Pois somos. Escrevi em tempos uma crónica sobre isso mesmo, e nada mudou até hoje. Se a encontrar ainda, trago-a aqui. Tem muito que ver com esta tua série das palavras “novas”, e tem mais de 20 anos!
Parece-me que a palavra terá acolhimento num discurso subtil e inteligente, evitando as consequências eventualmente danosas que decorrem da afirmação de algo como sendo mentira. Por outro lado, nem todos os factos da vida podem ser vistos com a linearidade desejada, e existem porventura espaços indefinidos ou indeterminados (ou insuficientemente definidos) que tornam excessiva a utilização da palavra “mentira”. Tão só a minha opinião. 🙂
Essa é uma hipótese possível, Sílvia. Outra hipótese, completamente diferente, é que esta palavra resulte da mais pura hipocrisia. Um mentiroso é um mentiroso – não é um “inverdadeiro”.
Concordo consigo Pedro. Mas a hipocrisia poderá estar presente em todas as palavras, mesmo aquelas que menos se propiciam a isso (depende de quem as profere). A diferença será que neste particular caso ela se tornará mais evidente. E, claro, um mentiroso é um mentiroso. Uma boa semana 🙂
Percebo o que diz, Sílvia, e não defendo um mundo linear em que só existam o branco e o preto. Mas por mais subtileza e rigor que se pretenda no discurso, “inverdade” significa (literalmente) a negação da verdade, ou seja, significa “mentira”. Mais vale, então, que se invente uma palavra completamente diferente, que atenue o efeito e as consequências de que fala quando a palavra “mentira” é excessiva.
Não obstante essa aproximação ou sobreposição de significados literais, apontando a inverdade para uma indubitável negação da verdade, a mentira apresenta-se-nos indissociada de uma conotação negativa que se prende com a intenção deliberada de enganar, enquanto a inverdade nos poderá remeter para o campo das incorrecções, dos erros, das falhas, das deficientes informações, que podem colocar o sujeito ele próprio numa situação de engano. A inverdade, despida de hipocrisias, surgirá neste prisma como um conceito a que a nossa consciência ética poderá atribuir uma menor lesividade, e por isso sujeito a uma menor reprovação social.
Terá formalmente toda a razão, Sílvia. A minha aversão pela palavra, como provavelmente acontece com o Pedro, tem que ver com as situações em que a tenho ouvido. Demasiadas vezes tem servido para dourar a pílula de uma mentira descarada.
O problema é que a “inverdade” produziu um efeito-de-eucalipto sobre a “mentira”: já ninguém “mente”, só “inverdadeza” (de “eu inverdadezo”, “tu inverdadezas”…).
Concordo. Eu sempre achei que devia ser “não-verdade”. Ou “desverdade”. Ou “sim-mentira”.
Alguns membros do Governo, com destaque para o primeiro, têm praticado bastante esta modalidade desportiva.
É dos eufemismos mais irritantes que conheço. Mentira é mentira, pode ter desculpa mas não tem nuances.
Há outras: invisual, idoso… Somos especialistas em eufemismos.
Pois somos. Escrevi em tempos uma crónica sobre isso mesmo, e nada mudou até hoje. Se a encontrar ainda, trago-a aqui. Tem muito que ver com esta tua série das palavras “novas”, e tem mais de 20 anos!
Vê lá se encontras isso. Como sabes, é um assunto que me tira do sério.
Vou procurar.
A Ana Vidal já disse!
:))
E disse bem, como sempre.
Mas essa palavra existe?!
Não só existe como já está gasta de tanto a usarem.
E ainda deveria existir a “inverdade-inverdade” por oposição à “verdade-verdadinha”.
Verdade mesmo?
Parece-me que a palavra terá acolhimento num discurso subtil e inteligente, evitando as consequências eventualmente danosas que decorrem da afirmação de algo como sendo mentira.
Por outro lado, nem todos os factos da vida podem ser vistos com a linearidade desejada, e existem porventura espaços indefinidos ou indeterminados (ou insuficientemente definidos) que tornam excessiva a utilização da palavra “mentira”.
Tão só a minha opinião. 🙂
Essa é uma hipótese possível, Sílvia. Outra hipótese, completamente diferente, é que esta palavra resulte da mais pura hipocrisia. Um mentiroso é um mentiroso – não é um “inverdadeiro”.
Concordo consigo Pedro.
Mas a hipocrisia poderá estar presente em todas as palavras, mesmo aquelas que menos se propiciam a isso (depende de quem as profere). A diferença será que neste particular caso ela se tornará mais evidente.
E, claro, um mentiroso é um mentiroso.
Uma boa semana 🙂
Boa semana, Sílvia.
Percebo o que diz, Sílvia, e não defendo um mundo linear em que só existam o branco e o preto. Mas por mais subtileza e rigor que se pretenda no discurso, “inverdade” significa (literalmente) a negação da verdade, ou seja, significa “mentira”. Mais vale, então, que se invente uma palavra completamente diferente, que atenue o efeito e as consequências de que fala quando a palavra “mentira” é excessiva.
Não obstante essa aproximação ou sobreposição de significados literais, apontando a inverdade para uma indubitável negação da verdade, a mentira apresenta-se-nos indissociada de uma conotação negativa que se prende com a intenção deliberada de enganar, enquanto a inverdade nos poderá remeter para o campo das incorrecções, dos erros, das falhas, das deficientes informações, que podem colocar o sujeito ele próprio numa situação de engano. A inverdade, despida de hipocrisias, surgirá neste prisma como um conceito a que a nossa consciência ética poderá atribuir uma menor lesividade, e por isso sujeito a uma menor reprovação social.
Terá formalmente toda a razão, Sílvia. A minha aversão pela palavra, como provavelmente acontece com o Pedro, tem que ver com as situações em que a tenho ouvido. Demasiadas vezes tem servido para dourar a pílula de uma mentira descarada.
O problema é que a “inverdade” produziu um efeito-de-eucalipto sobre a “mentira”: já ninguém “mente”, só “inverdadeza” (de “eu inverdadezo”, “tu inverdadezas”…).