palavra resulte da mais pura hipocrisia. Um mentiroso é um mentiroso – não é um “inverdadeiro”.

      1. Concordo consigo Pedro.
        Mas a hipocrisia poderá estar presente em todas as palavras, mesmo aquelas que menos se propiciam a isso (depende de quem as profere). A diferença será que neste particular caso ela se tornará mais evidente.
        E, claro, um mentiroso é um mentiroso.
        Uma boa semana 🙂

    2. Percebo o que diz, Sílvia, e não defendo um mundo linear em que só existam o branco e o preto. Mas por mais subtileza e rigor que se pretenda no discurso, “inverdade” significa (literalmente) a negação da verdade, ou seja, significa “mentira”. Mais vale, então, que se invente uma palavra completamente diferente, que atenue o efeito e as consequências de que fala quando a palavra “mentira” é excessiva.

      1. Não obstante essa aproximação ou sobreposição de significados literais, apontando a inverdade para uma indubitável negação da verdade, a mentira apresenta-se-nos indissociada de uma conotação negativa que se prende com a intenção deliberada de enganar, enquanto a inverdade nos poderá remeter para o campo das incorrecções, dos erros, das falhas, das deficientes informações, que podem colocar o sujeito ele próprio numa situação de engano. A inverdade, despida de hipocrisias, surgirá neste prisma como um conceito a que a nossa consciência ética poderá atribuir uma menor lesividade, e por isso sujeito a uma menor reprovação social.

        1. Terá formalmente toda a razão, Sílvia. A minha aversão pela palavra, como provavelmente acontece com o Pedro, tem que ver com as situações em que a tenho ouvido. Demasiadas vezes tem servido para dourar a pílula de uma mentira descarada.

  2. O problema é que a “inverdade” produziu um efeito-de-eucalipto sobre a “mentira”: já ninguém “mente”, só “inverdadeza” (de “eu inverdadezo”, “tu inverdadezas”…).

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